Pinus versus bois nos campos sulinos PDF Imprimir E-mail
20/03/2009, 14:00
Programar uma viagem para visitar as maravilhas de São José dos Ausentes, no Rio Grande do Sul, é um período delicioso para quem está cansado de presenciar as destruições de nossos ecossistemas naturais e das demais falcatruas que se ouve, lê e vê no dia a dia. Fugir de tudo para estar em um ambiente natural é o sonho que sempre acompanha os ambientalistas, ou os profissionais da área ambiental. Antes da viagem propriamente dita há uma troca de emails para provocar amigos e saber mais o que ver na famosa região. A rota escolhida tem de ser a mais selvagem possível. É bom consultar amigos e cientistas de conservação da natureza para aproveitar o que a natureza oferece de mais interessante. Também é bom se informar sobre em qual pousada ficar, com certo conforto, pois ninguém é de ferro.

O começo da aventura é bem civilizado. Saímos de Florianópolis até Urubici onde está o Parque Nacional de São Joaquim, com seus 49.000 hectares. São uns 180 quilômetros de asfalto. O trecho da subida é bonito, muito bonito. Excepcional mesmo é daí em diante, de Urubici até Bom Jardim da Serra. São 80 quilômetros de asfalto e depois uns 60 quilômetros de terra até a pousada indicada por amigos, perto do Monte Negro, ponto culminante do estado gaúcho, com seus 1.403 metros de altitude e a 40 quilômetros da cidade de São José dos Ausentes, por estrada de terra. Cruza-se o rio Pelotas na divisa dos dois estados sulinos. Tudo lá fica longe e tudo é por terra. Nos caminhos em busca dos atrativos já famosos a gente pode ver bandos de curicacas, gralhas azuis, gaviões, patos, pica paus, cachorro do mato e os mais afortunados até podem se deparar com um puma ou um tamanduá.

As paisagens são tão belas e raras que é difícil qualificá-las. Há evidentemente muitas culturas de maçã e há gado. Mas parece que, por vício, já estamos acostumados com este tipo de alteração antrópica, pois a paisagem se mescla com grandes capões de araucária e mata atlântica e a gente se delicia. Os mais bem informados podem dizer que só resta pouco mais de 100.000 hectares de araucárias no Brasil. O fato é inconteste, porém a impressão é de que tudo do que resta está lá.

Outro fato é que ficamos tão embevecidos com as paisagens que, embora já alteradas, sejam tão raras e especiais, que esquecemos, em um primeiro momento, ou no primeiro trecho da estrada de terra, de prestar atenção nos plantios de pinus. Mas tão logo chegamos perto do espetacular cânion do Monte Negro já nos deparamos com os enormes plantios de pinus e com o fato de que a araucária vai sumindo de nossas vistas. Quanto pinus! A maioria dos plantios parece muito feia porque são plantios recentes. Mesmo quando mais velhos, não podem sequer, nem de longe, ser comparados aos capões restantes das araucárias e aos resquícios de Mata Atlântica.

No entanto, colocando as emoções de lado, nos fazemos a pergunta que não quer calar: melhor os pinus que a pecuária, ou não? A conclusão é muito dura de admitir para nós mesmos. Que pena. Seria tão mais bonito e importante manterem-se as araucárias e a mata atlântica, como eram naturalmente. Mas a pecuária já se encarregou de destruir quase tudo e a erosão dos solos em muitos trechos é bem evidente. Até mesmo as culturas permanentes como a maçã, provocam desmatamentos inclusive alguns muito recentes. O que pode sobrar de natural são as áreas protegidas como, além do já mencionado Parque Nacional de São Joaquim, os Parques Nacionais de Aparados da Serra, mais conhecido como Itaimbézinho, com 10.250 hectares e o da Serra Geral com 17.300 hectares, no estado do Rio Grande do Sul, que abriga o cânion de Fortaleza.

 A Lei faculta, a cada proprietário particular, usar 80% de suas terras, no sul do país, excetuando-se as áreas de preservação permanente, pelo só efeito da Lei. Nem estes 20% de cobertura florestal exigidos por Lei – a conhecida reserva legal -, nem as APPs são respeitadas, na grande maioria dos casos.

Há alguns sítios mais protegidos na região e onde não se vê tanto pinus, onde se vê mais araucária, como, por exemplo, no caminho do Cachoeirão dos Rodrigues, ponto turístico do pedaço. São lindas! Penso que depois das cataratas do Iguaçu, foram as mais belas cachoeiras que vi no nosso país. Nem tanto pelo volume de água, que, de todas as formas é expressivo, ou pela altura da queda, mas, principalmente pelo estranho e belo formato. Seguramente logo, logo, uma hidroelétrica vai matar esse belo trecho do rio Silveira e engolir a Cachoeira dos Rodrigues.

