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| E o Brasil descobre sua fauna alada |
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| Felipe Lobo | |
| 03 Out 2008, 16:39 | |
![]() Nesse domingo (5), os cidadãos da pátria tupiniquim vão cumprir um dever cívico: votarão nas eleições municipais. A data, no entanto, também será marcada pelo lançamento da sétima Lista de Aves do Brasil, organizada pelo Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CRBO). Agora, o país pode se gabar de possuir a segunda maior biodiversidade de pássaros do mundo, atrás apenas da Colômbia. No dia em que muitos prefeitos e vereadores receberão quatro anos para trabalhar em benefício do povo e da natureza, será anunciado que por estas terras voam 1.822 espécies, vinte e duas a mais do que informava a relação do ano passado. Braço da Sociedade Brasileira de Ornitologia, o comitê tem uma rede de 40 profissionais espalhados por todo o país e no Exterior. Desde 1981, o grupo é responsável por analisar o volume de aves que circulam em território nacional, mas apenas a partir de 2005 a relação passou a ser anual. Para isso, usam todos os dados e artigos científicos sobre os pássaros brasileiros publicados em revistas especializadas, de todo o Planeta. O resultado é gratificante: desde que o trabalho começou, o número de espécies conhecidas cresceu cerca de 14%. “É uma relação direta com o maior volume de pesquisadores andando nas fronteiras do Brasil, identificando aves conhecidas em outros países, por exemplo”, diz José Fernando Pacheco, diretor do CRBO. Além da abundância de pesquisadores, os ornitólogos responsáveis pela lista acreditam que há, basicamente, três motivos por trás desse crescimento: aves de fato descobertas pela ciência; animais redescobertos; ou antes considerados sub-espécies que subiram de status. O caso mais emblemático do trabalho, segundo Alexandre Aleixo, atende pelo nome de pica-pau-do-parnaíba (Celeus obrieni). “Até o fim de 2006, só era conhecido um único exemplar, coletado no começo do Século 20 no sertão do Piauí. Ninguém o havia observado em vida, sabia como ele cantava ou em que tipo de ambiente morava. Chegamos a ficar em dúvida se era um híbrido ou se já estava extinto”, explica o curador da Coleção Ornitológica do Museu Paraense Emílio Goeldi. Mas, no final daquele ano, a ave foi avistada no Tocantins e, a partir de informações sobre sua vocalização e ecologia, algumas populações foram encontradas em outros estados, como no Maranhão. “Para se ter uma idéia, essa espécie nem entrou na última lista da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) de espécies ameaçadas de extinção. Já tinham desistido dela”, conta Aleixo, que também é um dos organizadores do catálogo de aves brasileiras. Apesar de não saberem exatamente o número de indivíduos do pica-pau-do-parnaíba, as chances de que ele esteja vulnerável são grandes. “Em apenas dois anos, conseguimos mais dados sobre o bicho do que em 80 anos. Mas, agora que a UICN está revisando sua relação de aves em perigo, ele é um candidato forte a entrar na relação”, completa. Variações ameaçadas Apesar do exemplo do pica-pau nordestino, o maior aliado ao descobrimento de novas espécies de aves no Brasil, explica Aleixo, é o incremento nas ferramentas utilizadas para avaliar os bichos. Se, anos atrás, o principal mecanismo para investigar um tipo de pássaro era a morfologia, agora os biólogos contam com aparelhos digitais para gravar os cantos, a genética e a biologia molecular. “São instrumentos importantes, pois revelam outros aspectos do processo de formação das espécies”, diz o pesquisador. Os resultados obtidos com a tecnologia são visíveis. A maioria das aves descobertas entre 2007 e 2008 já era conhecida da Ciência, mas como sub-espécies. Ou seja, pássaros que antes eram considerados pequenas variações genéticas de outros grupos subiram de categoria graças a estudos mais elaborados que comprovaram sua independência evolutiva. É o caso, por exemplo, do antigo papa-formiga-cantador (Hypocnemis cantador), animal endêmico da Amazônia que, na verdade, tem seis parentes. “Um cálculo feito para a Amazônia produzido nos últimos anos mostrou que, em média, para cada ave estudada, três novas e muito semelhantes são descobertas”, afirma Aleixo. Segundo Pacheco, diretor do CRBO, não há como dizer qual região do Brasil forneceu mais novidades. Apenas é possível afirmar que as áreas de floresta, como a Mata Atlântica e a Amazônia, têm maior possibilidade de apresentar bichos singulares do que o Cerrado. “Mas a verdade é que as espécies aparecem quando um grupo é estudado, independente da localização geográfica. O gênero Scytalopus, que vive na Mata Atlântica, basicamente, dobrou o seu número de espécies em cinco anos. Graças ao conjunto de pesquisadores fazendo teses e dedicados ao grupo”, explicou. De acordo com a UICN, 219 aves no Brasil têm algum risco de desaparecer. Ainda é cedo para dizer que o acréscimo desta relação será proporcional ao incremento na biodiversidade, mas tudo leva a crer que sim. Segundo o curador do Museu Goeldi, é comum que as antigas sub-espécies tenham uma distribuição geográfica muito pequena, fato que gera vulnerabilidade imediata. De toda forma, a comunidade científica está espantada com o volume destas aparições – o que certamente determinará um conjunto cada vez maior de aves catalogadas pelos ornitólogos. Futuro promissor Das 1.822 aves brasileiras, 232 são endêmicas do país, ou seja, não podem ser vistas em nenhum outro lugar do globo. Ainda assim, Aleixo considera o conhecimento do tema muito incipiente por aqui. “Comparativamente, é possível que tenhamos boas noções sobre os pássaros em relação ao que sabemos acerca de plantas e outros animais. Mas mesmo este selo é imperfeito”, diz. Em sua visão, é necessário investir forte em taxonomia – que é a ciência da identificação – e encará-la como estratégia de conservação. “É possível que estudos taxonômicos revelem que você tem mais de uma espécie de onça e de arara-azul, por exemplo. E isso fará uma diferença enorme para quem trabalha no campo, com sua preservação direta. É ela que define a base de uma coisa que se chama espécie”, relata. “O problema é que, no mundo inteiro, os conceitos de taxonomia e conservação ainda caminham separados”, finaliza. Confiantes no sucesso da lista e dos estudos, Aleixo e Pacheco confiam que os futuros catálogos feitos pelo CRBO crescerão de forma aritmética. Linhas de financiamento feitas por mecanismos públicos ou por grandes entidades sem fins lucrativos são apontadas como um caminho seguro, assim como oferecimento de novas bolsas de pós-graduação para quem deseja se especializar na área. Afinal, como o movimento das asas dos pássaros, o dinamismo da Ciência é impressionante: depois da confecção da lista de 2008, novas descobertas já foram publicadas em revistas internacionais. Novidades à vista para o ano que vem. A nova listagem será publicada aqui. |











