Pior do que a chuva é o manda-chuva
15/12/2008, 13:37
Não é só a chuva que volta a atacar em Santa Catarina. O governador Luíz Henrique da Silva também está pegando pesado. Não lhe basta ser o tricampeão nacional de derrubada da mata atlântica. Ou mesmo o propagandista de um Código Ambiental para revogar todas as disposições contrárias a suas idéias, como transformar Florianópolis em Marbela. Ele agora patrocina na Assembléia Legislativa a liquidação do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro.

O parque é o melhor remédio da farmacopéia política catarinense para evitar o desmanche de seus morros, quando os céus desabam sobre a imprevidência humana aqui na terra. Tem 90 mil hectares. Cobre um por cento do estado. Quem não o reconhece pelo nome, mas andou um dia pelo litoral do estado, mesmo distraído há de ter percebido sua existência.

É dele a paisagem que liga o mar ao planalto, com mata atlântica, restingas verdes, florestas de araucária e campos de altitude. E engloba os mananciais que abastecem Florianópolis, canalizando para as torneiras de um milhão de pessoas, em perfeitas condições de uso, a água serrana dos rios Vargem do Braço e Cubatão. É nisso que o governador resolveu mexer, para estragar.

Loteamento informal

O parque está ali desde 1975. Vive há 33 anos sob ataque. O resto ficou sendo de quem pegou primeiro. Como a Baixada do Maciambu, vítima do decreto que lhe amputou uma faixa de 500 metros da costa, em Palhoça, para dar ao município um balneário.

Alegou-se, na ocasião, a urgência de regularizar seis mil lotes situados dentro de seu território – todos eles generosamente distribuídos pela prefeitura em área pública, confiada à administração local desde 1904 e ainda por cima protegida contra todo tipo de ocupação pelo Código Florestal de 1965.  Isso foi em 1979, quando o parque tinha apenas quatro anos. Abriu o atalho político para desmembrá-lo. E não parou mais, segundo o geógrafo Leonardo Carvalho, que viu a pressão contra aintegridade do parque subir como gerente de Unidades de Conservação da Fundação de Meio Ambiente de Santa Catarina e diretor de Estudos Ambientais de Palhoça.

Segundo Carvalho, a história ambiental da Serra do Tabuleiro é mais longe até que a do parque. “Mesmo antes da criação de tal área especialmente protegida, o Padre Raulino Reitz e o Botânico Roberto Miguel Klein, que à época detinham o maior conhecimento de campo sobre a biodiversidade Catarinense, já haviam vislumbrado a importância estratégica de se proteger, para benefício das gerações futuras, toda a região que atualmente compõe o parque, tanto devido às características hídricas, geológicas, geomorfológicas, florísticas e faunísticas de tal área, bem como por suas potencialidades paisagísticas e turísticas”.

Mosaico de Apas

Isso não impediu que, a partir dos seis mil lotes desafetados em 1979, houvesse 12 mil propriedades na Baixada do Maciambu, quatro anos atrás. A prefeitura de Palhoça os reconhecia informalmente, cobrando-lhes IPTU em dobro, inclusive de lotes que ficavam dentro de outros, ou mesmo em ruas e rios. É essa multiplicação de direitos nulos que se pretende arrumar às custas do parque.

Tudo isso às custas de uma paisagem rara. No Maciambu, lembra Carvalho, “os cordões arenosos semi-circulares da restinga formam um monumento geológico, que representa uma aula viva da formação das planícies quaternárias”. E sua preservação foi recomendada pelo I Simpósio Internacional de Geomorfologia, que ocorreu em Florianópolis em 1975.

Mas o parque nasceu emparedado entre nove municípios. E enfrenta, desde que o Decreto Estadual nº 1.260/75 declarou de utilidade pública suas terras, reservando-as à desapropriação, a má vontade da especulação imobiliária no litoral e da agricultura no interior. Sob o cerco de nove municípios, ele recebeu no começo da década um alento, em forma de créditos externos para programas de salvação da mata atlântica. A Serra do Tabuleiro é seu maior fragmento no Sul do Brasil. E o parque ganhou por isso financiamento para o plano de manejo e a avaliação técnica de seu passivo fundiário.

O resultado foi uma proposta que tirava de suas bordas cerca de mil hectares “irremediavelmente comprometidos” e encaminhava aos deputados estaduais uma proposta de regularização defintiva. Nada a ver com o projeto que tramita a toque de caixa na Assmbléia Legislativa. Esse correu por fora, tangido por políticos e proprietários, via gabinete do governador.

Ele propõe, sem tirar nem pôr, o desmonte do parque, dissolvendo-o no Mosaico de Unidades de Conservação na Serra do Tabuleiro e no Maciambu. Muda-o de categoria, rebaixano-o a Áreas de Proteção Ambiental – e as APAs, como se sabe, são o regime mais frouxo previsto pelas leis ambientais. Cabem até favelas, fábricas e eucaliptais nessas áreas. Enfim, entraga-o aos cuidados das prefeituras que tradicionalmente lhe são hostis.

