Os verdes de verdade não se vendem PDF Imprimir E-mail
31/10/2008, 11:05
É impressionante como pessoas que não conhecem a fundo como funcionam ONGs conservacionistas ou ambientalistas (o termo mais moderno), apesar de nelas não terem trabalhando muito tempo, podem deturpar sua imagem e lançar dúvidas sobre a importância de seu trabalho. A jornalista americana Christine MacDonald, que foi por pouco tempo funcionária da Conservation International, em seu livro joga lama, nas grandes ONGs de seu país, sem se preocupar em demonstrar todo o imenso trabalho que essas mesmas ONGs fizeram por lá e em muitos outros cantos do mundo, inclusive no Brasil.

Um artigo comentando o livro, disponível na Internet, embora tente ser justo e equânime, começa a confundir de o por quê existem as Assembléias Gerais da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, em inglês), ao dizer que 8.000 pessoas se reuniram em Barcelona, com 850 instituições ambientais e 130 países, ao dizer “Mas ao contrário do que se imagina, a pauta entre os participantes não era a conservação das espécies ou como resolver o aquecimento global e sim a votação do futuro presidente e dos conselheiros da IUCN”. Ora, é para isso mesmo que existem as Assembléias Gerais, ou seja, para eleger seus dirigentes, em votação democrática.

Os assuntos técnicos comumente são tratados nas reuniões das Comissões, como, por exemplo, da World Comission on National Parks (WCNP) ou na Survival Service Comission, que são realizadas, em geral, imediatamente antes ou após a realização da Assembléia Geral. Todos os membros da IUCN votam, sejam países membros, agências governamentais e as organizações não governamentais. Há uma proporcionalidade de pesos de votos, pois, evidentemente, o voto de um país membro é superior ao voto de uma ONG, por exemplo. Na ocasião, foi eleito o físico indiano Ashok Kosla, presidente de uma associação indiana de crédito e assistência técnica para comunidades rurais.

A reportagem continua: “A disputa se explica: ser presidente da IUCN é um dos postos mais almejados no mundo das ONGs. O cargo confere mais poder para negociar alianças com empresas.” A conclusão é, no mínimo, precipitada. Se cerca de 1.000 países e entidades votam, como a própria matéria conclui, é meio evidente que ninguém ou nenhuma empresa por mais poderosa que seja pode “comprar” todos esses votos.

Se muitos parques nacionais e áreas protegidas existem por aqui, por exemplo, é devido aos aportes financeiros de ONGs do “Norte”, como o Parque Nacional do Grande Sertão Veredas, que foi objeto de uma conversão da dívida externa brasileira, em 2002, com a TNC (The Nature Conservancy) e a Funatura, de dois milhões de dólares, cujos juros vão diretamente para o manejo da área protegida. Há 13 anos o parque é manejado com esta conversão da dívida externa e os recursos  ainda existem para mais sete anos, além de outros recursos de outras fontes e um pouco do ICMBio.

Se existe a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) do Salto Morato, da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza (FBPN), também se deve a recursos alocados da TNC para a compra das terras e da própria FBPN para seu manejo e implementação. A RPPN do Vagafogo, na cidade goiana de Pirenópolis, se concretizou com suportes expressivos da WWF e de outras instituições. Quando o Duque de Edimburgo veio ao Brasil foi visitá-la. O SESC da Confederação Nacional do Comércio estabeleceu e maneja a maior RPPN do Brasil, com 106.000 hectares, no Pantanal de Mato Grosso.

Muitas outras ONGs vêm ajudando a conservar áreas no Brasil, como a Conservation International, a WWF, a Mac Arthur, entre tantas outras. Apóiam, ainda, projetos de fauna ou flora silvestres, bem como de sustentabilidade ecológica. Mas, talvez o mais importante, é se concentrar em exemplos brasileiros.

