Amazônia só é nossa na revista Science PDF Imprimir E-mail
19/06/2009, 15:24
O Brasil às vezes faz mais sentido em inglês. Por exemplo, quando se fala da Amazônia na Science e a barreira da língua impede que saiam lá as bobagens sobre a região que se dizem aqui. A Science é publicada pela Sociedade Americana para o Progresso da Ciência. E este mês ela explica como e por que o apego do governo brasileiro a modelos atrasados de progresso está acabando com a Amazônia, sem tirar sequer proveito de seus recursos naturais.

Em outras palavras, o que se faz ali não é bem agricultura ou mesmo exploração florestal. É pura e simplesmente pilhagem do patrimônio natural, para enriquecer um punhado de espertos e empobrecer para sempre quem vai atrás da conversa desenvolvimentista.

Os ciclos de riqueza na Amazônia duram o tempo que levam os predadores para consumir em proveito próprio o patrimônio nacional. Depois, os pioneiros vão em frente e os retardatários ficam para trás, roendo o osso da terra arrasada. Não é de hoje que o Imazon, o instituto de pesquisa paraense que gerou o mais incontroverso e mais acabrunhante banco de dados sobre a Amazônia, diz que o ciclo da ascensão e queda dos povoamentos madeireiros na floresta duram em média 16 anos - ou três mandatos de prefeito.

É o tempo médio do desmatamento para fundar mais uma cidade fantasma. O que os políticos chamam de desenvolvimento da Amazônia raramente vai além da rapina e da grilagem. E é disso que, do presidente Lula para baixo, Brasília mais trata, quando discute a Amazônia. Quase sempre com pressa para abrir alas ao avanço da agricultura e da pecuária, que não passam de coadjuvantes do grande negócio, que é a pirataria da madeira nativa e o roubo de terras públicas.

A crítica que está na Science sobre o desmatamento da Amazônia é arrasadora. Poderia ser a aula que faltava para o Brasil cumprir o prognóstico do historiador Warren Dean, que há mais de dez anos viu na aniquilação perdulária da mata atlântico o único benefício de ensinar os brasileiros a não repetir o mesmo erro na Amazônia.

Que nada. Desde que Dean publicou essa advertência, a floresta amazônica já perdeu uma Áustria, talvez uma França, vários Sergipes - não importa, essas medidas soam tão desmesuradas que a rigor só servem para reiterar a crença histórica de que aquilo lá em cima é grande demais para o engenho humano; logo, deve ser inexaurível.

Quase todos os laudos científicos acabam caindo, mais cedo ou mais tarde, no buraco sem fundo das superstições nacionais sobre a Amazônia. E, no entanto, se o artigo pudesse ao menos envergonhar o Brasil, teria de tudo para enchê-lo de orgulho. Ele é assinado por nada menos que seis cientistas.

Sua autoria mistura os resultados de pesquisas de campo feitas por um inglês, um neozelandês e uma portuguesa, todos pós-graduados em florestas tropicais, sem falar que obviamente levam mais a sério o destino da floresta do que as autoridades municipais, estaduais e federais de que ela depende.

Mas dois autores são do Imazon, de Belém do Pará. E outro veio ao Brasil pela Universidade de East Anglia, onde ensina o paraense Carlos Peres, o filho de um grande exportador de castanha que se tornou uma referência mundial em estudos das florestas tropicais. O Brasil oficial só toma posse desses feitos porque perdeu há muito tempo, para todos os efeitos concretos, a propriedade da Amazônia. Depois ainda vem dizer que ela é nossa.
Comentários
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o buraco é mais embaixo
José Guilherme 19/06/2009 14:19:08

Por incresça que parível é preciso qualificar a crítica ao modelo (e ele é
muito criticável). Dizer que o avanço da fronteira agrícola não gera
desenvolvimento não bate com as informações do pnud que lista várias cidades
nascidas desse processo que têm idh maior do que 0,8, (Sinop, Sapezaç,Campo
Novo dos Parecis, Lucas do Rio Verde, Sorriso, etc). Todo o oeste do Paraná e
São Paulo no recente século passado se formaram sob o mesma dinâmica só que
desmatando Mata Atlântica. Talvez tenha sido a barreira da língua
Maleiro 19/06/2009 15:08:37

voce leu isso onde? deve ter sido outro artigo ne porque isso nao tem nada a ver
Ciro Siqueira 19/06/2009 18:17:33

