Quem são os réus no drama catarinense? PDF Imprimir E-mail
02/12/2008, 13:59
Ouvi, nesses dias de tragédias ditas naturais, uma frase bem sábia do jornalista Alexandre Garcia no que concerne às perdas de vidas humanas em Santa Catarina e ao tradicional descaso com a conservação da natureza: “O clima não pode ser réu”. É isso mesmo. Enquanto as autoridades, ao longo das últimas décadas, têm aceitado alterações importantes do Código Florestal brasileiro, facultando cada vez mais desmatamentos e ocupações de áreas de risco, surgem agora “os salvadores” da pátria que querem gastar milhões em obras de contenção e de prevenção. Rogo aos céus que as comissões a serem formadas para a avaliação das conseqüências das excessivas chuvas tenham cientistas em conservação da natureza, que possam medir como teria sido o panorama se as áreas de preservação permanente pelo só efeito da Lei- Código Florestal, Lei 4771 de 1.965 tivesse sido cumprida no país, como estava previsto em sua forma original

Há mais de um ano publiquei uma coluna aqui em O Eco, com o título Morte anunciada, onde eu já dizia que as mortes por inundação e desbarrancamentos aumentariam muito, principalmente graças à flexibilização das Áreas de Preservação Permanentes (APPs), autorizada pelo Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) em resolução do dia 22 de fevereiro de 2006. E, verdade também seja dita, que há décadas não existe proteção efetiva dessas APPs e nem tampouco das reservas legais previstas no Código Florestal. Ao contrário, o que vem acontecendo é que por motivos de “utilidade pública” ou “interesse social” as Áreas de Preservação Permanente exigidas por Lei podem ser profundamente alteradas.

Muita alteração e devastação cabe nesses dois itens - utilidade pública e interesse social -, principalmente em áreas urbanas. Só não percebem que a maior utilidade pública seria evitar-se a morte de seres humanos e de outros seres vivos, ou pelo menos que fossem em menores números.  Muita coisa já foi alterada no Código Florestal original e constantemente há novos projetos de Lei para se comer ainda mais do que deveria ser protegido para garantir, entre outros motivos, a qualidade de vida do ser humano. Ou estou errada? Até mesmo no estado de Santa Catarina, que está sofrendo o que hoje acontece, há a proposta de um Código Ambiental no nível estadual que pretende diminuir ainda mais as áreas de preservação permanente, aquelas mesmas que podem fornecer os serviços ambientais fundamentais para uma boa qualidade de vida para seus cidadãos.

Este assunto já está registrado aqui mesmo neste meio de comunicação, em reportagem de Aldem Bourscheit e artigo de Miriam Prochnow, ora no ar. Mesmo com toda a tragédia que hoje assistimos consternados, o governador do estado tem a coragem de dizer nos meios de comunicação que tudo foi conseqüência das chuvas. É senhor governador, o clima não pode sentar no banco dos réus. Mas garanto que muitas autoridades do estado deveriam sim sentar no banco dos réus, principalmente aquelas que autorizaram a ocupação irregular e ilegal de mangues, restingas e dunas e de encostas com declividade acentuada e nos topos de morros, bem como, nas nascentes, margens de rios, lagos, lagoas e de outros corpos d´água.

 Na minha coluna Morte Anunciada, eu dizia sobre o Código Florestal de 1965: É impressionante notar que já naquela data, com uma realidade bem menos angustiante, os conservacionistas que prepararam o Código Florestal, se preocuparam seriamente com os serviços ambientais advindos da conservação da natureza. No caso das APPs e também das reservas legais (que variavam de 20% na região extra-amazônica a 50% na Amazônia) é particularmente surpreendente, mesmo que contemplado em uma época em que ainda havia muito de Mata Atlântica, de Cerrado e quase tudo da Amazônia, que já se preocupassem em garantir, pelo só efeito da Lei, áreas protegidas necessárias ao bem estar da população, em forma de APPs. Infelizmente, por décadas, as autoridades negligenciaram o cumprimento da lei e, assim, as reservas legais não foram respeitadas. Pouco das APPs, principalmente em regiões muito desenvolvidas, restaram. A legislação subseqüente sobre o assunto mudou drasticamente com a resolução do Conama de 2006.

