Moradores do Itatiaia tentam voltar por cima PDF Imprimir E-mail
05/12/2008, 15:33
Com a palavra a Associação dos Amigos do Itatiaia. Ela apresentou ao Ministério do Meio Ambiente sua proposta de regularização fundiária do parque nacional, um assunto que o governo federal carrega no ventre desde 1937. Está mais do que na hora de ouvi-la. Falando sozinhas há 71 anos, as autoridades não deram até hoje um passo para resolver o problema que criaram no começo do século passado, ao vender lotes em fazendas da União, que pouco depois resolveram transformar em reserva de proteção integral, portanto, necessariamente livre de propriedades particulares.

Tudo isso, como sempre, vige no papel. Às vezes, papel de jornal, quando sobe a serra, com muito barulho e pouco resultado concreto, a notícia de que o processo de desapropriação, encruado há tantas décadas, está finalmente para deslanchar em Itatiaia. Foi o que aconteceu quase três anos atrás. O pôs o parque em pé de guerra. Mais uma vez para nada.

As palavras oficiais abriram a última temporada de conflitos na região. Depois, emudeceram. O primeiro projeto a se materializar vem agora do outro lado, o dos moradores e hoteleiros. Está longe de ser o ideal. Pois o ideal é um parque nacional como se deve, cem por cento de terras públicas. Mas também não é descartável sem que o governo se dê ao trabalho de, pelo menos, levá-lo a sério.

Parque natural

Sob a ameaça de desapropriação iminente, os proprietários fizeram o dever de casa. E voltaram à mesa de negociação armados com argumentos plausíveis, além de velhas fotografias em branco e preto, pioneiros coloridos, boas histórias e mapas convincentes.  Será difícil, agora, deixá-los sem resposta.  

Eles pedem a redefinição dos 1.300 hectares que a sede administrativa divide com 190 residências e cinco hotéis. Seriam 4,5% a menos na área total do parque. Correspondem à parte baixa, a mais visitada, além de ser geralmente a primeira que vem à cabeça de que andou por lá pela primeira vez, trazendo fotografias e lembranças.

Nesse caso, é provável que figurem entre suas recordações o Véu de Noiva e a Poranga, duas cachoeiras muito visitadas do rio Campo Belo e símbolos não só da beleza natural, como dos paradoxos de Itatiaia. Elas ficam no meio da mata – ou pelo menos da capoeira que cresceu naquelas encostas, antes devastadas por empreendimentos agrícolas, desde  1937. Para vê-las, é preciso caminhar por picadas rústicas, que são o único vestígio ostensivo de ocupação do terreno. Não parecem, mas pertencem a um sítio, o Jangada, cujo dono nos fez o favor de deixá-las assim.

As cachoeiras contrastam com outros pontos turísticos, inclusive do rio Campo Belo, situados em terras públicas. Neles, geralmente se chega por estrada. Há clareiras, pontes de concreto e até churrasqueiras a sua volta, confundindo os sinais que demarcam o que é público e o que é privado no parque nacional. E é nessas contradições que os proprietários se escoram, invocando a “exemplar convivência entre o homem e o meio ambiente” que o governo, por equívoco, patrocinou em Itatiaia, ao iniciar seu povoamento em 1908.

Núcleo colonial

A convivência nem sempre é tão exemplar assim, ou eles mesmos não estariam se oferecendo para, em contrapartida, sanar os impactos da presença excessiva de gente no parque, herdeira dos povoadores que o Ministério da Agricultura instalou lá dentro há um século. Mas eles acreditam que encontraram uma fórmula para, à falta de solução melhor, defini-la e delimitá-la.

Seria o Núcleo Colonial do Itatiaya, que o documento grafa com “y”, para deixar claro que fala em nome de quem chegou ali primeiro. Os grileiros que vieram depois estão excluídos da proposta. Redefinido como Monumento Natural, contíguo ao parque e igualmente enquadrado nos estatutos de proteção integral.

A definição, em si, é controversa. No Ibama, quem entende do assunto alega que Monumento Natural foi concebido para a preservação de “recursos abióticos” – ou seja, de paisagens onde a flora e a fauna já se perderam ou não têm importância fundamental. E mesmo assim não exclui, legalmente, o requisito de que as terras sejam públicas ou que os proprietários se abstenham de usá-las.

Há, também, o perigo de que a mudança, em Itatiaia, ao passar pelo Congresso, arraste todos os penduricalhos legislativos que permanentemente conspiram na política contra os parques nacionais. Mas até os críticos da proposta admitem que o pior problema fundiário de Itaiaia não esteja no antigo núcleo colonial, mas do outro lado da serra da Mantiqueira, onde a expansão do parque, na década de 1980, englobou sítios e fazendas que avançaram sobre os 48 mil hectares comprados pelo governo do comendador Henrique Irineu Evangelista de Souza, filho do Barão de Mauá.

