Um mundo cada vez mais distante PDF Imprimir E-mail
02/07/2009, 16:01
No dia em que o Brasil estreou sua nova política de premiação do roubo de terras públicas na Amazônia, começou na Suécia a rodada 2009 do foro de Tällberg. E, ao juntar na mesma data coisas tão contraditórias, o acaso dilatou ao infinito o fuso horário entre os dois países.

Não eram mais cinco horas de diferença, como dizia o relógio. Mas cerca de 6 mil anos, o tempo que em a paisagem européia começou a mudar a ferro e fogo, pelas mãos de agricultores neolíticos, usando mais ou menos a mesma tecnologia que hoje na Amazônia se chama desenvolvimento econômico.

O Brasil nunca pareceu tão distante como ali do mundo que os políticos terão pela frente. A conferência de Tällberg fez, na semana passada, o ensaio de Copenhagem, onde se discutirá dentro de cinco meses o ajuste da economia mundial às mudanças climáticas. Quer promover em novembro um Protocolo de Quioto elevado ao cubo.

Juntou mais de 500 pessoas, vindas de pelo menos setenta países. Pôs cientistas, músicos, líderes indígenas, chefes de empresas e políticos para ferver num caldeirão de dados avassaladores. Tudo o que se descobriu ultimamente em pesquisas de ponta é pior do que os pessimistas previam há poucos anos sobre o futuro do planeta.

As emissões de carbono, por exemplo, já passaram do índice que se considerava suicida. Seu efeito só não se manifestou ainda em toda a sua eloqüência porque a atmosfera terrestre também está poluída por aerossóis, que rebatem os raios solares. Ou seja, estamos protegidos por um manto de sujeira.

Mas ninguém precisa de números ou palavras para vislumbrar a desordem climática, num auditório em que Rose Mary Museminali, ministra das Relações Exteriores de Ruanda, enxuga várias vezes o suor da testa durante o discurso, apanhada de supresa pelo calor deste verão sueco. E onde, sem o menor esforço retórico, Emmanuel Mori, presidente da Micronésia, um arquipélago paradisíaco nas águas azuis do Pacífico, onde pouco mais de 150 mil habitantes se espalham por uma área equivalente à dos Estados Unidos, explica que sua federação de atóis será tragada pela elevação do oceano, sem ter contribuído em nada para destruir o planeta.

Era um programa pesado, feito para deixar explícito que a crise climática é muito mais grave que a financeira, inclusive em termos econômicos. E até agora não recebeu nem as sobras dos trilhões de dólares despejados desde outubro passado no sistema internacional de crédito. Isso, dito num foro criado em 1981 por homens de negócios, soa mais convincente.

Em Tällberg se fala a sério, sob uma lona de circo, sobre assuntos que em muito palácio ficam entregues ao gogó de comediantes. É fácil entender porque ouvindo a médica Gro Harlem Brundtland se apresentar como “dona de casa”. Ela quase perdeu a reunião, porque não tem mais secretário, desde que encerrou a vida pública, depois de chefiar o governo da Noruega, orquestrar o relatório da ONU que em 2007 botou a conservação da natureza na pauta política e praticamente inventou para o mundo o cargo de ministro do meio ambiente.

Depois de ouvi-la, nada como voltar ao hotel, entre lebres e cervos, por trilhas que percorrem campos floridos, contornam o lago de Silkin, cuja água é a mesma que se bebe nas mesas de reunião, e mergulham nas florestas que atualmente cobrem 60% do território sueco, crescendo 100 milhões de metros cúbicos por ano. É o cenário perfeito para se perguntar por que eles lá se preocupam tanto com esses problemas. E nós aqui, não.
Comentários
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Um mundo cada vez mais distante
frauke strecker 03/07/2009 06:46:09

Caro Marcos,
compartilho totalmente da sua opinião....a distancia está cada
vez maior...Pois o que é desenvolvimento?
Abr.
Frauke (Cantao Suiço)
Debate importante
Mariano Senna da Costa 03/07/2009 06:58:53

Marcos,

esse debate eh fundamental. Por que continuamos com uma mentalidade
atrasada, como se o Brasil-Colonia ainda fosse a estrutura politica vigente? Mas
nao falo do governo Lula. Nao creio que ele seja o culpado. Talvez seja omisso,
e muito. Mas essa mentalidade eh vigente em todos os cantos do pais, em
praticamente todos os niveis sociais. Lembro de um primo meu que trabalha em uma
empreiteira me dizer que em Brasilia se nao tiver propina nao sai obra nenhuma.
Ou um fazendeiro amigo indignado reclamar que se o corte da cana nao for por
produtividade "nao tem como o negocio funcionar". Essa ideologia
medieval eh o cancro historico da nossa alma. Mas tambem nao acho que os
brasileiros sejam diferentes dos Europeus. Esses talvez sejam mais educados, ou
tenham uma mascara de cordialidade e civilidade mas consolidada. Pois la no
fundo continuam barbaramente egoistas e irracionais quando se trata de defender
seus interesses. Bom, mas falar sobre isso ja eh um bom sinal...
Um mundo cada vez mais distante
Crisomar Lobato 03/07/2009 12:53:26