Bem perto está a fazenda Potrinhas onde se entra para ver os rios Silveira e Divisa correrem paralelamente. Há que se atravessar o Silveira a pé para ver o espetáculo que penso eu é único no país: ver rios correrem paralelamente. Lá os proprietários de pousadas temem a feiúra dos plantios de pinus e adoram as araucárias e as vacas, embora começam a preferir as primeiras... Um pouco tarde demais, mas melhor é tarde do que nunca. Que alívio, enfim alguém pensa como nós. No entanto vão pequenas pousadas com um turismo ecológico e rural incipiente, conseguirem frear os plantios de pinus, as pastagens cultivadas, as hidroelétricas, o asfalto, ou seja, a destruição final do pouco que sobra?

Desculpem-me os jovens, mas na minha terceira idade e após 43 anos de trabalho na área ambiental tornei-me cética. Vou levar filhos, noras e amigos para conhecerem esse recanto do Rio Grande do Sul, divisa com Santa Catarina. Quem sabe os jovens possam vislumbrar algo que, por mais que eu queira, não consigo? Como parar com o plantio de pinus, amparado na legislação em vigor e seguramente mais rentável que a pecuária e recuperar essas áreas com a ameaçadíssima araucária para que se possa ter só isso: beleza?

Qual é mais prejudicial sob o ponto de vista ecológico: a pecuária ou o reflorestamento com espécies exóticas? É necessário reconhecer que, após o uso dos campos de altitude pela agricultura e pecuária, o reflorestamento é uma alternativa econômica razoável. E ela já lá está crescendo a olhos vistos, transformando as paisagens em pobres e imensas monoculturas.

Há que se conformar com o fato de que o Poder Público não possa desapropriar tudo e transformar toda a região em áreas protegidas. No entanto temos de acreditar que pode fazer muito mais do que hoje faz, junto com o setor privado para salvar o que resta de pouco alterado na região: 1) pode incentivar o estabelecimento de RPPNs; 2) pode criar alguns monumentos naturais; 3) pode proibir a avalanche de PCHs; 4) pode, ainda, incentivar e capacitar o pessoal local para o turismo rural e ecológico; 5) pode, acima de tudo, exigir o cumprimento da legislação florestal em vigor no país, que estabelece as reservas legais no nível de propriedade e protege as áreas de preservação permanente, que são essenciais para os serviços ambientais.

Tomara que algo seja feito antes que os pinus bordejem todos os cânions desse espetacular pedaço da nação, ou que a própria pecuária destrua o que lá resta de natureza primitiva.
Comentários
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ambientalista e membro do conselho deliberativo da
Carlos Amaral 20/03/2009 15:50:08

Oi Maria Tereza,

Li e gostei muito do seu artigo. Sou gaúcho, com origens no
planalto de São José dos Ausentes, mas atualmente moro em Curitiba. Já estive
muitas vezes na grande região que você visitou e descreveu, entre Urubici e SJ
dos Ausentes. De fato, ao mesmo tempo que ela encanta o viajante, pela
existência de vastas paisagens ainda em bom estado de conservação, por outro
lado assusta pelo aumento(nos últimos anos) do plantio indiscriminado de pinus,
em escala comercial.
Também creio que as alternativas mais adequadas de
solução ao problema são as que você citou, mas acrescentaria uma outra: a
participação e fiscalização do cidadão comum, mediante denúncias aos
órgãos ambientais competentes.
E digo isso porque eu mesmo, antes de me
tornar um ambientalista, fui protagonista de uma que tenho certeza indignou
muitas autoridades e acabou (conforme fui informado depois) acelerando os
estudos para criação do futuro PARNA Campo dos Padres, em conexão c/ o São
Joaquim.
Na oportunidade, o que me moveu foi exatamente a indignação que como
pessoa senti ao testemunhar com os meus olhos (minha esposa estava junto) a
agressão dos pinus a uma das mais espetaculares paisagens naturais de SC,
talvez o lugar mais bem preservado desse bioma no sul do Brasil, um autêntico
wildlife point, que é o Campo dos Padres, entre Urubici e Bom Retiro, um lugar
"quase" inacessível.
Bem, não vou me estender na denúncia em si, mas
o que eu quero dizer é que as pessoas comuns (de bom senso, é claro) não
podem ficar só olhando e se lamentando dos desastres, esperando que os governos
ajam, elas precisam também se mexer, denunciar, cobrar, exigir ações efetivas
dos órgãos responsáveis em coibir os crimes ambientais. E isto, felizmente,
eu vi acontecer na denúncia que acabei de comentar. A agressão cessou, os
responsáveis foram punidos e toda a área é neste momento objeto de consulta
pública p/ fins de implementação do dito PARNA. No meu caso, valeu à pena
denunciar.

