Copenhague a Angra: os assassinatos do des-governo PDF Imprimir E-mail
04/01/2010, 11:12

Bombeiros resgatam vítima em Angra
dos Reis.
Foto: Roosevelt Pinheiro/ABr
Augusto Carneiro é um dos mais importantes ativistas ambientais brasileiros nas últimas quatro décadas, tendo ajudado a formar gerações de cidadãos conscientes no sul do país com seu trabalho de formiga. Do alto de seus 86 anos, Carneiro costuma repetir um vaticínio que o dia-a-dia de Pindorama confirma com trágica freqüência: os desastres ambientais só serão considerados como tal quando matarem 3.000 ou 5.000 pessoas de cada vez. Quando matam dezenas de uma vez, ainda assim as milhares de vítimas cumulativas são espalhadas no espaço e no tempo, as “otoridade” se fazem de loucas e as pessoas fingem que não vêem, creditando o morticínio a “Deus sê ruim com nóis” ou a “fatalidades” inevitáveis.

O recente massacre das chuvas do Sudeste, que veio somar-se a todos os outros nos últimos anos que assistimos impassíveis em nossas televisões (bote no lixo a de tubo e compre a de plasma, pra ajudar a economia consumista kamikaze de Lullão Metralha!) é apenas mais um capítulo dessa tragédia dispersa, mas que aponta em suas causas para os mesmos incompetentes, safados e omissos de sempre: os nossos (des)governantes, que parecem ser capazes de unir sua gana por devastação ambiental com a demagogia eleitoreira para produzir esse verdadeiro genocídio a que, cada vez mais, vamos assistir em nosso país como se fatalidade inevitável fosse.

Como tudo, a barbaridade começa no nível mais baixo (em vários sentidos) da administração pública, os prefeitelhos que se sucedem pelo país afora permitindo, em cada rincão, mas principalmente nas várzeas inundáveis e nas encostas instáveis, que se instalem comunidades inteiras cujo destino é sabido: inundação ou deslizamento, mais cedo ou mais tarde, maior ou menor, mas que cada vez mais trarão mortes e danos irreparáveis, isso sem considerar o custo astronômico ao erário público de resgatar, abrigar, reparar. Há décadas sabe-se que tais locais não podem ser ocupados, mas o que é a opinião de especialistas e a experiência de anos de desastres idênticos frente à necessidade de amealhar aqueles seis ou sete votos que se encarapitam embaixo de cada barraco, de cada laje ilegal levantada num morro? Nunca! Para piorar ainda mais o quadro, impermeabilizam toda a malha viária urbana com “coberturas de bolo” de asfalto em trechos antes pavimentados com blocos ou paralelepípedos, que serviam perfeitamente à circulação de veículos e antes absorviam parte da água nas enxurradas. E pior, atolam o meio urbano nesse esquema mafioso de desurbanismo sob aplausos do populacho ignaro, que esquece tanto das implicações ambientais como de que daqui a seis meses estará tudo esburacado, exigindo nova obra e seus regulares jabás…

Político não sabe o que é longo prazo, muito menos área de risco – seu único risco é não se reeleger para qualquer coisa dentro de quatro anos, e nesse sentido Suas Indecências ganham em dobro com as tragédias – permitindo por omissão criminosa a ocupação de áreas inadequadas e depois distribuindo esmolinhas, colchões, arroz, às vítimas como se bondade de seu (des)governo fosse. A lógica dessa quadrilha que nos (des)governa é perversa, porém muito clara, e só não vê quem não quer.

A safadeza política sobe, sempre, do Município para o Estado, e não é por acaso que Sérgio Cabral, no mesmo Rio de Janeiro de tanta desgraça ambiental pela ocupação irregular do território, contribua pessoalmente para o aumento da bandalheira e dos riscos ao emitir Decreto ilegal autorizando o AUMENTO da ocupação e das construções em áreas de fragilidade ambiental na Baía da Ilha Grande, no interior da Área de Proteção Ambiental de Tamoios. Trata-se da mais absurda irresponsabilidade de um (des)governante que sabe muito bem das consequências de suas ações para a biodiversidade E para as pessoas, mas que prefere o votinho da demagogia fácil à responsabilidade da gestão pública esclarecida.

