Lista de ameaçadas: excesso ou omissão? PDF Imprimir E-mail
Cristiane Prizibisczki   
03/09/2008, 08:00


No último dia 11, a bióloga Karina Groch ficou indignada ao ler os jornais: a União Mundial para a Conservação da Natureza (IUCN) acabava de anunciar que as baleias jubarte (Megaptera novaeangliae) e franca austral (Eubalaena australis) não eram mais consideradas vulneráveis na escala de extinção. Coordenadora de um dos principais projetos de preservação de cetáceos do Brasil, o Projeto Baleia Franca, Karina não gostou da notícia. Para ela, o fato de terem crescido as populações da espécie não justificava a mudança no status, já que, atualmente, a estimativa é de que haja somente 8 mil indivíduos, menos de 10% do número que se supõe que um dia existiu.

“Não fomos nem consultados [...] não sabíamos que a lista estava sendo revista”, afirma a bióloga, que diz desconhecer os critérios usados pela União para retirar as espécies da lista vermelha. Isso porque o Projeto nunca chegou a se basear nos métodos da IUCN. Ele possui critérios próprios de avaliação da vulnerabilidade da espécie e continuará a considerar a baleia franca como estando ameaçada.


Quem também anda descontente com a IUCN é o ornitólogo catarinense Jorge Albuquerque, que questiona a ausência das aves de rapina de grande porte na lista, como o gavião real (Harpia harpyja) que deixou de ter o status de ameaçada em 2003, o gavião-falso (Morphnus guianensis), gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus) e o falcão-de-peito-laranja (Falco deiroleucus), por exemplo. Para ele, a lista deveria ser bem maior.

Critérios objetivos

Provavelmente muitos são os casos de biólogos descontentes com a lista da IUCN ou mesmo aqueles que nem a levam em consideração para determinar o grau de vulnerabilidade de uma espécie, como é o caso do Projeto Baleia Franca. Mas quais são, afinal, os critérios usados pela União Mundial para a Conservação da Natureza para inserir ou retirar uma espécie de sua “red list”?

Durante quase 30 anos e até 1994, a IUCN empregou, com alguma modificação, categorias subjetivas de espécies ameaçadas em suas listas vermelhas. A fase atual de desenvolvimento dos critérios começou em 1989, com a meta de dar às categorias enfoque mais objetivo. A versão que a UICN usa atualmente é a 3.1, de 2001, resultado da revisão e lapidação de outras seis listas.

De maneira simplificada, uma espécie é considerada “extinta” quando prospecções exaustivas de seus habitats, conhecidos e/ou esperados, nos momentos apropriados (diários, estacionais, anuais), e ao largo de sua área de distribuição histórica, não foi possível detectar um só indivíduo. Ela é considerada “extinta na natureza” quando “sobrevivem como populações naturalizadas completamente fora de sua distribuição original”.

Para as classificações “perigo crítico”, “em perigo” e “vulnerável”, são usados cinco critérios principais, divididos em outros subcritérios, como redução da população, tamanho da população adulta, distribuição geográfica – pequenas áreas de ocupação ou distribuição muito fragmentada, por exemplo – e quando uma análise quantitativa mostra que a há probabilidade de extinção em estado silvestre dentro de determinado tempo.

Até aí, tudo certo. O problema são as incertezas da lista – um dos itens constantes na documentação da IUCN, inclusive. Os erros de medição,  segundo o documento, são a maior fonte de incertezas. Em um país de dimensões continentais e onde há escassez de informações sobre várias espécies, errar nas medições pode ser fatal para muitas delas.  

Para as aves de rapina, segundo Jorge Albuquerque, este é justamente o calcanhar de aquiles da lista. O biólogo lembra que há poucos levantamentos destas espécies no Brasil e que, nesses casos, a IUCN considera como critério a disponibilidade de habitat. As aves de rapina precisam de grandes áreas para sobreviver. O gavião pega-macaco, por exemplo, necessita de uma área contínua de 10 mil hectares, situação rara para a maior parte dos fragmentos de vegetação de Santa Catarina, Paraná e São Paulo. No entanto, como o Brasil possui grandes áreas florestais, como a Amazônia, a IUCN considera que há habitat suficiente para a manutenção das populações destas aves.

 “Eles aceitam que as aves de rapina possam ser extirpadas na Mata Atlântica pelo fato de elas serem salvas na Amazônia”, reclama o ornitólogo. “Para dizer se está ou não ameaçada, tem que ter trabalho de campo. Não dá para pegar o mapa, pegar imagens de satélite e dizer: 'se tem área florestal, então não está ameaçada'”. Segundo ele, este critério tem feito com que várias micro-extinções sejam negligenciadas pelos tomadores de decisões, que poderiam implementar medidas de conservação locais.