Talvez as pessoas prefiram um boon seguido de um bust do que viver no num imenso
bust verde a vida toda.
Para quem tá aí no sul, frequentando bibliotecas,
teatros, usufruindo de museus, hospitais, talvez não faça nenhuma diferença
sendo melhor o bust alheio eterno.
Mas para quem está aqui, camaradas, babado
é babado e bico é bico.
Ciro Siqueira 19/06/2009 18:19:36

www.cirosiqueira.blogspot.com
Parabéns
Ricardo Lopes 20/06/2009 07:32:15

Esse texto deveria ser publicado na primeira página dos principais jornais do
país.
Anônimo 20/06/2009 08:14:23

o velho papinho de quem esta no "sul" e vive bem etcetera e de quem esta
na floresta conhecendo sua "realidade" e bla bli bló ha ha ha essa e
velha, nao cola mais sr. Ciqueira
Explicando pra complicar
José 20/06/2009 21:16:12

Duas perguntas:
1) Nos casos em que a devastação leva a desenvolvimento,a
devastação fica validada?
2) Onde, em que país, houve desenvolvimento sem
devastação?
O que me parece é que nem toda devastação gera desenvolvimento
(isso é o que o artigo demonstra), o que não quer dizer que possa haver (ou
tenha havido em algum lugar)desenvolvimento (ou o que chamam de desenvolvimento)
sem devastação
Complicando pra explicar
José 20/06/2009 21:24:52

de modos que, o problema parece estar em ter como meta esse tal desenvolvimento.
Talvez, seja mais viável mudar o tipo de desenvolvimento a ser alcançado do
que o modo de se atingir o desenvolvimento (do jeito que ele é entendido hoje).
Quantas Sinop precisam para manter Sinop?
Jorge Luiz Vivan 21/06/2009 06:18:07

Quando se analisam indicadores simplistas, com IDH ou PIB para avaliar
desenvolvimento, o problema é achar, por exemplo, que a Holanda vive do
território holandês. E SINOP, nome que nasceu da sigla de uma colonizadora que
havia consumido com as florestas do PR, não vive apenas de seus limites
territoriais. Nem Manaus, e nem as cidades que se fizeram sobre as cinzas da
Mata Atlântica. O problema não é lingua, mas é aprofundar a questão do
desenvolvimento que queremos. Ou de querer defender o business as usual por
alguma razão pessoal, ideológica ou (escolha as opções). Mas o resultado
biofísico está no ar que respiramos.
e vai descendo...
José 21/06/2009 20:40:08

pois é, Vivan, mas é que às vezes é preciso fazer umas voltas danadas para
manter a situação como está (os defensores do "business as usual"
usam um monte de disfarces, inclusive de ambientalistas).
e vai descendo...
José 21/06/2009 20:58:57

sim, qualquer devastação é uma porcaria, gere ela desenvolvimento ou não. O
problema é achar ou, deixar subentendido, que há como continuar mantendo
padrões de consumo e modos de produção absurdos, do ponto de vista ambiental,
sem que se continue devastando.
Perdas e Ganhos
Zé Brasil 22/06/2009 14:32:40

A questão não é o que se ganha(ou pode-se ganhar) com a devastação, mas o
que se perde (para sempre)a biodiversidade. Lembram-se da fábula da galinha dos
ovos de ouro?
Fama Brasilis no exterior
Fabio Heydman 23/06/2009 07:57:12

Todo conteúdo dessa matéria é fato, foi elaborado por pessoas que vivem e
estudam os diversos processos que ocorrem na Amazonia, sejam eles benéficos ou
maléficos. Desenvolvimento lá? Existe sim, o sustentavél, que é o que
consegue agregar mais comunidades trabalhando, ganhando e conservando o meio
natural, o que nao serve por lá é o desenvolvimento ridiculo do agronegocio
com seu modelo retrogrado de devastaçao. Esse sim gera desenvolvimento, só que
para uns e outros. Quem nao acredita que possa existir desenvolvimento junto com
conservaçao ambiental, ta por fora do assunto, foram centenas de anos
desenvolvendo sob um sistema predatório, que nos deixou inumeras experiencias
para nao serem repetidas, basta olhar para o hemisferio norte.
O Brasil só
caminha nesse ritmo porque estamos mal administrados, e por falta de informaçao
temos a falsa impressao de que se nao devastarmos estaremos ficando pra traz no
desenvolvimento ECONOMICO, pois é esse que o governo busca, e que privilegia
poucos. Como exemplo, basta ver o Lula fazendo discursos absurdos no exterior
dizendo que o país é modelo de desenvolvimento sustentavel, hahaha faça-me
rir amigos, estamos parecendo aqueles novos ricos, os tais "emergentes"
que ganham um dinheirinho ja começam a se achar e ficam falando me..a. Já
estamos até emprestando dinheiro pro FMI, tamo podendo hein!!! Pelo menos eu
nao posso emprestar, alguém aí tá podendo assim?
onde?
José 23/06/2009 11:30:22