E, pela primeira vez, os interesses contrariados pelo parque nacional se dividiram, o que é um avanço. De quebra, alegam os moradores, a criação do Monumento Nacional “desoneraria a União de significativo dispêndio de recursos financeiros para desapropriação de imóveis”. Só essa conta já foi orçada – pelos donos - em 60 milhões de reais. Mas o maior lucro seria a oportunidade de botar ordem no que, à falta de definição jurídica, virou bagunça, com lixo ao relento, córregos contaminados por esgotos e animais domésticos à solta no que deveria ser um santuário da fauna nativa. Tudo isso, segundo a Associação, seria negociado na hora da mudança.
Comentários
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Matéria Estadao Itatiaia
Alexandre Lorenzetto 06/12/2008 13:49:16

Olá Marcos,

como conhecedor de seu trabalho e de uma parte de sua história
profissional (vide publicações da FBPN por exemplo), além de poder conversar
contigo pessoalmente em algumas outras ocasiões, quando eu era coordenador da
Rede Nacional Pro-UC. E por fim, em tantas outras ocasiões, divulgando aos sete
cantos e aplaudindo muitos de seus artigos publicados no Oeco sobre o tema
ambiental.

Nao posso deixar de comentar, com alguma frustração, um artigo
que escreveu, de forma totamente unilateral - ao meu ver- sobre a historia do
tao sofrido PNI, do qual eu imaginava ate então, que tinha em sua pessoa um
defensor imbatível (vide inclusive, suas publicaçoes sobre o mesmo
parque).

Acho que tal artigo entristece incluso, os membros de todas as UCs
que compõe o Moisaco da Mantiqueira e conservacionistas deste nosso país, como
eu por exemplo.

Sei que todas as coisas tem seus dois lados... sei também
das cifra$$ das quais estamos falando quando comentamos sobre a regularização
fundiária caríssima destas áreas. Ainda assim, lhe digo com toda convicção,
que um artigo como este, vindo do Editor do Oeco, impresso na mesa de cada chefe
de Ucs do Mosaico da mantiqueira ou de cada conservacionista brasileiro, acaba
soando como um \"gol contra\".

Fora as soluções
tecnicamente ou politicamente mais corretas, mais plausiveis, mais neutras, mais
tangíveis ou mais tragáveis... este assunto é um assunto
\"bandeira\". Se trata do nosso primeiro Parque Nacional... acho
que é o suficientemente justificável para nao cedermos às pressoes de
minorias.
Nao acha? ou melhor.. nao é porque o PNI nao vai ser indenizado que
o PN Aparados da Serra ou qquer outra UC brasileira vai ser o proximo da fila...
as coisas aqui sao assim e acho que você sabe muito mais do que eu sobre este
assunto.

Continuo acreditando no Oeco, por se tratar de um fórum
independente, e sei também que você tem um comprometimento pessoal, assim como
eu ou até mesmo mais do que eu, por este parque.

No entanto, nao pude deixar
de comentar o assunto, pelo respeito e admiração que tenho à sua pessoa,
assim que tive acesso a referida matéria no Estadao.

Grandíssimo abraço e
eu continuo torcendo pelo PNI e nao pelos seus posseiros.

Uma pena
Arthur Tostes 06/12/2008 15:03:18

Uma pena este artigo, uma pena ver que no quintal de casa pode-se ter outra
opinião, uma pena ver que uma referência vira, da noite para o dia, um
pseudoambientalista. Quilombolas de Sergipe (vide matéria "a imobiliária
Palmares ataca outra vez") não podem, mas economistas podem, só porque que
acharam "legal" viver num parque e só tem a referência de um lado da
"história verdadeira", como Hugo Penteado se referiu na matéria de
Andreia Fanzeres. Quem conhece o PNI sabe que a maioria absoluta das
construções foi feita depois da criação do parque, divisão irregular de
lotes, construções em APP (vai defender esta também, Marcos?), enfim, se
veranistas são elogiados por tentarem uma solução que apenas, digo de novo,
apenas quer acomodar seus interesses e nenhum, digo de novo, nenhum interesse
coletivo ou ambiental, não vejo mais porque pensarmos em áreas protegidas. É
melhor vender para o ABN Amro Bank, porque pelo menos Hugo Penteado e Marcos
Sá, nossos pseudoambientalistas, vão elogiar...

Que pena. Depois de ler a
matéria fiquei desiludido com tudo que diz respeito à área ambiental. Uma
pena mesmo.
Itatiaia X Moradores
Helton Perillo Ferreira Leite 06/12/2008 15:06:16