A empresa O Boticário estabeleceu a Fundação O Boticário de Proteção à Natureza há 18 anos. Pelo menos 1% de seu faturamento bruto é destinado anualmente aos mais de mil projetos apoiados pela FBPN. Assim, a empresa já gastou muitos milhões de reais com projetos de conservação da natureza em todo o país. Quem escolhe os projetos a serem apoiados é o Conselho da Fundação, com a maioria dos membros de pessoas externas à empresa, que trabalham na fundação gratuitamente e que jamais foram constrangidos a apoiar o projeto a ou b. Eles são especialistas renomados no país, cada um em sua área de atuação. Poucos sabem, mas é ilegal qualquer conselheiro e qualquer fundação sem fins lucrativos ser remunerado. Os conselheiros trabalham por amor à causa, pelo compromisso que têm com a natureza e com a sociedade em geral.

Empresas financiam, muitas vezes, através de ONGs, museus, hospitais, escolas, esportes, futebol, Carnaval etc. Por que, então, só para o financiamento de conservação da natureza, pensam que estarão livres de obedecer a legislação em vigor? É um absurdo. Além do mais, ONGs, em especial as de conservação da natureza, não detém o poder de substituir a decisão de governos. Quanto muito elas gritam tanto que podem influenciar políticas públicas, principalmente as ditadas pelo Legislativo.

Tampouco fazem lobby de empresas com fichas sujas. Mais esdrúxulo, ainda, é pensar isso no Brasil, onde as ONGs ambientalistas não têm mais do que alguns ou, em casos extraordinários, como o da SOS Mata Atlântica, milhares de sócios ou membros, mas nenhuma delas, no Brasil, sequer chega perto de ter um milhão de membros. Assim, infelizmente, não podem exercer expressiva pressão política.

Pouco sabem aqueles indivíduos que fazem críticas severas às ONGs tradicionais do país e em especial às fundações, que são fiscalizadas pelo Ministério Público. Essa fiscalização é tão rigorosa que muitas vezes impede que pequenas fundações possam continuar a existir. Para associações ou institutos, o manejo é mais flexível, é verdade. Também é verdade que há corruptos em qualquer área de atuação e até em ONGs ambientalistas. Mas é raro. São casos bem isolados. Os Conselhos constituídos por pessoas, em geral, de alto nível intelectual e moral, atestam isso.

Pensar-se, ainda, que o quadro executivo das ONGs ambientalistas remunere muito bem é um desatino. Nos EUA, onde o livro se baseia, acontecem salários bons, mas eles são compatíveis com os mesmos de uma agência multilateral, como o BID ou o Bird. Já fui membro do Conselho da WWF Internacional, da Conservação Internacional, do WRI (do inglês World Resources Institute) e também da IUCN. Nestas ONGs, os salários de seus presidentes-executivos giram em torno de 150 a 200 mil dólares ao ano. Falar-se em milhões de dólares é voar muito alto.

Aqui no Brasil, o salário de seus diretores-executivos é comparado aos dos diretores do Ibama, nos melhores dos casos, ou bem menores, na grande maioria dos casos. Trabalhar aqui em uma ONG conservacionista significa querer fazer algo idealista ou por aspirações políticas, mas não é por dinheiro, de forma alguma.

Outro aspecto que a jornalista Christine MacDonald lança entre suas críticas é que ONGs trabalham para quaisquer governos, sejam eles democratas, ou ditatoriais e/ou corruptos.  O que ela e muitos outros críticos de ONGs precisam aprender é que os parques nacionais e outras áreas protegidas, bem como a fauna silvestre e, em alguns casos, até a flora pertencem ao Estado, ou mesmo quando são bem de uso comum do povo, são pelo Estado administrados e fiscalizados. Assim as ONGs não podem decidir com que partido trabalhar, em países de regime governamental hegemônico, ou, ainda, escolher partidos políticos onde exista democracia. Elas escolheram trabalhar com parques nacionais e/ou com fauna e flora silvestres, portanto têm de lidar com o Poder Público. Quem escolhem partidos são os políticos ou militantes, não funcionários de ONGs ambientalistas, a não ser as de “chapa branca”, que também existem em menor escala.