“Mentir” a favor da conservação

Diante do fato de que muitas espécies entram ou saem da lista da IUCN a partir de uma prospecção de populações baseada em disponibilidade de habitat, Jorge acredita que, em termos de conservação, é mais vantajoso manter espécies na lista do que tirá-la. “É melhor pecar por excesso do que por omissão. Se vamos 'mentir', que mintamos a favor do bicho, a favor da conservação”, defende Albuquerque.

Apesar da visão pra lá de conservacionista do ornitólogo, suas idéias não são compartilhadas por alguns biólogos brasileiros. Para Adriano Paglia, analista em Biodiversidade da ONG Conservation Internacional – umas das entidades que ajudou a elaborar a lista brasileira -, a função da lista da IUCN é avaliar a vulnerabilidade das espécies do Brasil como um todo. Para as situações regionais, ele lembra que existem as listas estaduais de espécies ameaçadas. “Elas também são reconhecidas como instrumentos de políticas públicas”, diz. Atualmente, possuem listas consolidadas ou estão em etapa de aprovação, os estados de Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul e Pará.

Para Adriano Paglia, os critérios usados pela IUCN são o que de melhor se teve até agora, inclusive em relação às adaptações à realidade brasileira. Um exemplo disso é o intercâmbio entre os países que comungam do habitat de alguma espécie, como é o caso da fauna amazônica. “Não acho que seja adequado inchar a lista, porque o problema disso é que podemos gastar munição com espécies que não estão realmente ameaçadas”, diz o analista, referindo-se à sugestão de Albuquerque de “pecar pelo excesso”.

Quem também concorda com o Paglia é o organizador da lista vermelha de aves brasileiras do Instituto Chico Mendes, Leonardo Vianna Mohr. Segundo ele, inserir espécies que não se tem certeza que estão realmente ameaçadas é “dar um tiro no pé”. “Se fizermos isso, a lista acaba perdendo sua credibilidade”, diz. Em relação à retirada do gavião real da lista,  Mohr diz que várias discussões foram feitas em relação ao declínio da espécie e que há novos registros surgindo, por isso a decisão.

De acordo com ele, a saída para aqueles que discordam dos critérios da lista da IUCN ou nem a utilizam – como é o caso do Projeto Baleia Franca – é assumir uma postura mais ativa junto aos órgão de tomada de decisão. “Quem critica, que proponha então novos critérios”, diz o biólogo. Um exemplo da falta de participação da comunidade científica na elaboração da lista, segundo Mohr, foi a chamada feita pelo ICMBio há cerca de dois meses. “Recebemos menos de 30 respostas”, reclama.

Para tentar apaziguar os ânimos dos descontentes e estabelecer maior interação entre pesquisadores e órgãos governamentais em relação às listas vermelhas, o ICMBio pretende abrir, nos próximos meses, uma ferramenta em seu site para que biólogos façam suas sugestões. Ainda não há data para que o novo sistema entre no ar – a desculpa é sempre a de que o ICMBio ainda está se estruturando -, mas é melhor os técnicos do Instituto correrem. A nova revisão da lista oficial brasileira está prevista para início de 2009. “Provavelmente março”, diz a assessoria do órgão.
Comentários
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Apesar de ?
Ellen 04/09/2008 11:30:33

Não vejo sentido na frase "Apesar da visão pra lá de conservacionista do
ornitólogo" Se formos menos conservacionistas num cenário de extinções
em massa como o atual, não há sentido em trabalhar a favor dos animais.
Trabalhemos em favor dos animais humanos então. Estaríamos nós ameaçados de
extinção ou não?
Trabalho para muitas mãos
Fernando C.Straube 05/09/2008 08:13:06

