O ano de 2008 para as áreas protegidas PDF Imprimir E-mail
18/12/2008, 07:00
Para saber o quão mal estão as unidades de conservação do Brasil  é só  dar uma olhada nos dados disponibilizados pelo próprio Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). No seu site as informações sobre as áreas protegidas  até que começam animadoras. O ano escolhido como o de referência, não me perguntem o porquê, foi o de 1989, quando o país possuía 140 UCs que somavam 30 milhões de hectares em contraste com 2008 com 299 UCs estabelecidas  totalizando 77 milhões de hectares, ou seja, 8,2% do território nacional. É realmente animador constatar que o país continua a estabelecer unidades de conservação e tenha atingido o índice de 8,2 % de sua extensão territorial neste ano.

Quadro 1. Uso indireto
Unidades de conservação de Proteção Integral Número de UC’s Área em milhões de hectares
Parques Nacionais 63 24,40
Reservas Biológicas 29 3,87
Estações Ecológicas 32 7,21
Monumento Natural 1 0,01
TOTAL 125 35,40

O que não convence muito é o fato de que se está estabelecendo muito mais unidades de conservação de uso direto dos recursos naturais ou, como diz a Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), “unidades de conservação de uso sustentável”, como fica demonstrado comparando os quadros 1  e 2, cuja fonte é o próprio ICMbio e nos quais foram desconsideradas as categorias inexpressivas.

Quadro 2. Uso direto
Unidades de Conservação de Uso Sustentável Número de UC’s Área em milhões de hectares
Áreas de Proteção Ambiental 30
9,94
Florestas Nacionais 65
19,59
Reservas Extrativistas 56
11,92
TOTAL 151 41,45

Além das unidades de conservação federais o país reconheceu  mais de 500.000 hectares como Reservas Particulares do Patrimônio Natural, as conhecidas RPPNs.  Somando todas as unidades de conservação federais o país já tem 299, que totalizam 77 milhões de hectares aproximadamente, contra as 140 existentes em 1989, que totalizavam os 30 milhões de hectares. Assim, em quase 20 anos, mais do que dobramos os milhões de hectares de áreas protegidas decretadas. Isso é muito bom.
                                                        
Não obstante, o que fica muito claro da análise dos dados  é que nos últimos anos o Brasil vem preferindo, indubitavelmente, as categorias de unidades de conservação de uso sustentável, ao invés das unidades de conservação de proteção integral. Em 1992, por exemplo, nosso país possuía apenas 11 Reservas Extrativistas e em 2008 possui 56. Possui em 2008 mais Florestas Nacionais (65) do que Parques Nacionais (63), embora a extensão dos Parques seja maior do que a das Florestas Nacionais. Mas, se somarmos as principais unidades de conservação de proteção integral (Parques Nacionais, Reservas Biológicas e Estações Ecológicas) teremos 35 milhões de hectares versus os 41, 45 milhões de hectares das principais unidades de conservação de  uso sustentável (Reservas Extrativistas, APAs e Florestas Nacionais). Assim, a tendência de nossos governantes tem sido procurar fazer o que é mais fácil: criar unidades de conservação de uso direto dos recursos naturais (quadro 2)



Mais grave ainda é saber que o Governo Federal, com o advento do desventurado ICMBio possui apenas 1.635 servidores e que 82 unidades de conservação não têm gestor e 173 delas não têm fiscais designados, ou seja 57%. Das 56 Reservas Extrativistas decretadas, 53 não possuem plano de manejo e apenas 24%  dentre todas as unidades de conservação existentes têm plano de manejo. Foi isso o principal resultado que o Governo conseguiu ao criar em 2007, pela Lei nº 11.516 o ICMBio, por proposta do Executivo!

Assim, este país considerado emergente, que se vangloria de ter reservas e musculatura para enfrentar a crise que estamos vivendo, possui no seu sistema nacional de unidades de conservação, um (1) funcionário para trabalhar nada menos do que 48.125 hectares do  seu maior patrimônio natural. É mesmo assustador que se possa acreditar que um ser humano apenas consiga tomar conta de 48.125 mil hectares! Isso demonstra uma grave deterioração da situação desses parâmetros de mais de quase duas décadas atrás, que já era uma das piores do mundo.

