Depois, todo mundo vira adivinho PDF Imprimir E-mail
06/01/2010, 11:16
Quem pôs os olhos no céu do Rio de Janeiro nesse réveillon viu mais do que fogos de artifício. Viu um raro espetáculo meteorológico.

Meia hora antes da pirotecnia oficial, as nuvens se ergarçaram sobre a cidade. Primeiro, destampando as praias, como se erguessem a cortina para o show da prefeitura. Depois, sobre a Zona Sul, uma lua cheia, que já ia alta, mas ainda não tinha aparecido, deu o ar de sua graça. Na hora certa, até a estátua do Redentor saiu da cerração no topo do Corcovado. À meia-noite em ponto, o Rio estava pronto para a festa. Tudo nos conformes, como previa o contrato dos poderes públicos municipais com a medium Adelaide Scritori, da Fundação Cacique Cobra Coral – “a luz que ilumina dos fracos e confunde os poderosos”, segundo sua própria definição. Trata-se de uma instituição tipicamente carioca, a Cobra Coral, embora Adelaide Scritori seja paranaense e preste serviços em outras praças, inclusive no exterior. Mas foi no Rio que ela se incorporou à administração local, pelo menos desde que o prefeito César Maia inaugurou em 1993 o primeiro de seus três mandatos debaixo de um temporal que derreteu morros e inundou bairros na cidade inteira.

Na ocasião, embalado pela campanha que acabara de derrubar o presidente Fernando Collor, o sociólogo Betinho propôs o impeachment do prefeito. E Cesar Maia nunca mais se descuidou do convênio com a fundação, para fins de prevenção meteorológica.

No ano passado, quando o Eduardo Paes tomou posse na prefeitura, o contrato com a Cobra Coral veio à tona como mais uma excentricidade do antecessor, desentranhada de suas contas pelas lupas da troca de comando no município. Mas nesse ponto a mudança durou pouco. O sucessor renovou o acordo com a Cobra Coral em 22 de janeiro. E, em seu réveillon de estréia, a medium Adelaide Scritori veio expressamente de Buenos Aires para encorpar o palanque das autoridades.

Deve-se admitir que ela brilhou na festa, fabricando tempo bom sob medida para os fogos. Dois dias depois, meteorólogos de extração mais científica iriam atestar que ocorrera naquela noite um fenômeno raro, instalando na hora certa sistema de baixa pressão sobre a cidade e conjurando ventos que viraram as chuvas para o sul. Ou seja, para os lados da cidade de Angra dos Reis e para a Ilha Grande, onde a mansa praia do Bananal, que as notícias do desastre continuam a chamar de “Paraíso”, amanheceu sob 20 metros de lama e pedra.

Aí o réveillon já estava longe, superado por mais de 50 mortes. E nos jornais, em lugar das incertezas meteorológiocas, a catástrofe em Angra dos Reis atravancou os jornais com certezas vindas de todos os lados. Pelo visto, todo mundo sabia que o litoral apelidado pelo marqueting turístico de Costa Verde, revolvido há pelo menos 20 anos pela febre de grilagens que contagiou pobres e ricos, trocou a mata de seus morros quase a prumo pela favelização gritante e privatizando suas enseadas selvagens por condomínios particulares. Tudo igualitariamente ilegal.


O cacique Cunhambebe, do tempo em que
na Costa Verde comia-se gente, mas não
se engolia praia nem roía morro.
Agora que, mais uma vez, agora com mais eloqüencia, o modelo de ocupação predatória adotado na Costa Verde disse a que veio, não faltaram autoridades para reconhecer que, carcomido como estava, aquilo lá não poderia dar certo. Geólogos como a secretária estadual de Meio Ambiente, Marilene Ramos, explicaram que, naquele trecho da Serra do Mar, toda encosta mais íngreme tende um dia a descer rumo ao mar, decompondo-se a rocha íngreme em “solo poroso e instável”. O prefeito de Angra, Tuca Jordão, lembrou-se de que os desabamentos haviam começado três dias antes do réveillon. Mas, pelo visto, nada se fez para evitar as piores conseqüências, em nome de não assustar os turistas no auge da temporada.

E até o governador Sergio Cabral, quando deu por encerrado seu feriadão de fim de ano em Mangaratiba – ou seja, loogo ali ao lado – declarou, sobre o fato consumado, que não se “pode brincar com o solo”, falando de demolir até 1500 construções irregulares. Se o critério for mesmo esse, até a casa de praia de Cabral está a perigo, pois se instala num condomínio que ocupou terrenos da União por onde passava a ferrovia EF 479 para Angra dos Reis que, apesar de invadida, ainda consta do Plano Viário Nacional.

Dois anos atrás, a Operação Carta Marcada, um desses furacões moralizadores da administração pública que dão e passam, andou farejando rastros de corrupção política na grilagem que está fazendo o possível para aniquilar o patrimônio natural das oito baías, duas mil praias e 365 ilhas que fizeram a fama de Angra. Da noite para o dia, brotaram na Costa Verde 29 mandados de prisão contra secretários municipais, empreiteiros, funcionários da Fundação Estadual do Meio Ambiente e políticos. Ou seja, toda a quadrilha local que traficava com licenças ambientais feitas sob medida para legalizar qualquer espelunca.