Os Estados Unidos contribuem com 25% dos gases que causam o efeito estufa, e
não demonstram estarem muito preocupados com isso. A Europa nos últimos
séculos já passou por destruição dos ecossistemas, industrialização, etc.
Devem estar preocupados. Acredito que os brasileiros estão preocupados e
conscientes dos problemas climáticos, apesar de contribuirem com menos de 05%
de emissões globais, o que não é nada desprezível. Vamos trabalhar para
redução aceitável, ambiental e econômicamente.
Crisomar Lobato.
mais do mesmo
João Marcos 03/07/2009 18:34:06

Parece até uma reunião num condomínio de barão que eu fui uma vez. Precisava
ver o pessoal falando de ecologia lá, entre umas e outras. Tinha uma baita
área verde(uns 80% do terreno), muita flor, coelho e veado e ainda tinha leão
de chácara. Bem que eu desconfiei que aquilo lá é que era desenvolvimento.
Valeu Marcão.
O Gran Circo Brasuca
Zé Brasil 06/07/2009 16:22:30

Marcos, o pior de tudo que o Palhaço da vez, o Palhaço Mor não tem o menor
talento...
TI Verde
Felipe Coelho 07/07/2009 11:45:16

Olá Sr. Marcos Só Correa, tudo bem?

Não queria ter que usar esse espaço
para enviá-lo essa mensagem, mas não achei um outro meio:

Gostaria de te
apresentar uma medida para um consumo de energia mais sustentável para as
empresas. Talvez você tenha interesse em divulgá-lo.

Trouxemos dos Estados
Unidos um software empresarial que tem como intuito garantir que os com****dores
corporativos não consumam plena energia em momentos que não estejam sendo
realmente utilizados pelos empregados.

Ele é certificado pelo programa
norte-americano Energy Star, o mesmo que autentica os monitores de LCD e os
com****dores que consomem energia de uma forma mais sustentável.

É comum
funcionários irem ao banheiro, fazerem pausa para tomar um café e atualmente
há muitas reuniões dentro das empresas que prometem ser rápidas, mas acabando
tomando boa parte do expediente. E nesses momentos de não utilização dos
com****dores, os empregados costumam deixá-los normalmente ligados consumindo o
máximo de energia.

Esse nosso software permite que se crie políticas nas
empresas para que um monitor entre no modo "sleep" após 5 minutos de
inutilização e que um com****dor entre em hibernação após 15 minutos de
inatividade.

Você imagina que um monitor de LCD, que ainda não é maioria
nas empresas brasileiras, consome 28W quando estão em plena atividade e apenas
2W quando estão em modo “sleep”. Agora imagina multiplicando isso pelo
valor do tempo de energia que está sendo desperdiçada em uma empresa de 500
empregados.

Esse nosso software não só traz benefícios ao meio ambiente,
pois diminui o desperdício, como também permite às empresas diminuírem o
custo com energia elétrica, já que este é o terceiro item que mais consome
energia nas empresas, atrás apenas do Ar-condicionado e do sistema de
iluminação.

Fique á vontade para entrar em contato comigo, caso queira mais
detalhes.

Grato
viagem do aerolula
Ricardo Heurich 08/07/2009 16:00:03

Prezado Jornalista,

O deslumbramento apresentado no artigo do Estado pela
Suécia é legítimo mas, especialmente o parágrafo final demonstra uma
ingenuidade e desculpe a sinceridade uma certa ignorância:

- a Suécia assim
como toda a Europa e os EUA de onde voltei hoje, não tem florestas naturais. O
que eles tem são reflorestamentos, algo totalmente diferente do ponto de vista
histórico e especialmente de biodiversidade. O seu artigo, no limite propõe
que se pode cortar a floresta (amazônica, mata atlântica) e depois plantar
eucaliptos e pinheiros e ter uma economia "saudável".

Acredito que
não é esta sua intenção, mas Lula, com sua simplicidade, sabe que o que
nós temos o primeiro mundo não tem mais. Esperar que os políticos tenham
visão de longo prazo é difícil mas os jornalistas tem obrigação. A
solução da Suécia com seus reflorestamentos acredito que possa ser uma
possibilidade para o RS onde, como eles, já cortamos quase tudo.


Atenciosamente,

Ricardo Heurich
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