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Diário Criosfera – A Volta

Desmontamos as barracas e preparamos o retorno da expedição. Agora o módulo Criosfera 1 funcionará automatizado até o final do ano.

Jefferson Simões ·
19 de janeiro de 2012 · 10 anos atrás
Jefferson Simões. Foto: Ulisses Bremer / UFRGS
Jefferson Simões. Foto: Ulisses Bremer / UFRGS
17 de janeiro (84°S, 79°29’39″W; 1287 m; -17°C, sensação térmica -35°C) – Platô do Manto de Gelo da Antártica Ocidental.

Trabalhos encerrados no Criosfera 1. A partir do meio-dia, iniciou-se a correria para desmontar barracas e fechar o módulo para o inverno antártico. Como temos que trabalhar contra o vento, muitos dos nossos dedos e rostos ficaram dormentes. As 16h30m nosso avião DC-3 Bassler aterrissou na pista de pouso improvisada na neve. Nosso desafio imediato: colocar 2 toneladas de carga (incluindo 600 kg de amostra de gelo), uma moto de neve, bagagem pessoal e 10 passageiros para dentro. Apertados, entre caixas e trenós, decolamos as 17h30min para nossa viagem de 470 km.

Agora o módulo Criosfera 1 funcionará totalmente automatizado, até o final do ano. Será que os diferentes sensores sobreviverão ao longo inverno polar, sem luz a partir de meados de abril? Estima-se que as temperatura do ar caia a -60°C no meio do inverno.

17 de janeiro – Geleira Union (79°46’S, 82°50’W; -6°C)

19h – Após 27 dias acampados e sob muito frio (a temperatura oscilou entre -9°C e -20°C; e a sensação térmica caiu a -42°C) chegar no acampamento base na geleira Union nos traz uma sensação de calor, pois estava -6°C e sem vento.

Somos recebidos com espumante para comemorar o sucesso da missão. Mas também comemoramos o centenário da chegada da expedição britânica liderada pelo Capitão Robert F. Scott ao Polo Sul Geográfico. Após atravessarem toda plataforma de gelo Ross, subirem as montanhas Transantárticas e caminharem até o Polo Sul, Scott, Dr. Wilson (seu chefe científico), Capitão Oates, Tenente Bowers e o Sargento Evans, tiveram o dissabor de encontrar as bandeirolas e uma barraca de Amundsen (que tinha chegado lá no mês anterior, 14 de dezembro). A viagem de retorno resultaria na tragédia polar clássica, numa luta contra a situação meteorológica adversa, fome e exaustão, e finalmente a morte de todos os cinco companheiros.

Se a tentativa de Scott em chegar ao Polo acabou em tragédia, o mesmo não pode ser dito da parte científica da expedição. Alguns dos pioneiros da ciência polar, inclusive o primeiro professor titular de Geografia da Universidade de Cambridge, ficaram na costa da Antártica realizando uma série de investigações sobre o clima, geologia e biologia.

Teremos 24 horas para preparar nossa carga e, se as condições meteorológicas permitirem, partir para Punta Arenas amanhã.

Um pouco de ciência – Pesquisas no acampamento base da geleira Union 1

Trabalhos de geofísica. Foto: Jefferson Simões
Trabalhos de geofísica. Foto: Jefferson Simões
Enquanto estávamos no platô do manto de gelo, no local do Criosfera 1, nossos 7 colegas que ficaram na geleira Union realizaram intensas investigações. Rosemary Vieira (Universidade Federal Fluminense), única mulher do grupo, realizou trabalhos sobre a geomorfologia local e coletas de sedimentos para análises em laboratório. O objetivo é a reconstrução paleoclimática e paleoglaciológica da área, para entender como as variações climáticas de longos períodos afetaram a evolução das geleiras locais. Ela e os outros grupos nas redondezas da geleira Union tiveram que atravessar vários campos de fenda. Mesmo as motos de neve tiveram que ser encordadas, para evitar uma queda fatal do pesquisador com seu veículo.

18 de dezembro – Geleira Union (79°46’S, 82°50’W; -6°C)

Embarque da equipe para retorno à Punta Arenas. Foto: Alexandre Alencar / UERJ
Embarque da equipe para retorno à Punta Arenas. Foto: Alexandre Alencar / UERJ
Fim dos trabalhos na Antártica e retorno à Punta Arenas, onde o Ilyushin 76 com a equipe, carga e 500 kg de amostra de neve e gelo aterrissou às 22 horas. Nos próximos dois dias teremos intensa atividade de preparação de carga e embarque dos testemunhos de gelo para a Universidade do Maine, EUA.

Nossa chegada ao Brasil está prevista para segunda-feira (23 de janeiro). Voltamos todos no mesmo voo, com exceção de dois colegas (Saulo Martins e Guilherme Fernandez) que ficaram na geleira Union completando um levantamento de fendas no gelo perto da pista de pouso (para melhorar a segurança dos pesquisadores e montanhistas que vão à região). Eles chegam a Punta Arenas nos próximos três dias.

Exaustos, só tivemos condições de tomar um banho (o primeiro depois de 30 dias) e jantar. Amanhã devo enviar um breve relato das principais realizações da Expedição Criosfera.

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