Depois, assim como veio a Carta Marcada sumiu nos trâmites legais. E não se falou mais disso. Mas só pode ser de ensaios como esse que vêm a perfeita coordenação das autoridades, quando se trata de avaliar os estragos das chuvas em Angra. Ninguém precisa de medium para adivinhar o que qualquer um pode enxergar a olho nu, só de trafegar pela Rio-Santos. Quase toda a paisagem às margens da rodovia é um out-door contínuo do que nunca se deveria fazer com um lugar daqueles.

O problema é que há governos para cumprir religiosamente seus contratos com a Fundação Cacique Coral. Mas não para levar a sério as licenças ambientais que eles mesmos produzem e assinam. E as licenças ambientais existem exatamente para prevenir desgraças como a do réveillon.
Comentários
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Basta olhar
Paula 06/01/2010 15:04:22

Fazia mais de três anos que não ia para a região de Paraty-Angra e retornei
lá justamente na folga de ano novo. Fiquei assustada com a quantidade de casas
que subiram o morro em Pouso da Cajaíba e em duas de suas praias laterais,
falando de Paraty. Ilha Grande, além da ocupação irregular, sofre ainda com a
coleta de lixo: ineficiente e burra. Assim, o lixo acaba por se amontoar no meio
da mata, em locais onde os turistas não passam e não veem. E quando chove,
antes das encostas caírem, um dos problemas era que as praias recebiam todo
tipo de lixo oriundo do continente e lançado às areias pelo mar e os moradores
nem sacos de lixo em quantidade possuem para recolher tamanha sujeira. Não sei
se catástrofes como a deste ano irão ajudar a diminuir o problema de invasões
e descaso pela natureza, mas, se vier, então será (para mim) um infortúnio
bem-vindo.
Hoje foi em angra. Amanhã será em Petópolis!
Anônimo 06/01/2010 15:31:25

Não creio que a triste e previsível perda de vidas em Angra tenha servido de
exemplo para uma ocupação do solo mais consciente e técnica das outras
cidades e muito menos que estas mesmas áreas destruídas sejam novamente
ocupadas no futuro.

Como morador de Petrópolis tenho a minha cidade como o
maior exemplo da ocupação desordenada das cidades fluminenses. Petrópolis,
também conhecida como Cidade Imperial é rica em patrimônios naturais e
culturais inegáveis, mas está a cada dia perdendo a sua identidade e
transformando-se em um município favelizado, desorganizado, sujo e
degradado.

Tenho suspeita que a prefeitura de Petrópolis também esteja
conveniada com a “Fundação Cacique Coral”, mas creio que este convênio
vai terminar após uma tarde chuvosa de verão. Vale lembrar que em fevereiro de
1988 este “convênio” acabou de forma repentina, ocasionando o soterramento
e morte de 134 pessoas. Nos anos seguintes outras dezenas de pessoas morreram,
mas caíram no esquecimento da opinião pública e da mídia. Estas
catástrofes, cada vez mais rotineiras, servem apenas como valorosa moeda
oficial de barganha para conseguir obras de infra-estrutura, ou melhor, verbas
públicas e emergências (leia-se sem licitação).

Hoje, Petrópolis está
com:

1. as suas encostas intensamente ocupadas por ricos e pobres, com e sem
licenciamento, dentro e fora de APPs ou UCs;
2. a favelização (e a
violência) das encostas crescente enormemente e a paços largos.
3. as
florestas nativas, especialmente as localizadas dentro da área urbana, sendo
destruídas rapidamente;
4. as estradas de acesso (BR-040 e Estrada Velha),
outrora lindas, virando caminhos de favelas, comércios, plantações de banana
e sítios - tudo ilegal;
4. a temperatura aumentando, sendo atualmente comum o
uso de ar-condicionado nos carros e casas;
5. as enchentes ficando mais
freqüentes a cada ano e infelizmente já incorporadas pela sociedade;
6. o
lixo espalhado pela cidade;
7. os engarrafamentos, agora diários, aumentando;

8. os antigos casarões sendo colocados a baixo pela especulação
imobiliária;
9. as margens de rios irresponsavelmente ocupadas e todos
poluídos;
10. sem saneamento básico;
11. sem coleta de lixo reutilizável
e reciclável;
12. por fim, o único parque municipal de proteção integral
(Ipiranga) ainda não saiu do papel.