Se todas as APPs previstas no Código Florestal de 1965 tivessem sido realmente protegidas, bem como as reservas legais, teríamos tido infinitamente menos erosão dos solos, em especial das do tipo violento que ocasionam a maior parte das perdas de vidas humanas e, em conseqüência, teríamos menos assoreamento de rios e lagos e, por isso, também, menos inundações e desbarrancamentos. Mas essa é apenas uma parte dos benefícios que os brasileiros de hoje perderam por falta de respeito às regras. Ainda se deve falar da redução do potencial pesqueiro de rios e mares em conseqüência das seqüelas da erosão, da perda da diversidade biológica das matas ciliares, que sempre foi particularmente rica, das custosas dificuldades de navegação provocadas pelos sedimentos nos rios etc.

O costume nacional de fazer legislação para “inglês ver”, ou seja, esquecê-la tão logo aprovada, ficou muito caro para a sociedade, em termos de tragédias humanas e de milhões de reais do erário público para enfrentar destruições como as que ocorreram agora em Santa Catarina e que já estão ocorrendo no estado do Rio de Janeiro e, também, no Espírito Santo.

Parece muito difícil que a população e, pior ainda, as autoridades constituídas, percebam que, por maior que sejam as precipitações pluviométricas, se existisse cobertura vegetal as seqüelas seriam em muito minimizadas. As reservas legais, onde o corte raso é proibido, também teriam ajudado enormemente.

Tudo começa com a erosão, conseqüência do mau uso dos solos e/ou do desmatamento ou incêndios onde a lógica, a Ciência e a lei os proíbem. Corta-se a floresta por vários motivos: para agricultura, pecuária, infra-estrutura, mineração ou assentamentos urbanos. Tudo bem, nós precisamos dessas atividades. Mas por que se desmatar até as APPs, ou seja, as vegetações de topos de morros, onde existe muita declividade, as matas ciliares, as nascentes, dunas, restingas e mangues? Da erosão ou perda de solos vem de uma parte o empobrecimento da fertilidade da terra e, de outra, a sedimentação, ou seja, quando os vales de rios e demais corpos de água ficam entupidos com milhares de toneladas de terra que, desprotegida, desce para as regiões mais baixas. Com a elevação dos leitos dos rios, provocada pela sedimentação, surgem mais violentas as inundações comendo plantações, casas, pontes, estradas, animais e gente. Os solos encharcados cedem e provocam os desbarrancamentos que engolem rodovias, pontes, carros, casas e, outra vez, gente.

Por que, então, com tanta tragédia, com tanta evidência visível a olho nu, não se faz o óbvio, que é proteger-se as APPs? Bem, a resposta novamente é óbvia: no curtíssimo prazo é mais barato e, os políticos sempre preferem inaugurar um campo de futebol, inclusive em APP, ao invés de serem sérios e corajosos e promoverem a remoção das populações pobres (ou pelo contrário muito ricas) ilegalmente assentadas em zonas de APPs de alto risco.

O problema é que os políticos não querem enfrentar as decisões de deixar a cobertura vegetal protegida, ou seja, cumprir a legislação em vigor. Tampouco querem mexer com “os pobres” que vão ocupando os morros, cada vez em declividades mais elevadas, ou que ocupam mangues, restingas ou margens de rios, ou outros corpos de água. É só ver as favelas em qualquer cidade grande ou capital. Com os ricos não mexem, por outros motivos.

Neste momento, não quero ser injusta com alguns dirigentes que enfrentaram estes tipos de situações e, a despeito de toda impopularidade, destruíram casas e outras obras de infra-estrutura em áreas protegidas como o que, por exemplo, aconteceu em um Parque Estadual do Rio Grande do Sul. Em geral, por uma falsa pena, com os pobres, ou por falta de coragem, ou, ainda, por interesses eleitoreiros,  autoridades fecham os olhos para as ocupações irregulares, em visível desrespeito à legislação em vigor. Assim, quando estes mesmos pobres começam a perder suas casas e seus parcos bens, além de suas vidas, o réu tem de ser o clima. E assim é, pois, não há estudos e tampouco mensurações que possam colocar no banco dos réus aqueles que facilitaram as mortes por desbarrancamentos, inundações e doenças delas decorrentes.