Empresas poluem mais ou menos quando têm mais ou menos responsabilidade em mitigar os estragos que podem fazer contra a natureza, mas elas aí estão e devem ser conquistadas pelos verdes para melhorarem sua atuação com relação ao nosso meio ambiente. É como qualquer um agricultor ou qualquer um de nós, pois o simples fato de necessitarmos de recursos naturais para o nosso dia a dia, nos faz objetos de interferência aos ecossistemas onde vivemos. Podemos ter mais consciência, gastando menos água ou energia, produzindo menos toneladas de lixo por ano, reciclando o que pode ser reciclado, sendo menos consumistas e assim por diante, mas que usamos os recursos naturais é indiscutível.

Ter-se a civilidade e a disciplina de obedecer a legislação em vigor na área ambiental, ou em qualquer outra é, sim, fundamental para a qualidade de vida de todos. Um cidadão comum quando quer fazer algo pela natureza costuma entrar para uma ONG. É um bom passo e também o é para uma empresa.

A discussão no livro citado é insignificante, não fosse a acusação, explícita ou não, que os verdes se vendem. Além de não ser verdade, este nosso planeta estaria muito pior se não fosse o trabalho e o ideal dos verdes que não se vendem, mesmo em ambientes corruptos em que muitos vivem.
Comentários
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Finalmente, uma análise ponderada !
Marcelo Araujo 31/10/2008 13:38:06

Prezada Maria Tereza, parabéns pela clareza dos argumentos. Estava faltando
quem trouxesse a razão para este debate, que volta e meia vem a tona e que
infelizmente muitos embarcam, apenas no afã de criticar, afinal é sempre mais
fácil jogar pedras na vidraça alheia do que construir resultados de longo
prazo.
Muito Além do Jardim
José 31/10/2008 15:07:30

Então, sim, são importantes os hectares protegidos e o conhecimento gerado,
mas a questão ambiental deve ir muito além disso, necessita-se, entre outras
coisas, de uma revolução cultural, nas cabeças das pessoas, a partir de uma
crítica ao modelo capitalista industrial, e as ONGs, mantidas em grande parte
por capital industrial, parecem constrangidas para exercitarem essa crítica e
funcionam, na área ambiental, mais ou menos como a Igreja funcionou na área
social do Egito até o Estado Moderno.
ONGs: ambiente interno e externo?
Benedito Domingues do Amaral 01/11/2008 11:51:33

Prezada Dra. Pádua, já trabalhei em ONGs, acompanho o desenvolvimento de
projetos e tenho maior simpatia pelo terceiro setor. Espero que seu
amadurecimento seja uma das bases para a consolidação da democracia em nosso
país. No entanto, ainda não vejo um projeto de auto-regulação a contento aos
desafios dessas entidades. Infelizmente, o comportamento de algumas ONGs (não
generalizar) tem algo distorcido com palavras e discursos pró-ativos (morais,
quase santificado) para o público externo (cobram uma postura digna do Estado),
mas seu ambiente interno é similar a uma famíglia mesquinha, autoritária,
quase beira um regime feudal até mafioso, falta de transparência,
manipulação de recursos ($$$) pelos papais da famiglia, etc. Penso que as ONGS
não é um serviço público no sentido clássico, mas na maioria das vezes tem
a missão similar voltadas ao público difuso, entre outras finalidades. Deste
modo, alguns princípios como impessoalidade, transparência, ética, etc,
deveriam fazer parte da auto-regulação das ONGs. Hoje alguns fundam uma ONGs
para cooptar as causas justas da sociedade, mas trabalham no sentido de
privatizar os lucros de toda natureza e socializar os prejuízos. Uma solução
seria adotar princípios de governança corporativa e ter uma entidade
guarda-chuva, como a ABONG, para divulgar, dar transparência e classificar as
ONGs para o público, análogo ao novo mercado com o índice de sustentabilidade
da Bovespa.
Magnissimo
Pedro EPIFANIO Fanny 01/11/2008 13:05:01

Simplesmente fenomenal espero me suprender, ainda, mais.
Meus
Agradecimentos,
EPIFANIO
resposta a Benedito
maria tereza 02/11/2008 06:43:00

Benedito,
Muito obrigada pelos comentários. Mas, lembro a você que as
Fundações Conservacionistas são duramente fiscalizadas pelo Ministério
Público. Muitas Associações e alguns Institutos, que têm muito mais
flexibilidade, de fato deveriam ser melhor fiscalizadas pela sociedade. Há
muitas INGs, que, também, não merecem existir. Mas, as ONGs que fazem bons
trabalhos, não deveriam pagar pelas amadoristas, para dizer o mínimo
Eustáquio Mendes 02/11/2008 09:15:03

dá-lhe Maria!!!! em
A realidade sobre conservação no Pantanal
Laurent Lefebvre 03/11/2008 09:33:20

Sim, de fato algumas ONGS de menor porte trazem benefícios ao meio ambiente,
mas esses são os heróis anônimos!