No topo da escada da quadrilha do (des)governo que mata está, entronizado e quase absolvido pela sua ignorância absoluta dos temas de gestão pública, ninguém menos do que Lullão Metralha e a verdadeira gestora do país, sua Candidata Plástica Roussef (essa que sabe muito bem o que se passa, mas seu script de Mãe dos Pobres e defensora da lajezinha no morro não comporta governar o país com consciência ambiental). Pois, dirá a patrulhucha petista, como pode se acusar esses salvadores do pobrerio de crime nas tragédias pluviais do Sudeste?

Ora, o escândalo da propaganda diversionista brasileira em Copenhague é auto-evidente em condenar nosso (des)governo por se esconder atrás dos tropeços de Obama para continuar vomitando gases-estufa (o carbono de Eike Batista e o metano de Kátia Abreu, um, lambe-botas do Planalto em busca de benesses do BNDES, outra ‘oposição’ lambida pelo mesmo Planalto para estuprar o Código Florestal sob a pata dos gasosos vacuns e das monoculturas de “biocombustíveis” contaminantes). O aumento das emissões do qual somos cúmplices explícitos pode ter várias implicações ainda sob discussão, mas uma delas é imediata e provada: o aumento da umidade em circulação na atmosfera e das tempestades e eventos climáticos extremos, como os que, de forma cada vez mais frequente, atingirão partes do território brasileiro, deixando um rastro de morte, destruição e desculpinhas furadas dos (des)governantes sobre a “fatalidade”, quando na verdade trata-se de um crime de longo prazo assumido e planejado pelas nossas “otoridades” e seus acólitos empresariais que nos afundam nesse modelo de “desenvolvimento” suicida.

Enquanto a mídia tupiniquim se embasbacava com os discursinhos terceiro-mundistas da imensa e inútil delegação brasileira à fracassada reunião, aqui seguiam as medidas para entupir a matriz energética brasileira de termelétricas por décadas no futuro, enganar o populi rafus com propaganda de inspiração nacional-socialista baseada no poluentíssimo petróleo do Pré-Sal, manter os buracos legais que permitem a continuidade da destruição das florestas nativas, e dar mais poder aos prefeitelhos para fazer a “gestão ambiental”  cujos resultados estamos começando a contar não mais em licenças mal expedidas, mas em corpos de vítimas. Ao mesmo tempo, joga-se mais propaganda mentirosa para a platéia de ignaros ao aprovar uma lei climática cujas metas são “voluntárias” e onde as medidas mais importantes, incluindo a substituição gradativa dos combustíveis fósseis, foram vetadas pelo Einstein de Garanhuns a mando da Candidata Bruxa do Clima.

As vítimas do imperdoável crime de lesa-humanidade que o (des)governo brasileiro perpetra, ao dar asas livres à continuidade do crescimento de nossas emissões de carbono e metano no presente visível enquanto mente que reduzirá emissões no futuro, não atinge apenas o turismo e os moradores mais pobres das urbes malcuidadas como Angra dos Reis e similares. Trará consequências gravíssimas para países inteiros, como as Maldivas, que afundarão vítimas da megalomania de curto prazo de “líderes mundiais” de araque como nosso Stalin em compota, cujo atraque contra a natureza brasileira escorre pelos níveis inferiores de governo até chegar à lama que escorre da Ilha Grande, como se viesse de um currículo de deputado.

Não se consegue que as pessoas se mobilizem em defesa da Natureza, drogadas que estão pelo ópio do consumismo de balangandãs eletrônicos ou carros de entupir ruas. Será possível acordá-las para o assassinato em massa, porém ao longo de anos, que as políticas de destruição ambiental estão causando no Brasil? Duvido. Mas fica o registro: nem todos somos bobos ou esquecidos, ainda que a massa de idiotas votantes continue sendo suficiente para eleger os mesmos criminosos, ano após ano, que continuam matando gente ora estragando Angra, ora matando Copenhague.
Comentários
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Falou e disse tudo!
Zé Brasil 04/01/2010 14:21:19

Como sempre, Seu Truda com a razão (mesmo quando "fala" pelo
coração). Falou e disse:TRUDO!
Angra veio para lembrar Blumenau e a Bunge e Yara
Jorge Albuquerque 04/01/2010 15:23:38

