O físico Germano Woehl Júnior escreve de Guaramirim para dizer que “conseguimos” adiar por sete anos a morte de uma restinga no litoral catarinense.
“Nós” quem? Ele sempre põe os verbos na primeira pessoa do plural, o que dá ao destinatário a ilusão de que faz parte da história. Antes de ler o resto, qualquer um acha que conseguiu evitar algum estrago em lugares que mal consegue ver no mapa, sem a providencial ajuda do Google Earth. Basta abrir a mensagem para constatar que “nós” é ele. Ou melhor, ele e a mulher, Elza Nishimira Woehl, que divide com o marido essas pequenas vitórias solitárias, exclusivas de quem nasceu para investir dinheiro e energia em causas que, soltas na correnteza das opiniões majoritárias, estariam, por definição, perdidas.
Não poderia ser menos majestático o plural de Woehl. Resume-se ao que os dois, sozinhos, conseguem fazer – como salvar a tal restinga entre Guaramirim e Araquari. É um tipo de floresta que lembra em miniatura a amazônica, “inundada a maior parte do ano, com árvores gigantes como o olandi e o ipê-caixeta” que, como o breve texto não se esquece de informar, também atende pelo apelido de “pau-tamanco”, como convém a uma espécie “explorada predatoriamente para fazer tamanco, artesanato, lápis”.
| O casal encontrou três anfíbios endêmicos, que aparentemente não existem em outros lugares do Estado. E, sete anos atrás, a mata estava condenada ao corte raso. |
O fragmento é modesto. Mas ali o casal encontrou três anfíbios endêmicos, que aparentemente não existem em outros lugares do Estado. E, sete anos atrás, a mata estava condenada ao corte raso, por fazendeiros empenhados em abrir pastos.
Coisa de gente grande. Um deles é dono do maior frigorífico de Jaraguá do Sul, o centro industrial da região.
Denunciá-los aos órgãos ambientais e ao Ministério Público foi uma dessas imprudências que beiram a maluquice. Os Woehl foram até ameaçados por capangas. Mas levaram para lá os fiscais. Com os fiscais vieram as autuações. E um promotor de Araquari acabou comprando a briga. Por enquanto, a restinga venceu.
Regeneração. O e-mail veio contar que, comparando outro dia, por acaso, as imagens de satélite da época com as do ano passado, os Woehl notaram que o lugar mantém o mesmo desenho que tinha em 2002. Como eles não pregam prego sem estopa, as duas fotografias foram anexadas à mensagem.
A mata parece mesmo transbordar o antigo contorno. Mas Germano não é marqueteiro para abusar de maquiagem. A parte que mais cresceu, ele avisa, “é de pinus”. Mas houve um trecho pequeno “que o dono de uma fazenda abandonou”. E ali parece estar ocorrendo a regeneração espontânea da floresta nativa.
E daí? Daí que Germano pode ser, na campanha eleitoral, o candidato que faltava para nos lembrar de que sob as borbulhas superficiais que chamamos política jaz o leito duro do trabalho cotidiano e das obras anônimas. Aquilo que o historiador Fernand Braudel, matutando num campo de prisioneiros da 2.ª Guerra, batizou de “história imóvel”. É aquela que não dá notícia. Mas também molda o futuro.
Principalmente quando conta com a obstinação dessa gente vinda da lavoura. Elza colheu algodão no Paraná até os 17 anos. Germano entregava leite de porta em porta e puxava enxada quando resolveu, aos 11 anos, ser “pesquisador”. Estudando só em escolas públicas, chegou ao doutorado na Universidade de Campinas com uma tese sobre o comportamento do átomo de cálcio congelado sob raio laser e ao emprego no laboratório de fotônica do Centro Técnico Aeroespacial de São José dos Campos.
Desde então, ele poupa salários para comprar matas na serra de Santa Catarina. Quer preservar imagens de infância ameaçadas de sobreviver só em sua lembrança.
Criou, com isso, três reservas na região. Milhares de alunos das escolas locais costumam visitá-las todos os anos, para conhecer a terra em que quase não nasceram. ?
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