Porém as atividades e investimentos de
conservação da natureza deveriam se concentrar unicamente nos 17% já
desmatados no Pantanal.

Lá é que está o grosso do trabalho de
recuperação das áreas degradadas, onde há erosão. Plantar árvores na beira
do rio e espécies frutíferas para atrair a fauna de volta e recompor a
vegetação.

ONGS compram terras em áreas ricas de fauna e flora ou no
centro do Pantanal onde não há nada a fazer ou consertar. A melhor proteção
é não fazer nada nestes lugares, deixar a natureza se autoregular.


Isolam-se no seu éden privado, para não serem vistos e realizam inúmeras
pesquisas, das quais não temos acesso ao seu conteúdo verdadeiro.

Fazem o
traslado de turistas somente de avião, o que não é muito ecológico! Retiram
o gado, extinguem a cultura das fazendas e o mato cresce alto demais obstruindo
a observação da fauna e o deslocamento de turistas.

As áreas mais
selvagens, ricas em biodiversidade e virgens não deveriam sofrer nenhum tipo de
interferência humana, sendo o berço da fauna.

Se as bordas do pantanal
fossem recuperadas, criando um cinturão verde de proteção envolta, o centro
da região estaria já automaticamente melhor protegido.

Nas bordas, o
ecoturismo poderia ser desenvolvido melhor e com mais facilidades, geração de
empregos, melhores acessos por estrada e redução de consumo de combustível e
preços de pacotes turísticos mais accessíveis.

Vinda de mão de obra mais
qualificada e para as autoridades poderem controlar melhor o que entra e
sai!

Creio que isso sim seria um projeto a longo prazo para melhorar o
turismo e a conservação deste ecossistema.

Laurent Lefebvre
Guia
Naturalista
Verdes nao se vendem?
Jorge Albuquerque 05/11/2008 05:24:53

Prezada:
Belo texto o seu. O titulo me chamou a atencao. Concordo que temos
muitas ONGs bem atuantes, porem tenho notado algumas parcerias entre algumas
dessas ONGs com empresas que vem causando destruicao em massa no cerrado e em
outras paisagens brasileiras. Parcerias em tarefas que ja seria esperadas dos
proprietarios da agroindustria, como obedecer a legislacao das reservas legais.
Essas parcerias parecem relacoes muito oportunistas que parecem endocar
atividades de mega destruicao de habitats pela agroindustria.Sera que essas ONGs
seriam mesmo verdes e nao se vendem?
A estória da freira fujona!!!
Ferdinando Filetto 18/11/2008 20:32:26

Diz um ditado popular: "A freira fujona sempre falará mal do convento"!
As afirmações desta jornalista foram parciais, generalistas, fundamentadas num
sentimento unilateral (quiça fruto de algum desvio psiquico)e preconceituosa!
Talvez ela não saiba que ainda existam seres humanos que tenham valor...preço
não! Infelizmente a causa ambiental ainda é refugio de pessoas desinformadas,
que insistem na bandeira de que comer soja e fazer jardins com espécies
exóticas contribui para a natureza. E, pior, tem muita gente que se diz
profissional da área e arrogantemente tentam exaltar a sua
"pseudo-intelligentsia". Mas, geralmente estes se dão mal e são
prontamente desmascarados. Mal sabem eles que existem "intelligentsias"
de plantão, prontas a denunciarem os disparates. Cuidem-se os hipócritas, pois
suas bravatas serão contestadas, pois "Nossa Maria Tereza" está de
plantão. Meu sempre respeito por sua pessoa e, ainda mais, por sua
lucidez...sucesso!!!
Prof. Ferdinando Filetto
Universidade Federal de Lavras MG
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