Engraçado isso tudo, as fatalidades se acumulam. Mesmo assim a Bunge do Planeta
Sustentável continua me agilizando para licenciar sua fatidica fosfateira em
plenas nascentes do rio Braço do Norte. Somando agora um fato novo: A IFC da
Bunge e Yara anelaram diversas arvores no Rio do Pinheiro condenando-as a uma
lenta morte em uma época onde milhares plantam árvores. Qual seria a
intenção dessa participante do Planeta Sustentável em anelar árvores em
plenas nascentes do Braço do Norte, rio de aguas com grande qualidade e de
beleza impar? Uma fosfateira dessas bombando nas encostas ingremes da Serra do
Rio Pinheiro, associada as duas barragens de 80 metros de altura, apos chuvas
como essas, certamente causaria uma catastrofe sem precedente. Seria positivo se
o principio da precaução continuasse vingando no judiciario Federal mantendo a
Liminar da Montanha Viva contra essa fosfateira em Anitapolis.
Eco demagogia
Gerhard Sardo 04/01/2010 15:54:21

Pois é, e ainda tem gente aí que acredita na "política
socioambiental" do atual governador bajulador do Lulla. Por onde tem andado
o ministro Minc?
isabel 04/01/2010 16:18:53

Olha pessoal! É um absurdo tudo que vemos e ouvimos neste país! Apesar de ter
ido para um dos lugares mais bonitos deste Rio Grande neste final de ano, não
pude deixar de ver um outro absurdo do poder que o dinheiro tem sobre estes
políticos brasileiros! Pinheirais exóticos em terras onde o ecossistema tenta
se manter incólume à ação daqueles que pouco se importam com ele!
detuiçao
andrea dantas camargo 04/01/2010 16:23:12

Podemos esta colocado que min de culpa da natureza esta fazendo isso , o que
precisamos está sempre alerto O brigada andrea .
Mudança já!
Patricia 04/01/2010 16:29:19

É revoltante. É muita coisa errada. Sabemos todos de tudo. Mas, e aí, o que
fazer? Vamos mudar esse cenário, pelo amor de Deus.
Falou e disse truda!
Paulo Ramos 04/01/2010 17:29:28

Infelizmente o truda está certo. Temos em nosso país bandidos governando e
legislando e também uma grande parte do judiciário.

Onde a justiça se
corrompe e não funciona. Não pune. A coisa chega ao ponto em que
chegou.

Sabemos que o Judiciário serve aos interesses do capital, assim como o
executivo e o legislativo.

Os caminhos para mudar toda esta sujeira passará
sem dúvidas por muito sofrimento, como estas catástofres que estão vitimando
muitas famílias brasileiras.

E para finalizar o truda colocou muito bem. os
maiores culpados são os (des)governantes e a população que elege estes
bandidos e deixa rolar solto - Os culpados somos todos nós!
SEM MEDO DE SER FELIZ!
Carlos Henrique Sampaio 04/01/2010 20:39:00

Demonstração de coragem Truda nada de bajular nossos governantes eles assaltam
cargas cobra propina e tem o controle do estado para fazer isso que vc. escreveu
sem medo de ser feliz tem jornalista que saiu daqui pra compenhague observar
aplausos para o governo LULA e aplausos para o governo Obama me poupe desses
desvios de função valew mesmo feliz 2010 para todos!
Pense antes de votar!!
Leonardo Araujo 05/01/2010 06:33:54

O povo brasileiro precisa ter mais sabedoria ao escolher os representates no
governo! Ou melhor os (des) governantes. Afinal eles so estão preocupados em
encher o bolso de dinheiro!!

Vamos votar consciente!!!
A irresponsabilidade humana...
André Luiz Monteiro - 05/01/20 05/01/2010 07:45:06

Todos nos sabemos que uma boa parte da população que se sujeita a residir em
encostas ou ate fazer pousadas em lugares de risco, são cidadãos sem cultura e
nem tão pouco tem educação, porém as prefeituras junto com seu vereadores
que nada fazem e nem para fiscalizar servem eé que deveriam fiscalizar e não
deixar que absurdos como esse que aconteceu em Angra possam acontecer. Os
maiores fiscalizadores públicos são os vereadores e a eles eu denomino toda a
responsabilidade por essas tragédias. Toda a população que sofreram prejuizos
deveriam sem dúvidas cobrar os vereadores o ressarcimento de seus prejuizos,
pois eles só servem para pedir votos em épocas de eleições e colocar
famílias em lugares de risco por um punhado de votos. Nas próximas eleições
denuncie esses políticos que além de negligênciar os leitores por votos
colocam famílias em áreas de risco. As prefeituras não deveriam colocar os
desabrigados em suas escolas prejudicando muitas vezes as aulas dos alunos que
as utilizam, e sim colocar os desabrigados nas casas dos vereadores que as
colocaram nas áreas de risco, vocês não acham que é nada mais justo?
Aí tem um risco...
Zé Brasil 05/01/2010 14:10:21