Além do mais, em 2008, a visitação nos Parques Nacionais foi de apenas 3,5 milhões de visitantes, sendo 90% dos mesmos, em dois Parques Nacionais: Iguaçu e Tijuca. Não é à toa que o brasileiro não defenda os Parques Nacionais, pois eles são ilustres desconhecidos da população em geral.

Além de devastações, quase que corriqueiras em unidades de conservação, como o incêndio que torrou metade do Parque Nacional da Chapada Diamantina na Bahia, ou seja, 80.000 hectares; ou o incêndio no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães em Mato Grosso, o que de mais grave aconteceu, em 2008, foram as reiteradas propostas de diminuição do tamanho das Unidades de Conservação de Uso Indireto. Pior ainda é saber que muitas dessas propostas foram rápida e alegremente aprovadas  e, claro, tampouco faltaram mudanças de categorias das unidades de conservação, das mais restritivas para as mais permissivas.

Começando pela menos grave, se isso é  mesmo possível, houve a mudança de categoria do Parque Nacional dos Pontões Capixabas para Monumento Natural, no estado do Espírito Santo, por iniciativa de parlamentares e com a aquiescência do Executivo, ou seja, do Ministério do Meio Ambiente. Digo menos grave porque a área transformada em Monumento Natural também é uma categoria de uso indireto dos recursos naturais.

Como virou moda no país se extinguir ou diminuir Parques Nacionais, tivemos em 2008 a aprovação  de um projeto de lei pela Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados, que reduz em 48.000 hectares o Parque Nacional da Serra da Canastra, em Minas Gerais. De nada serviu saber que ele abriga nada menos que as nascentes do esgotado e maltratado rio São Francisco. Novamente deputados mineiros acataram a reivindicação de mineradores e solicitaram a diminuição do Parque Nacional e a transformação dos 48.000 hectares tirados do Parque em APA, uma categoria de unidades de conservação onde tudo é permitido, menos, é claro, o proibido pelo só efeito da lei, na legislação orgânica do país. E, pasmem o Executivo não ficou contra a medida. Outro Parque Nacional ameaçado é o primeiro estabelecido no país, o do Itatiaia, do qual se propõe retirar 1.500 hectares ocupados por particulares.

Por isso mesmo muitos estados vêm propondo o mesmo para suas unidades de conservação, em conflito com outros interesses desenvolvimentistas. A última façanha é a proposta do governador de Santa Catarina, justamente Santa Catarina, em diminuir o Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, com mais de 80.000 hectares, em sua zona costeira, através do projeto de lei PL 347.3 de 2008 para atender - quando não? - interesses imobiliários.

Assim, não temos muito que comemorar na área de conservação da natureza no Brasil no ano de 2008, a não ser pequenas ações pontuais, que embora localmente sejam expressivas, não podem garantir a conservação de nossa imensa biodiversidade, como, por exemplo, o reconhecimento de várias novas RPPNs.

A grande conquista do ano seria a resolução do Supremo Tribunal Federal, se o voto do ministro Carlos Alberto Direito tivesse sido acatado também em seus itens de 8 a 10, salvando o Parque Nacional do Monte Roraima, com seus 116.000 hectares, estabelecido em 1989, na área indígena Raposa Serra do Sol. Como a definição foi postergada supostamente para o início do ano que vem, nem podemos considerar agora, de forma prematura, um grande avanço para áreas protegidas em 2008. Os itens mencionados rezam:... “8 - O usufruto dos índios na área afetada por unidades de conservação fica restrito ao ingresso, trânsito e permanência, bem como caça, pesca e extrativismo vegetal, tudo nos períodos, temporadas e condições estipuladas pela administração da unidade de conservação, que ficará sob a responsabilidade do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade;

 9 - O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade responderá pela administração da área de unidade de conservação, também afetada pela terra indígena, com a participação das comunidades indígenas da área, em caráter apenas opinativo, levando em conta as tradições e costumes dos indígenas, podendo, para tanto, contar com a consultoria da FUNAI e;

10 - O trânsito de visitantes e pesquisadores não-índios deve ser admitido na área afetada à unidade de conservação nos horários e condições estipulados pela administração;” ...