Caro Marcos,
Seu texto dá um importante aval à idéia do desmembramento do
Parque do Itaitaia.
Importante aval devido à importância do autor.
Concordo
que haja falhas administrativas gritantes neste, em outros Parques e em vários
outros setores da administração pública brasileira.
Contudo não entendo que
a melhor forma de sanar problemas administrativos seja a retirada do poder
público do cenário em questão.
A maiorira de suas fotos, excelentes macros,
do livro O Caminho das Pedras foi capturada na Parte Baixa do Itatiaia.
Se não
houvesse uma preservação movida pelo poder público, ainda que não uma
preservação ideal, se não houvesse esta preservação será que você teria
conseguido tantas fotos de tal qualidade estética e ambiental?
Sou admirador
especial da Parte Alta, o Planalto do Itatiaia, publiquei um livro sobre ele,
você o conhece, quase nunca vou à Parte Baixa, mas reconheço sua
importância.
O argumento de que o valor de indenização orçado pelos
interessados é alto porque é o valor que eles querem receber, nem sempre
compatível com o valor de mercado. Procure os valores registrados nos
cartórios para os últimos negócios de lá, você verá que não é tão alto
assim.
Mesmo alto tal valor nada é comparado com os dispêndios do aerolula e
outros luxos assemelhados.
O Brasil pode, tem dinheiro para isto, e merece ter
seu Primeiro Parque Nacional melhor preservado.
Inteiro e preservado.
Somar,
multiplicar sim. Nunca diminuir ou dividir.
Abraços
Helton Perillo Ferreira
Leite
Eng. Agr. - Lorena (SP)
Forum.
Hamilton José Ferraz de Mello 07/12/2008 11:13:44

Alexandre Lorenzetto expressa bem o que O ECO é: um forum.
E como forum cabe
o controverso.
Marcos Sá Corrêa tem a dignidade jornalistica de expor a outra
versão.
Deu uma oportunidade de reflexão ao colocar no link, segunda linha do
artigo, a outra face, na integra.
Temos todos que lêr esse documento com
espírito crítico, mas isentos.
Então sim, valem as críticas, severas,
articuladas, porque completadas pela visão do reverso.Cabem todas as
argumentações contrárias.
O que não cabe é criticar a luz que iluminou um
nicho sombrio.
Só os funcionários querem morar no PNI
Ana Lúcia 07/02/2009 08:47:52

Quero parabenizar Marcos Sá Corrêa que não apenas está ouvindo os dois
lados, mas se documentou, viu mapas e leu a história do PNI. Isto é dar de
fato oportunidade ao debate. Se for para fazer uma análise rasa, o lado dos
defensores de reserva exclusivamente pública já está bem representada nas
opiniões deste fórum. Do outro lado, moradores, proprietários de hotel alegam
não apenas a herança, mas a história construída que representa suas vidas.
Já os defensores da "preservação total" talvez estejam cumprindo seu
papel, quero acreditar que seja mais do que apenas querer o PNI para moradia,
afinal os funcionários do Ibama têm moradias funcionais - moram lá, dis****m
entre eles os melhores sítios e acomodações, fazem churrasco e bebem cerveja
- como os turistas.
desmenbrar x manter
Milton Gouvêa Franco 17/02/2009 13:12:43

Olá a todos

Venho acompanhando as noticias e opiniões sobre esta questão
do Itatiaia a pouco tempo, mas já posso ter uma opinião formada sim sobre o
assunto.
A pouco tempo foi anunciada a retirada e regularização de uma area
do nucleo Picinguaba que fazia parte do Parque Estadual da Serra do Mar, uma
questão também nada simples, mas a noticia veinculada no estadão dava um
ponto final na questão com muito menos gasto por parte do governo. Já as areas
sem documentação não haveria simplesmente um tostão de indenização, o que
ocorrerá apenas com quem tem a titularização, diga-se de passagem deve
demorar um montão até a conclusão final.
Por si só considero um avanço
tremendo pois direciona os esforços dos administradores de UCs para outros
inumeros problemas que temos em nosso parques. Temos que ser mais ageis em
algumas questões até para servirem de exemplo para outras definições que
também não são simples, mas analisar caso a caso e encontrar soluções é
muito melhor para o meio ambiente do que arrastar por muitos anos a falta de
definição. A serra da Mantiqueira vive muitos problemas semelhantes e a
conclusão de um pode representar a solução para outros muito proximo.
turismo no PNI
Luiz Alves 15/04/2009 10:47:44

Moro Em visconde de maua na area de amortecimento do parque nacional do
itatiaia, vivo de turismo , tenho uma pequena pousada e sofro com a ausencia do
poder publico na região , notadamente IBAMA/Chico mendes, que deixou que a
situação de ocupação chegasse ao nivel que estamos ,tanto no parque de
itatiaia quanto em maua , senão me engano somente nos ultimos 8 anos está
havendo alguma fiscalização, asim mesmo com denuncia via linha verde. Pois Bem
em 2000 80% da instaçação turistica já estava implantada . O que fazer com
dezenas de conmercios e propietarios que investiram suas vidas nesses lugares,
sem o menor acompahamento do poder publico , por omisção ou imcompetencia.Não
seria melhor pensarmos numa covivencia pacifica e harmoniosa baseada no bom
senso e à luz da legislação ? Podemos ter atividades tursticas sustentadas se
os entes federativos derem a sua parcela de colaboração. Isso è Posssivel ,
nosso ministro do meio ambiente pensa assim. Tecnocratas do IBAMA , com uma lei
anacronica de baixo do braço , fundamentalistas as vezes, pouco se importam com
isso , pois passado um tempo são transferidos para outra unidade de
conservaçãoo e nós continuaremos aqui . Bom senso pessoal é isso falta.
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