Ele é o único servidor com curso superior lotado na unidade de conservação. Analista ambiental, biólogo, ornitólogo por paixão, conseguiu conciliar durante dois anos e meio as tarefas burocráticas do serviço público com religiosas caminhadas mensais para identificação de aves na Estação Ecológica Serra das Araras (MT). Três trilhas por mês, quatro horas por dia em cada uma delas e 348 espécies registradas, mais do que um terço de todas aves conhecidas no Cerrado.

A dedicação de Rafael Martins Valadão o motivou a inscrever seu trabalho no Congresso Brasileiro de Ornitologia deste ano, realizado em junho em Palmas (TO). Preparou banner, fez resumo, pagou a inscrição do próprio bolso, mas não foi. O Instituto Chico Mendes não liberou o pagamento de diárias e passagem para o congresso. “Disseram que a pesquisa científica realizada por analistas ambientais não era prioridade na estação ecológica”, lamenta o biólogo. “E então, o que é prioridade?”, perguntaram repórteres de O Eco que conheceram em meados de setembro a Serra das Araras. “Fazer reuniões, apagar incêndio”, ele respondeu.

Reza a cartilha do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) que as estações ecológicas são áreas de proteção integral onde só é permitida a visitação para estritos fins de pesquisa científica e educação ambiental. Se o governo federal não vem valorizando a produção de seus próprios servidores, pelo menos tem conseguido receber dezenas de turmas de estudantes de diversas áreas do conhecimento ávidas para analisar os 28,7 mil hectares de serras revestidas com todas as fitofisionomias de Cerrado nas bordas do Pantanal.

Pelas contas de Valadão, nos últimos dois anos e meio, a Serra recebeu mais de 40 grupos. Mas aí vem outra contradição da gestão pública. Tantas pesquisas ao longo de 26 anos de existência da unidade de conservação e ela ainda não tem nem rascunho de um plano de manejo. “Todo ano falam que vão fazer, que vão arrumar recursos, mas até hoje não conseguiram”, conta o chefe da estação ecológica, Vanílio Marques. Faltam em especial estudos focados nas áreas de invertebrados, peixes e anfíbios. Felizmente, graças aos esforços pessoais de Valadão, a unidade tem incrementado seu conhecimento sobre as aves da Serra das Araras. No total, 377 espécies são conhecidas na área. O Eco selecionou imagens e cantos indicados por Valadão, e juntou a elas fotografias da fauna e da flora local para contar mais histórias sobre a Serra das Araras.




Beija-flor e plantas: um caso de amor
Equipe de universidade na Bahia escreve artigo sobre os beija-flores da Chapada Diamantina e suas interações com as plantas da região. A conclusão é simples: um não vive sem o outro.

Da Amazônia para o seu iPod
Projeto do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) grava e organiza em CDs cantos das aves amazônicas. Coletânea pretende abranger todas as espécies conhecidas na região.

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