 Assim, somando e diminuindo não cabe, finalmente, achar azul o balancete para as unidades de conservação em 2008. Este, como outros anos recentes, tem sido bem ruim para as áreas protegidas sob a responsabilidade do ICMBio.
Comentários
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Falta ciência aplicada e disposição política
jorge nascimento 20/12/2008 11:13:11

Este artigo mostra que a situação tá difícil e explora o assunto na sua
superfície de maneira adequada para a divulgação para leigos. Quem está
vendo de perto (em especial quem está dentro dos órgãos estaduais e federais
responsáveis pelas UC), sabe que a situação é bem pior e que faltam números
e análises de qualidade sobre o assunto. Há analistas mas o trabalho
infelizmente é muito grande para que consigam ir além de tentar apagar os
incêndios (tantos os reais, quanto os políticos, os administrativos, os
logísticos, os estruturais, etc.).

Há correntes entre os gestores com mais
cacife no ICMBio, por exemplo, de que estas análises agora poderiam e deveriam
ser feitas, como não acontecia antes. Há também um grupo que bate forte nisso
pois diz que o trabalho deveria ser mesmo mais normativo, fiscalizador e menos
científico. Temos carência de interpretações de alto nível sobre a
situação da conservação no país que subsidiariam melhor educadores,
tomadores de decisão e sociedade em geral de maneira que os problemas tocassem
mais a população e as pessoas tivessem uma visão melhor da envergadura da
questão. Ciência aplicada a conservação é uma urgência. Gestão pró-ativa
no sentido de se apresentar prontamente e demonstrar os nós das feridas e
possíveis soluções, mais ainda.

É triste pensar que nem meus filhos verão
o que eu vi, mas pior ainda é antever o quanto vão sofrer pelas atuais
decisões que vêm sendo tomadas.
Somos loucos ou lúcidos?
Ferdinando Filetto 21/12/2008 15:27:16

Com o "andar da carruagem" do tempo/espaço perdemos cegamente (e
ignorantemente)nossa reais áreas naturais. Digo "cegamente"
referindo-me aos impactos negativos deste fato (que afetam e afetarão muitos) e
não aos benefícios econômicos claros (que afetam e afetarão
poucos...pouquissímos)! E continuamos a insistir na estratégia de
preservação e conservação com base no "Parques de Papéis"!
Lembro-me de haver educado profissionalmente os Guarda-Parques (GP´s) do Parque
Nacional da Serra da Capivara no Piauí. Mas lembro-me de participarem (2003) do
curso dois Guarda-Parques do Parque Nacional da Serra das Confusões, também no
Piauí. Este pARNA possui mais de 500.000 hectares...dois Guarda-Parques (na
época) e acredito que não haja melhorado (!) muito! Vivemos uma tragédia mais
que anunciada...ela já se encontra instalada. Parabéns por sua sempre lucidez,
disposição e contribuição para que estejamos devidamente paramentados
intelectualmente para as discussões com os capitalistas, demagogos e burocratas
de plantão. Desejo-lhe um Natal fraterno e um Ano Novo Espetacular repleto de
sucesso!!!
Um pequeno detalhe complementar
Maria Júlia Wada 23/03/2009 17:55:07

Para piorar este quadro caótico é importante considerar que estas áreas se
sobrepõem. Portanto existem UC Federais de Uso Sustentável sobre Protecao
permanete ... terra indigena sobre UC Federal e daí por diante!!!!
Uma vergonha
Heitor de Castro 08/06/2009 11:12:03

Concordo com as opiniões postas aqui e acredito que as políticas de
conservação devam ser melhoradas em todos os sentidos.
Contudo, bater de
frente com o sistema capitalista e com o a base de nosso modo de produção é
uma das piores estratégias que podemos ter. Existem sim capitalistas,
empresários e pessoas do setor produtivo comprometidos com as questões
ambientais, atentos e sensíveis às mudanças de paradigma.
Colocar todos os
capitalistas no mesmo saco, como se todos fossem "do lado maléfico" é
contraproducente e muito simplista.
O que precisamos mesmo é mudar o modelo de
desenvolvimento, que tem resquícios do século XIX. Entretanto, o socialismo é
muito menos atento aos problemas ambientais (vide ex-URSS, R.P.da China,Coréia
do Norte...). Contaminações ideológicas do Muro de Berlim no ambientalismo é
perigoso a curto, médio e longo prazos.
e agora em 2009/2010 qual a cronologia dos PN
Renato Corrêa 17/09/2009 17:52:25

há 40 anos atras o periodo de criação dos parques nacionais eram de 10, 20
anos. Agora operiodo de criação de um parque para outro é curto
Atualmente
existem no Brasil quantos Paques Nacionais
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