Em outras palavras, o projeto é para acabar com o parque, mesmo. Isso numa hora em que o governador se queixa da “tragédia ambiental” que se abateu sobre Santa Catarina. Se pelo menos ele usasse “tragédia ambiental” para fazer uma autocrítica.
Comentários
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O Exterminador do Futuro de SC
Leonardo Mohr 15/12/2008 20:34:40

Pena que o Eco é lido por uma minoria em relação às pessoas que sofreram com
o caos em Santa Catarina. O nome deste político deveria ser marcado em livro e
nunca mais reeleito, nem para mandato de síndico. Espera-se que aquela parcela
que reelegeu este sujeito governador do Estado se dê conta de seu ato estúpido
e escanteie de vez gente deste naipe. Ou então, para aqueles que sofreram com a
tragédia e não pensarão duas vezes em votar outra vez nele, que não venham
chorar as mágoas.
PS
Leonardo Mohr 15/12/2008 20:42:21

Em tempo: parabéns as advogadas autoras do Parecer que analisou a minuta do PL.
Foram até comedidas com o lixo em análise. Esta minuta deveria virar estudo de
caso em curso de Direito: redação jurídica estilo Mobral Primário. Aliás,
desculpe: certamente quem fez Mobral tem mais cancha do que esse pessoal.
Comentário
Walter Alberto Sá Bensousan 17/12/2008 14:24:22

Caro Marcos Sá Corrêa,

Moro na região motivo da matéria \"Pior
do que a chuva é o manda chuva\".

De fato, sou lindeiro deste Parque
e conheço a fundo os absurdos que permeiam não só o que escrevestes sobre o
parque, mas também questões indígenas manipuladas além de um bilionario
projeto de duplicação rodoviária, que de igual forma interage ilicitamente
com este parque.

Veja então: o governador catarinense concorda com tamanho
disparate citado na sua matéria, porque está prevista a entrada de US$ 30
milhões proveniente do KFW - Banco Alemão, a título de ser aplicado neste
projeto de recategorização e redefinição de limites. Até aí imoral mas
tudo bem! Acontece que a Ong austríaca KFS também fianancia no mesmo parque a
regularização e demarcação de terras para indígenas residentes no Paraguai,
atualmente ingressando no Brasil mediante fraudes antropológicas comprovadas.
Para seu esclarecimento o Parque conforme citas na matéria, é extremadamente
acidentado e não suporta o impacto de habitações humanas (aldeias). Sabendo
da irregularidade das ocupações indígenas - vide os encaminhamentos da
Procuradoria do Estado - mesmo assim, o Governador prefere a transgreção pela
ganância do US$ 30 milhões.

Rencentemente no mesmo parque, obtive após
denúncia formalizado junto ao TCU um acórdão que evitou a majoração de
aprox. 60 milhõe de dolares, motivada desta vez por questões ditas indígenas,
ou, supostamente favoráveis aos indígenas alí propositalmente locados sobre
um barranco que em 1994 despencou sobre a BR 101, tornando-a impedida por três
dias. O governador sabe disto, mas para não por em risco os 30 milhões do KFW
prefere fingir que nada acontece, a despeito da atuação de sua Procuradoria
contraria a tais desumanas ocupações. A propósito, alí já morreram mais de
18 indígenas além outras dezenas de feridos por atropelamentos, mas isto não
toca a nossa desumana escola antropológica, tão bem coberta pela mídia
desinformada.

Leia o meu site www.antropowatch.com.br há um link
específico sobre o parque/zoneamento, também fraudado vide MPE/SC. O Governo
catarinense, é claro, omite o assunto por duas razões: 1- pagou pelo serviço
fraudado deste zoneamento 2- não quer que a mídia internacional descubra o
antagonismo dos financiamentos das duas agências alemãs de fomento: KFW
voltado a suposta manutenção de um parque inabitável e KFS voltado a
regularização fundiária dentro de um parque inhábitável.

Vou parar por
aqui, foi apenas uma pitada do que envolve este parque.
Lamento não poder ter
falado contigo sobre o tema Parque/governador/meio ambiente.

Caro Marcos há
muito mais do que escreveste, mesmo assim parabéns.
O Brasil está descobrindo
Sta. Catarina e vendo que não somos diferentes do resto do país.
Site "antropowatch" difama e persegue os Guarani
Flora Neves 26/03/2009 19:09:05

Leiam está matéria esclarecedora sobre este site que luta contra os Guaranis e
contra o meio ambiente, só pensando no privado, nas terras que diz quer
resgatar dentro da Aldeia Indígena Guarani do Morro dos Cavalos. (
http://www.midiaindependente.org/pt/green/2008/12/ 435264.shtml )

Leiam
também o blog www.ecoflora.blogspot.com com mais notícias sobre o Parque do
Tabuleiro e o que realmente acontece naquela região.
Marcos Sá Corrêa, sou
sua adimiradora a alguns anos, desde que entrei no jornalismo e que me
interessei pelo jornalismo ambiental. Parabens pela matéria e pelo seu
trabalho.

Flora Neves(*_*).
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