Não vamos nem nos dar o gosto de ver os responsáveis pelos desmandos e suas tristes conseqüências nos bancos dos réus, pois, na verdade, nem conhecemos os nomes dos verdadeiros réus e nem existem provas documentadas contra os mesmos.
Comentários
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Fausto Neves Ribeiro da Silva 02/12/2008 17:13:55

Politicos e partidos não foram eleitos e instituídos para administrar crises e
calamidades. E o exemplo brasileiro é exacerbado. Não há quem se indisponha
firmemente com o "adversário" na defesa do interesse público.
Recorre-se à "costura de acôrdos políticos" e "lobbys" nas
votações no congresso.
Portanto, discordo:
"conhecemos os nomes dos
verdadeiros réus e existem provas documentadas contra os mesmos"
Gostaria de repetir
Ocelote 03/12/2008 11:20:32

Gostaria de repetir o que escrevi no dia 01 de dezembro. Me desculpem por
isso...acho a discussão oportuna demais! Então....:
As pessoas
associam
questões ambientais como se se restringissem a florestas, bichinhos,
peixes,
áreas protegidas, e coisas assim. Fica evidente que as questões
ambientais
são profundamente determinantes da história humana, e história
humana está
profundamente associada com a experiências ambientais de
populações
inteiras.
No caso de Santa Catarina (e esta situação se repete
Brasil
afora), a origem de tudo está na burrice de se desmatar encostas e topos
de
morro, construir nestas encostas, esquecer das várzeas dos rios e

construir muito e encher de gente. Muitas obras (rodovias, por
exemplo)
públicas são construídas em locais inadequados, aparentemente por
falta de
opção, mas também pela arrogância de engenheiros que ainda
acreditam que a
meta humana e de sua profissão é dominar a natureza, subjugar
as dificuldades
impostas pelo meio natural, impor e nada mais.
Junte-se a isso
tudo a memória
curta da população e dos governantes (estes mais interessados
em fazer média,
dissimular, etc). O resultado é que montamos aos poucos uma
enorme armadilha
para nós mesmos.
Quem viu imagens da tragédia pode
facilmetne perceber o
contexto nos locais de deslizamentos e de enxurradas
devastatdoras. Todas
ocorreram em locais onte encostas estavam sem florestas,
ou o topo dos morros
estava ocupado.
Nenhum canal de televisão que eu asssti
teve uma única
palavra no sentido de apontar estes problemas. A culpada de
tudo foi a chuva. No
canal GloboNews assisti a uma conversa entre jornalistas,
e um deles, da revista
Época (não me recordo o nome), culpava os
meteorologistas, que não foram
capazes de avisar as pessoas sobre as chuvas.
Alegou que em outros países as
pessoas são geralmente retiradas antes de
catástrofes como esta. Uma visão
míope demais para alguém que trabalha com
informação e tem a
responsabildiade de informar bem o público, porque isso
também tem a ver com
educação da população (o brasileiro talvez seja um
dos povos mais
desinformados do mundo, cheio de concepções erradas e mitos e
crenças não
verdadeiros). Este jornalista talvez nunca parou para pensar que
tragédias como
estas acontecem em países sub-desenvolvidos, mas às vêzes
acontecem também
em países desenvolvidos (veja casos da Itália, França,
Inglaterra, etc,
comparando-os com Bangladesh, Peru, Brasil, vários paises do
sudeste e sul da
Ásia....e etc). Em todos os problemas estão relacionados com
uso inadequado da
terra.
As catástrofes naturais sempre são problemas
maiores quando ocorrem em
conjunção com decisões erradas pelos
humanos.
Mirem-se no exemplo do Japão,
hoje o país com maior proporção de
florestas no mundo. Lá, as florestas
foram replantadas séculos atrás por
conta de sábia decisão de um imperador.
As pessoas vivem nos vales, em alta
densidade demográfica (por falta de
espaço, e ainda usam cada metro em
produção de alimentos). Por outro lado, as
enconstas e montanhas são livres
de construções e são dominadas por
florestas que ajudam a conter a água e a
terra.
É preciso coragem para voltar
atrás e repensar o uso da terra em
Santa Catarina. Aproveitar o trauma coletivo
e transformá-lo em oportunidade
para aprendizado coletivo. O momento é agora,
e os governantes tanto na esfera
Federal como na Estadual e na Municipal
precisam fazer de tudo para que, num
futuro que promete, novas e piores
tragédias não voltem a ocorrer.
Re-planejar meticulosamente o uso da terra,
transformar em leis coisas que
realmente ajudem a evitar problemas como o que se
abateu sobre os catarinenses,
independentemente de serem ecologistas ou
desmatadores, ricos ou pobres, loiros
ou morenos, moradores de encostas ou de
fundos de vale, tementes a Deus ou
descrentes, ateus ou à-toas, empresários ou
consumidores.
Os cenários de
mudanças climáticas sugerem um acirramento de
fenômenos com o El Niño, e
aumento de eventos climáticos extremos, como
dilúvios como este que ocorreu
semana passada. Então, os cenários estão
prontos, resta a nós decidir se
investimos nossa inteligência de forma
preventiva ou vamos apenas nos limitar
a criar as condiçoes necessárias para que se possa alimentar a mídia
no
futuro com mais espetáculos macabros como este.