Ou seja, hoje estamos falando de Angra,
mas amanhã, quando acabar o “contrato” (ou melhor, pacto) com a Fundação
Cacique Coral, certamente, estaremos falando de Petrópolis. E olha que não sou
a Mãe Dinah.
UM MONTE DE "M"
Aline Queiroz 06/01/2010 16:22:34

O que acontece quando se têm um monte de safados no poder é um monte de
"m": *****, morte, malandragem, mal-feitorias,... Dá vontade é de
incentivar a anarquia, pois o que temos é uma gangue de colarinho
branco.
branco
A culpa deve ser dividida
Anselmo d'Affonseca 07/01/2010 14:43:30

Concordo plenamente com o texto do ilustre cronista e com as considerações dos
leitores. Fico igualmente indignado com a política de ocupação e
especulação imobiliária que rola solta no nosso litoral. Estive em Morro de
São Paulo, na Bahia, em junho ultimo e fiquei assustado com a voracidade com
que destruíram boa parte de uma das paisagens mais belas que já conheci. E o
que é pior, esta praga com certeza deve atingir todo o nosso litoral. Mas uma
coisa é certa, colocar a culpa apenas nas autoridades e/ou Poder Público é
relativizar o problema. Sabemos que faz parte da nossa cultura o tal
"jeitinho brasileiro", a coisa de que "comigo é diferente",
"eu sou apenas mais um num imenso universo", "o governo deveria ver
é a violência, a fome do povo...". Sabemos que político que mexe com o
"povo" não se elege, isto é fato. Imaginem o prefeito assume e começa
a derrubar casa em encosta. Vão cair de pau em cima dele, e nem vão se lembrar
da última tragédia, podem ter certeza. Temos a nossa parte da culpa. Sem
assumir isso não dá pra resolver. O primeiro passo é, dizendo o que já foi
dito milhares de vezes, escolher melhor o tal "Poder Público".
Sirenes 08/01/2010 14:55:50

A nova e simplista sugestão da prefeitura de Angra e da SEA é que para
interromper a ocupação das encostas de Angra deverá ser modificado o plano de
ocupação das margens dos rios de Angra. Notem que o código florestal exige
para alguns rios da região uma margem protegida de 30 a 100 m, mas segundo a
SEA estas APPs poderão ser recategorizadas e diminuídas para que sirvam como
área de expansão urbana. Ou seja, se correr o bicho pega e se ficar o bicho
come.

Creio que seria mais racional a prefeitura e a SEA repensarem o
processo em que os licenciamentos são elaborados e cumpridos. Atualmente,
poucos (ou nenhum) projetos de ocupação são impossibilitados de serem
implementados e o licenciamento ambiental passa a ser uma mera burocracia. Ou
seja, o licenciamento perdeu o seu objetivo e virou apenas um papel sobre a
mesa.

O que fazer?
- Tirar a pressão política decisória e deixar os
técnicos da SEA exporem os seus conteúdos estritamente técnicos. Aceitar o
não!
- Pedir auxílio para as universidades e centros de excelência de fauna
e flora.
- Aumentar as áreas de APPs, especialmente das encostas, brejos,
nascentes e rios
- Rever a decisão política de aumentar a ocupação das
ilhas da Apa dos Tamoios.
- transformar parte das APAs dos Tamoios e do
Cairuçu em Parque Estadual.
- Entender o recém criado e ótimo Parque
Estadual do Cunhambebe até a cota 0 (praia), nas partes ainda desabitadas do
litoral.
- Fazer estudos geológicos prévios, através de convênios com a
GEO-Rio e universidades.
- Exigir melhores e mais detalhados relatórios de
EIA-RIMA da economia privada.
- Fazer um senso de moradores, veranistas e
construções legais e ilegais em toda a Ilha Grande.
- Retirar imediatamente
da Ilha Grande tudo que é construção ilegal. Afinal é ilegal!
- aumentar o
controle de acesso a turistas e impedir novas construções nas ilhas.
-
aumentar consideravelmente o Parque Estadual da Ilha Grande.
- Interromper a
ocupação desordenada da cidade. As favelas começam com uma ou duas casas e
essas deveriam ser removidas já no processo inicial de ocupação. Depois fica
difícil e custoso.
- Priorizar a ocupação das vagas de empregos temporários
da construção de Angra 3 com os moradores locais.
- fazer o saneamento
básico urgentemente.
- melhorar consideravelmente a coleta de lixo e a sua
reciclagem, gerando lucro para a população.
- exigir urgentemente um plano de
evacuação da cidade em detrimento da proximidade das usinas nucleares.


Como fazer?
- Basta ter vontade política.
- Fazer uma política
continuada e não paliativa.
- Aumentar o caráter técnico das decisões.
-
Migrar os recursos do TAC de Angra III e dos dividendos de Angra I e II.
- ISMS
Verde.
- Impedir severamente novas ocupações irregulares.

A Angra é uma
cidade atrativa e maravilhosa apenas pela existência de suas belezas naturais
(praias, ilhas e florestas). Estragar para que?
Por todo lado!!!
rodrigo 13/01/2010 14:12:30

Quase toda a paisagem às margens de qualquer rodovia brasileira é um out-door
contínuo do que nunca se deveria fazer com um lugar daqueles.
Paulo Bessa 14/01/2010 12:40:32

As leis orgânicas dos municípios, em sua maioria, estão coalhadas de artigos
para "regularizar" ocupações e outras bobagens populistas que impedem,
ou atendem às necessidades, que providencias sejam tomadas. Marcos, não se
preocupe. Em breve isto tudo estará esquecido. Quem viver, verá.
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