Se aceitarmos a solução do André Luiz Monteiro vamos correr o risco de nas
próximas eleições os vereadores dizerem que são os bam-bam-bans porque
"eles abrigaram cristãmente os desabrigados da terrível chuva em suas
residências num ato da mais pura solidariedade". Essa turma não tem jeito!
A bola da vez...
Marlus Araujo 05/01/2010 17:51:50

Vamos aproveitar para discutir a especulação imobiliária na restinga de
Maricá. Os projetos de resorts e condomínios são um perigo pra manutenção
do ecossistema local, principalmente por se tratar de uma restinga. A vida de
algumas plantas, por exemplo, só é possível com o trabalho de pássaros
endêmicos específicos.

Existem certas espécies de plantas em que a passagem
da semente se faz obrigatória no aparelho digestivo de determinadas espécies
de aves, pois somente assim a dormência desta semente será quebrada, e ela
estará em condições de germinar ao chegar ao solo.

Muitos utilizam
erroneamente a teoria de Darwin, afirmando que só os mais forte sobrevivem,
usando isso como desculpa pra todo erro cometido, para o fracasso em preservar.
O mesmo que virar pra natureza e dizer "que se adapte quem merecer!"

O
ecossitema não é uma coisa, que ocupa espaço. Ele é um acontecimento, se
aperfeiçoa através do tempo. Muito se sabe da fragilidade em que ele opera.


Eu vejo essa fragilidade como uma boa fragrância, um equilíbrio e uma
harmonia difícil de se criar. Mas o cheiro da destruição e do progresso,
ditado pela economia dos poderosos, é entorpecedor, pesado e de um fedor que se
nota a distância. Fedor que provavelmente, solto na atmosfera, causa
aquecimento global, o tão falado.

Agora, para todos que querem ser práticos,
vamos deixar de falar de vida e bichinhos, falar de coisas que todos entendem.
Estoque, fornecedor, investimento, um vocabulário apropriado para o mundo dos
negócios.

A restinga de Maricá - acusada de ser um lugar abandonado onde se
desovam carros, tida como área propícia a favelização, onde uma construção
de luxo seria uma garantia e benção pra todo município - além de inocente,
é vítima a ignorância que a culpa por nossa política mal feita e
preconceitos mais mesquinhos. A verdade é que ela possui reservas de bancos de
areia que abastece a costa do Rio de Janeiro. Sua degradação pode ser vista
como impacto não só para sua natureza local, mas pra todo o Estado. É um bom
investimento por em risco esse importante fornecedor de areia pra todo litoral?
Ô Truda, deixa as bruxas, vai...
Marcio De Souza 06/01/2010 07:49:06

Candidata Plástica tá ótimo (deixe as bruxinhas do amor em paz, ok?). O que
falam da gente no exterior é brincadeira: "brasileiro é burro mesmo,
constrói casa na encosta" (essa ouvi em Punta del Diablo de um pescador
uruguayo sobre a tragédia de SC no natal de 2008). Fazer o que: há décadas as
pessoas morrem nos deslizamentos dos morros pelo país afora. É trágico, mas
somos um povo burro mesmo, certo?
Enquanto isso...
Leandro Caetano 06/01/2010 08:47:17

“Brasil não pode se tornar refém de ambientalistas (...) o Brasil não pode
ficar refém dos humores do Meio Ambiente. Caso contrário, vai enfrentar
dificuldades no futuro na área energética.”