Mas acho que o Brasil
não
entende estas coisas, ou temos em nosso DNA uma inércia, uma preguiça e
falta
de ousadia que afunda a todos em situaçoes de mares agitados ou mesmo de
marolas de lagoa....

Então, como ser
otimista???? Se não for agora, com
este trauma coletivo, não será nunca que
veremos uma mudança de
mentalidades.
Difícil ser otimista...ruim ser
pessimista...mas nunca se deve
deixar de ser realista. Acho que tudo vai
continuar como antes....
Meu posicionamento!
Ferdinando Filetto 05/12/2008 22:52:26

Saudações a emérita Maria tereza! No dia 26 de novembro fui questionado por
um aluno sobre o que ocorre em Santa Catarina. Transcreverei o que
respondi:
Penso que a intensidade de chuvas na porção leste e litorânea do
Estado de Santa Catarina forma extremamente acima do registrado nos últimos 100
anos. Este nível ficará como marco para relação de recorrência. As
"obras de artes" em engenharia (pontes, bueiros, canaletas, dissipadores
cinético de escoamento hídrico, bacias de contenção, etc) são dimensionadas
considerando-se as chuvas de recorrências (por exemplo)...daquelas que ocorrêm
a cada período, de modo geral longo, por exemplo a cada 50 anos ou 100 anos. O
caso de Santa Catarina foi inédito, uma vez que o equivalente a 4 meses de
chuva ocorreu em apenas 3 dias e isto depois de semanas chovendo
incessantemente. Os meteorologistas explicam bem esta situação e para isto
basta procurar nos google da vida! A capacidade de campo (medida referente a
quantidade de água que um solo pode absorver) já havia sido atingida há muito
tempo. A pressão do peso da água sobre a estrutura do solo, a declividade
acima de 45% das áreas de (potencial) deslizamento, a presença de uma
vegetação indadequada (ou inexistente) em muitas destas áreas e a presença
humana no entorno e abaixo destas áreas resultaram na tragédia. É uma
ocorrência comum na natureza os deslizamentos e solapamentos, mas em áreas
isoladas e por causas diferenciadas...ocorrências naturais. O caso de SC
beiraria o natural, não fossem as vidas humanas tomadas! Sim por causas
naturais, mas também por ocupações incorretas, engenharias de baixíssima
qualidade e execução, inoperância e desmanzê-lo político administrativo.
Falei e disse!!!
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