Fábio, fiquei curioso, o que vc exemplificaria, no mundo real, como
desenvolvimento sustentável?
Desenvolvimento Sustentavel? Sim!!!!
Fabio Heydman 23/06/2009 12:34:50

José,
Realmente exemplos bons temos pouco, mas creio que pequena parte da
sociedade esteja pensando diferente e revendo sua forma de agir na vida
cotidiana. Só de pensar no coletivo, mudar habitos antigos já se pode pensar
em sustentabilidade. Mudanças radicais trazem muitos problemas, talvez por isso
que ainda temos tantos maus exemplos que nao nos deixam enxergar mudanças
pequenas que ocorrem por aí. Falando concretamente, posso citar as reserva
extrativistas da amazonia (nem todas sao exemplos)o inicio de experiencias em
pagamentos por serviços ambientais, a propria pesquisa cientifica que
atualmente foca seus esforços na geraçao de informaçoes pró meio ambiente e
diversas açoes locais que surtem efeitos e que nos levam a acreditar que é
possivel sim, ter futuramente exemplos mais claros de sustentabilidade. Ficando
antenado aos acontecimentos dúvidas como essa nao persistem por muito tempo.Abs
José 23/06/2009 18:27:14

Fabio, eu não conheço de perto a realidade das resex, mas gosto da idéia
delas, de procurar novas formas de se organizar pra produzir. Também acho que
não tem nada pronto, mas qualquer experiência que seja alternativa ao modelão
que existe (e que, pra mim de Terra do Meio a Nova Iorque é tudo a mesma coisa)
tá valendo, pelo menos como piloto
Ignorancia e parcialidade
Mariano Senna da Costa 24/06/2009 03:30:06

Achei interessante que a discussao dos comentarios mostra melhor a situacao das
consciencias nacionais. O artigo em si aborda uma questao fundamental, sem
duvida. Mas o tema nao eh novidade nenhuma, assim como a sua abordagem....ja vi
essa coisa de que em ingles se explica melhor etc, uma dezena de vezes... em
diferentes temas... Mas dizer que no exterior se entende melhor do que se passa
no Brasil eh uma concessao interpretativa pra la de parcial, para dizer o
minimo. Apesar da relevancia do tema, e do talento do autor, o texto transparece
lamentavelmente uma preferencia politica inegavel. Como se Fernando Henrique
tivesse feito alguma coisa pela Amazonia ou pela reforma politica do pais. O que
falta mesmo eh honestidade intelectual em discutir conceitos volateis como
"desenvolvimento", "sustentabilidade", "consciencia
ambiental". O que eles significam, para quem, em qual contexto? Analisar o
espectro politico isoladamente eh apostar na ignorancia alheia. Por exemplo,
sera mesmo possivel mudar a cabeca das pessoas por uma realidade mais frugal e
menos predadora, enquanto o modelo de consumo defendido ostensivamente pelo
monopolio Rede Globo prega o oposto? Pode parecer abstrato, mas uma coisa esta
ligada a outra. So nao ve quem nao quer...
Desenvolvimento sustentável
Carlos Humberto Pereira 31/07/2009 11:10:53

Não adianta. por mais cuidado que se tenha com o meio ambiente, é impossivel
manter o planeta em bom estado e ao mesmo tempo dar um padrão de vida no nível
dos países ricos a toda a população humana mundial.Eu vou chutar a
população mundial teveria ter no máximo uns 100 milhões de habitantes e
todos usufruindo um alto padrão de vida sem agredir o planeta, e isso está
longe dos sete bilhões atuais
Max Wylerson F de Medeiros 05/08/2009 05:14:36

Parabens, pela materia. Infelismente neste "país" temos muita porcaria
- no poder - e quase nada que preste - no resto que obedece...
amazonia legal
marcia vivacqua 29/08/2009 14:27:05

Nao perco esperança, pois entrei aqui nesta pag. para pesquisa escolar do meu
filho (12 anos)sobre o título acima. Vejo portanto que tem jovens e bons
professores que são difuzores de novos pensadores que colocam o assunto em
debate e com a realidade dos problemas. O meu filho de 4 anos estuda na escola
que não pode desmatar a floresta pq mata os animais acaba com a
agua...
Estamos criando uma nova consciencia
do mundo naturalmente.
O que
falta é a educação e informação para todos e ensinar burro velho é
difícil mas não impossível.
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