Veja a matéria
completa:
http://noticias.ambientebrasil.com.br/n oticia/?id=50983
AS LIÇÕES QUE NÃO APRENDEMOS
Darci Bergmann 06/01/2010 12:28:47

José Truda Palazzo Jr. mostra inconformidade com os descasos das autoridades
com relação aos desastres ambientais. Os problemas se repetem, como agora no
Sudeste e no Rio Grande do Sul. Em novembro de 2008 foi em Santa Catarina e em
dezembro daquele ano escrevi um artigo que é atual na interpretação das
causas e consequências da desastrada ocupação dos nossos espaços rurais e
urbanos:
LIÇÕES DE SANTA CATARINA
As enchentes de Novembro de 2008 no
Vale do Itajaí, em Santa Catarina, causaram comoção. As muitas vítimas
fatais e os impactos sobre a economia merecem ampla análise. Opiniões à
parte, desde a enchente de 1983, entidades ambientalistas propunham medidas
preventivas às autoridades e à população em geral. Entidades, como a
APREMAVI, de Rio do Sul e a Fundação Água Viva promoveram simpósios,
encaminharam ações judiciais contra empresas poluidoras e cobraram ações das
autoridades para deter a derrocada ambiental. Pressentindo uma nova tragédia,
as ONGs partiram para ações práticas de reflorestamento, educação ambiental
e o que fosse possível para evitar uma nova tragédia. Na obra Manejo Ambiental
em Bacia Hidrográfica, de 1993, página 7, os autores Christian Guy Caubet e
Beate Frank afirmam: Porém as enchentes são o mais grave problema do Vale do
Itajaí. Problemática histórica, ela é hoje agravada pelas agressões
ambientais observadas na região, como desmatamento, a ocupação desordenada
das encostas, o crescente processo de erosão e o assoreamento das calhas dos
rios ..... Mais recentemente, a proibição de exploração florestal na Mata
Atlântica (Decreto presidencial nº 99.547, de 25/09/1990) veio lembrar,
acertadamente, que o desflorestamento indiscriminado é uma das atividades
econômicas mais importantes e que ela se efetua a montante das áreas que
costumam ser inundadas. No plano regional, as violentas reações empresariais
contra o decreto 99.547, simplesmente confirmaram que a economia madeireira
teima em ignorar os requisitos básicos de uma exploração racional da
floresta. Em outros trechos os autores falam que a extração irregular de
madeira continuou, a despeito do decreto. As toras eram transportadas à noite.
Elas provinham de cortes de espécies nobres como a canela sassafrás e outras.
Os tocos levaram anos para se decompor e as pequenas clareiras nos morros
cicatrizaram aparentemente com outras espécies ocupando os seus espaços. Mas
bastariam chuvas mais intensas para que as encostas broqueadas mostrassem a sua
fragilidade. As árvores antigas mantinham uma trama de raízes entrelaçadas e
dificultavam o deslizamento. Agora essa trama estava decomposta e facilitou a
desagregação do solo. O presidente Lula, ao sobrevoar a região, mostrou-se
impressionado com o fato de que morros cobertos de mato terem sofrido tamanho
deslizamento. O presidente desconhecia que a ação humana já tinha causado
grande estrago na região. A Natureza tem mecanismos complexos que a
racionalidade humana ignora. Quantas vezes ambientalistas são hostilizados pela
opinião pública manipulada pelo discurso do progresso e geração de empregos.
A própria FATMA, equivalente catarinense da FEPAM, fazia vistas grossas aos
problemas ambientais como chegou a ser denunciado no Tribunal da Água – Casos
e Descasos, publicado em 1994, pela Fundação Água Viva.
As áreas
de preservação permanente – APP são de extrema importância para manter
pelo menos parte do equilíbrio ambiental. Agora, discute-se a reserva legal,
já prevista desde 1965, pela lei federal nº 4.771. O decreto que dava prazo
curto para a implantação e multas altas era draconiano. Mas a pretensão de
alguns em suprimi-la é um passaporte para a degradação ambiental. A reserva
legal e as APP, se implantadas com apoio do governo, inclusive com remuneração
pelos serviços ambientais que elas geram, são fundamentais à produção
sustentável. Desde a preservação dos mananciais de água, conservação do
solo, prevenção às enchentes, retenção de carbono, corredores ecológicos,
etc. Prevenir ainda é o melhor remédio. Aprendamos com as lições de Santa
Catarina. (Darci Bergmann, engenheiro agrônomo e presidente da
ASPAN-Associação São Borjense de Proteção ao Ambiente Natural).
Acrescento
ainda que as áreas de reserva legal e de preservação permanente não retiram
terras da agricultura para a produção de alimentos como apregoam alguns
políticos. Na verdade, grande parte das terras do agronegócio é para
produção de produtos supérfluos e prejudiciais à saúde, como é o caso do
tabaco. Agora, quando se discute a reformulação do Código Florestal, nossos
políticos deveriam pensar seriamente sobre o tema e não pelos seus interesses
imediatistas.
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