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Não deixa de ser um alívio abrir o jornal e ver que até Warren Buffet, do alto de seus bilhões de dólares, está perplexo com esta crise internacional. “As pessoas mudaram seus hábitos de um modo que eu nunca tinha visto”, diz Buffet, porque as joalherias vendem menos do que vendiam antigamente e antigamente foi no ano passado, quando ele era o homem mais rico do mundo.

De lá para cá, as coisas aconteceram tão depressa que a entrevista de Buffet saiu no mesmo dia em que uma reportagem mostrando, no New York Times, o que as pessoas mais ou menos comuns estão achando dessas novidades.

Vestido velho

Uma colunável americana acaba de ser fotografada numa festa em Atlanta com um vestido de dez anos atrás. Um grande advogado de empresas deu para preferir restaurantes que aceitem tíquete-refeição. Curada de seu “comprismo compulsivo”, uma professora de Chicago passou a buscar a felicidade naquilo “que o dinheiro não pode comprar”.

O gerente de uma imobiliária perdeu o faro para fuçar liquidações. Ultimamente, em vez de se espelhar na gravata nova que o colega “à direita” encontrou num balcão de pechinchas, ele anda de olho “nos quatro sujeitos à esquerda que foram demitidos e não arrumam emprego”. Cada um com seu jeito de encarar a crise. E todos comprando menos. 

Debutou na praça um novo padrão de elegância, depois de uma longa era de extravagância e exibicionismo, que caducou de repente, mais ou menos pelo mesmo efeito de contágio que, no Brasil, marcou as gravatas Hermès e o uísque Logan como símbolos da Nova República alagoana, com o impeachment do presidente Fernando Collor.

O resultado, nos Estados Unidos, é uma retração do mercado bem maior do que a prevista pelos cálculos estritamente financeiros. Lá, pelo menos, não pegou a receita caseira do presidente Lula de afogar a marolinha do colapso econômico numa onda de consumismo cívico. Ao contrário, a abstinência conspícua abriu uma nova escola de grã-finagem. E, se valer o exemplo da grande depressão do século 20, a austeridade pode durar uma geração.

“Eu acredito mesmo que agora é tipo chique ou sei lá poupar dinheiro e catar centavos”, admitiu uma advogada à repórter Shaila Deway. “Nós todos tínhamos transbordado e estamos tentando voltar ao ponto onde deveríamos ter ficado”, explicou-se Sacha Taylor, a tal socialite que tirou o vestido de gala do armário.

Só havia um defeito na reportagem. Ela não saiu, como deveria, nas páginas de meio ambiente, que a tornaria naturalmente mais otimista. Bastava encaixá-la na moldura certa, a da outra crise, a do desenvolvimentista, que freou bruscamente em meados do ano passado. Aos olhos da hipocondria ambiental, nada mais saudável que uma pausa num crescimento que fazia os chineses comprarem 14 mil carros novos a cada 24 horas, injetava um Portugal inteiro por ano no mercado da classe média indiana e, num dia muito quente do verão de 2006, tirou 1.100 aparelhos de ar condicionado das prateleiras de uma única loja da cadeia Wal-Mart em Shenzhen.

Era isso que os ambientalistas queriam dizer, resmungando que não havia planeta que chegasse para tanto consumidor. Mas quem estava aí, meses atrás, para ouvir conversa de ambientalista, com um norte-americano custando à atmosfera terrestre, em CO2, o equivalente a 32 quenianos e todo mundo convencido de que chegara a sua hora de viver como norte-americano?