Um grande abraço,

Carlos Amaral
Curitiba/PR
Soluções sempre existem
Monika Naumann 20/03/2009 19:30:38

Há muitas coisas que poderiam ser melhoradas no gerenciamento ambiental desta
região. A primeira pergunta feita por alguém que conhece a silvicultura
européia é: por que plantar Pinus, uma conífera exótica? Poderiam plantar
Araucária e manejá-la comercialmente. O crescimento é mais lento, mas e daí?
Na Alemanha o Serviço Florestal está plantando carvalhos, com período de
rotação de 200 anos...

Outro problema sério na região é relacionado à
regeneração natural. O gado tem acesso livre a todas as áreas,
consequentemente pisoteia ou pasta tudo. Quase não se vê mudas de Araucaria
pelos campos, e nos capões também quase não há mudas jovens das espécies
latifoliadas nativas. Quer dizer, do jeito que vai, toda esta vegetação
remanescente está fadada a desaparecer por completo.

Está na hora de
instituições como o MPF dedicarem-se a este tema. Soluções existem, como
cercar áreas de APPs e de RL e introduzir o manejo da Araucária com fins de
exploração comercial. E não só da Araucária, pois existem outras espécies
nativas, como a goiabeira-de-serra, que tem alto potencial econômico.

Por
sinal, a própria sobrevivência do turismo como alternativa econômica
dependerá de um manejo mais "ecológico" da região, pois é pouco
provável que turistas queiram passear por maciços de Pinus ou por plantações
de maçã onde ainda se sente o cheiro do último biocida aplicado...

Monika
Naumann
Eng. Florestal / Gestora Ambiental
http://matasnativas.wordpress.com/
agradece
maria tereza 21/03/2009 05:13:05

Carlos Amaral,
Muitíssimo obrigada pelos seus aportes. Creio que você é do
Conselho da SPVS, se não me engano, e essa entidade vem fazendo de tudo para
tentar salvar as araucárias no sul do país. Parabéns pelo episódio do PARNA
Campo dos Padres, que eu desconhecia.
Um forte abraço ambientalista
Maria
Tereza
Pinus x Bois nos Campos Sulinos
Alcides de Mello Caldeira 21/03/2009 06:39:36

Maria Tereza,
Excelente o teor do texto que fizeste, em relação ao título
acima.
Tenho pequena propriedade aqui em Atibaia/SP e, ao invés de pinus (que
tem uma cor verde intensa, mas tem um tipo de resina que prejudica a terra,
plantei alguns pés de araucária, muito mais bonitas. Caso vier a adquirir
área maior, continuarei plantando-as desde a porteira de entrada, até a
chegada na casa-sede, ou em outro local.
Maria Tereza, favor substituir o termo
cânyon, por canhadão, que é muito mais bonito, está no nosso idioma, é mais
usado nos nossos pagos do RS pela indiada tradicionalista e, também, porque é
muito, muito mais bonito, tá !
Lindo o teu trabalho, prenda !
Pinus, bois e araucárias
Jordan Wallauer 22/03/2009 07:45:43

Cara Maria Tereza

Escrevestes "parece que tudo está ali", sobre o
que restam das araucárias do Brasil. Quase acertates! Cerca de 80% de todas as
aruaucárias do País estão nesta região que abrange uns poucos municípios de
Sc e RS. Daí o enorme potencial turístico que eles tem a partir da própria
paisagem que já não é mais encontrada em outros lugares. Mas, sem ceticismo,
é bom pensar que o desafio de criar bois, plantar árvores de crescimento
rápido e conservar matas de araucária precisa ser encarado. É possível (e
recomendável, porque mais lucrativo) criar bois de forma mais racional que
aquela tradicional das nossas serras e planaltos em que o gado é solto nas
matas, principalmente no inverno. É possível fazer conviver o plantio de Pinus
com a conservação de porções significativas de matas com araucárias (a
Florestal Gateados tem bons exemplos disto). É só mais uma batalha fazer disto
um hábito. Enfim, já passamos por tantas outras!
Campos sulinos
João de Deus Medeiros 22/03/2009 19:21:59

Prezada Maria Tereza
Parabéns e obrigada por nos brindar com o excelente texto
sobre essa região de tão elevada importância ambiental. Além dos
instrumentos legais mencionados, temos também agora a lei da Mata Atlântica
que, com a regulamentação dos estágios sucessionais da vegetação de campos
de altitude, poderá auxiliar na administração desse dilema. Campo dos Padres,
lugar realmente impar e que sugiro que voce também visite, tem o processo de
criação do PARNA questionado na justiça; O refúgio do Pelotas, que abrange
áreas de São José, encontra ainda enormes resistencias por conta das
pretensões de exploração hidrelétrica. Cresci circulando por essa região e
vejo que a urgencia de ações de conservação é mais que
evidente.
Parabéns
João de Deus
Visitar para conscientizar
Roberta Pereira 23/03/2009 12:24:28

Prezada Maria Tereza,

Acredito que o que falta é exatamente essa visão de
que a conservação ambiental é essencial para mais do que só a
"beleza" das nossas terras. Falta o envolvimento das pessoas com a
natureza. Falta a consientização de que estamos em um caminho sem
volta.

Acho que levar os mais novos a conhecerem essa região e perceberem o
que sua devastação acarreta é fundamental.

Nesse sentido, textos como o
seu são salutares pois, assim como fez comigo, deve deixar a muitos que não
conhecem essa região, com vontade de visitá-las e de contribuir um pouco com
sua preservação, por meio do turismo ecológico e responsável.

Parabéns.
Manejo de Fauna
João Carlos Carvalho 23/03/2009 14:28:47

Lembra quando conversávamos em sua casa em Brasília e eu afirmava que para
conservar áreas pristinas em locais onde a terra é valiosa tem que haver
conjuntamente o manejo sustentado da fauna e da flora .O IBAMA esqueceu que a
terra tem que dar um lucrinho , senão ela é destruída na visão à curto
prazo dos proprietários .Proibiram o uso da fauna sem ver os exemplos dos USA,
Inglaterra ,Alemanha ,Austria ,Espanha e até Portugal onde o manejo conjunto
das Corticeiras(Quercus suber) e dos jalis,corços,lebres e perdizes rende mais
de 100 milhões de euros por ano .
Manejo de fauna
João Carlos Carvalho 23/03/2009 14:30:11

Desculpe ,eu quiz dizer javalis e não jalis.
Monoculturas comuns a todos os países
pedro 23/03/2009 19:30:41

Olá,
Sou de Portugal,e pelo que posso verificar ao visitar sites de
ambiente,é que a questao das monoculturas sao uma problemática comum a muitos
países.Aqui,em Portugal,a monocultura de eucalipto ocupa uma grande área do
território,assim como o pinheiro bravo,ambas especies exóticas...anda que o
brasil tenha uma biodiversidade melhor conservada que a Europa,( por questoes
históricas,etc),a verdade é que a Europa ainda tem algumas relíquias
naturais,e é lamentavel que no meu país,as espécies nativas,nomeadamente os
carvalhos só ocupem 3 a 4% do território e que nao haja legislação que evite
o seu abate.Por exemplo,já só existe uma mata de carvalhos-portugueses no
alentejo,completamente vedada ao qual é obrigatório autorizaçao para
visitar,ou a mata da albergaria( de carvalhos robur) que está engolida por
pinheiros...Enfim...
Comer menos carne e usar menos papel bastaria
Renato Rizzaro 24/03/2009 07:46:34

Engraçado, mas também ando cético quanto a soluções milagrosas (terceira
idade?).
Um dia sonhei em ver meu país transformado num imenso parque de
diversões, quem sabe?
Em todos os discursos sobram estatísticas científicas e
faltam práticas, como é o caso do plantoi de pinus e criação de gado. Você
própria já parou para ver na sua caixa de correio ou na banca de revistas da
esquina, nos semáforos, nas repartições públicas e nos arquivos, a
quantidade de besteiras que são impressas???
E a quantidade de carne que é
absurdamente consumida nos rodízios?
Então, a cultura é do desperdício e
isso não é nessa geração que vai mudar, talvez, com algum colapso possa ter
um novo rumo, mas por enquanto, pela distância que existe entre a teoria e a
prática, vou vendo mesmo é os pinus invadirem até a beirada dos canyons, sim
e quando não, um ou outro boi caindo escarpa abaixo... E o pessoal lamenta
muito, mas é preciso comer carne e imprimir o folheto do campo de golf, as
cinco vias da petição, as infinitas páginas dos processos ambientais e o
nosso atestado de incopetência, frente ao poder milagroso das Usinas que geram
energia para nos divertirmos na frente da TV ou do com****dor... É, quem sabe
um dia a gente vire ambientalista de verdade e passe a não comer carne nem usar
papel. Que ajudaria no discurso, ajudaria!
com****dor
Renato Rizzaro 24/03/2009 07:49:22

acho que a censura barrou o que existe no meio da palavra, ora ora.. COM****DOR
Tentando novamente COMPUTER
Renato Rizzaro 24/03/2009 07:50:20

Em inglês foi... computer
campos selinos
camila 11/04/2009 06:38:09

o mundo tem que ser mais linpo esta muito opoluido ne
vgbdrd
c 22/04/2009 16:34:58

fgirx tr x
gay
rodrigo e heitor 20/10/2009 06:06:27

isso é uma porra
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