Como membro da equipe de trabalho da Fundação Biodiversitas e MMA referente à
revisão da lista de espécies ameaçadas de extinção no Brasil, concluída em
instrumento legal em 2003, quero fazer alguns comentários. O primeiro deles é
um lembrete: durante grande parte do processo de operação, a Fundação
Biodiversitas abriu seu espaço para receber sugestões e críticas sobre
espécies candidatas e também sobre outras que, porventura poderiam ser
adicionadas à discussão geral. Entretanto, foram realmente poucos os
pesquisadores que enviaram suas sugestões, apesar de - neste momento - 5 anos
depois, terem aparecido tantas intervenções. O segundo é: não esqueçamos
que os critérios da IUCN referem-se a áreas geográficas globais (ligadas à
distribuição geral da espécie) e também políticas (ligadas ao status das
espécies nos países ou estados). Essa distinção é importante porque
associa-se à política de conservação e, desta forma, a situação de uma
espécie em um país, pode ser diferente daquela verificada em um bioma ou mesmo
na distribuição global desta espécie. Assim, uma espécie pode ser ameaçada
no estado do Rio de Janeiro, por exemplo, mas não ser ameaçada no Brasil como
um todo. Com essa pequena base conceitual é possível perceber que: 1. não
houve participação, no momento oportuno, de muitos dos pesquisadores que hoje
criticam os resultados da lista nacional; 2. persiste a velha incoerência de
analisar situações pontuais de conservação, sem levar em conta a situação
adequada que encontra-se em pauta. Os critérios da IUCN são vistos e revistos
há décadas e não há razão para considerá-los tendenciosos. Por
experiência própria, percebo que há também um maior interesse nos grupos que
são mais bonitos, chamativos ou que são mais explorados na mídia. Essa
posição não é certa e não pode ser levada adiante, merecendo auto-crítica
e reflexão de todos. É possível que tenham havido "injustiças" nas
listas brasileira e também na lista global da IUCN. Só que, em grande parte,
esses lapsos são devidos à pequena produção científica dos pesquisadores,
alguns dos quais que hoje criticam a iniciativa. Assim, como podem os
avaliadores considerar uma espécie como ameçada se os próprios estudiosos
não publicam seus resultados, tornando-os disponíveis para avaliações como
essas? E, se não colaboram no momento certo em que são convocados? Desta
forma, o caminho é o seguinte: é necessário um verdadeiro mutirão para
reavaliações [a IUCN sempre esteve aberta para isso] e constantes revisões
das listas. E todos nós, pesquisadores, temos o dever de nos posicionarmos para
que o correto status de cada espécie seja o mais próximo da realidade
possível. É um trabalho de muitas mãos.
Atenciosamente, Fernando C.Straube
Participacao na equipe de 2003
Jorge Albuquerque 05/09/2008 11:04:41

Gostaria de dizer que quando a equiepe que gerou a lista de 2003, nao recebi
nenhum convite. Falo em convite direto por email. Estava no campo buscando os
dados que estao agora sendo analisados e fromatados em uma publicacao. Entao,
gostaria de dizer que para uma equuipe dessas gerar uma lista oficial, deveeriam
ter en***** convites formais e nao postar em listas de discussao, nem sempre
acessadas qdo estamos no campo buscando informacoes reais. Dai que, como um dos
poucos especialistas em aves de rapina, acho que a lista perdeu devido nossa
ausencia. Aves re rapina nao podem ser analisadas sob a otica de ortinologos
especializados em passarinhos. POr outro lado, em paises mais evoluidos,
elaboradores dessas listas consultam os especialistas de cada grupos e nao da
forma como foi elaborada a fatidica lista de 2003.
considerações
NILSON V. DA COSTA 10/09/2008 04:39:13

Quero parabenizar pela ótimo trabalho precisamos de gente para desenvolver
trabalhos exelente igual a este,divulgando e noticiando a fauna e flora para
que tenhamos conciencia do grave problema que iremos passar se nós não
preservarmos a natureza.
Isso é uma porcaria!!
Patricia Ferreira Faria 13/09/2008 11:57:52

Isso não serve para nada!!
Patricia Ferreira Faria 13/09/2008 11:58:22

cugve3fd3jhfgrdb3uy4df22
Ferramenta de Gestão
Carlos Abrahão 24/09/2008 17:26:03

Tenho que concordar com a coerência do colega Straube que evidencia a função
de ferramenta de gestão desta lista. A IUCN tem experiência e suas listas são
reconhecidas e utilizadas em todo o mundo. Estas são feitas segundo critérios
OBJETIVOS (como explica a autora do artigo). Mentir não é a solução, esperar
que a IUCN ou o ICMBio ou o IBAMA bata na porta de cada pesquisador para que
este disponibilize seus dados tampouco. Sugiro o inverso, inundem os e-mails de
contato da IUCN/BR e dos órgãos governamentais com críticas construtivas e
idéias brilhantes. Não vivemos uma utopia e as listas nunca serão perfeitas
pois nunca conheceremos o bastante sobre a biodiversidade de algum lugar, nem
que seja do seu próprio quintal (quantas espécies de fungos existem no
seu??).
Utilizemos a ferramenta que temos em mãos, trabalhemos para que ela
seja cada vez mais refinada, detalhista, confiável e ÚTIL!
Abraços a
todos,
P.S.: Patrícia, se a ferramenta não lhe serve para nada, só significa
que vc não aprendeu a utilisá-la e não que ela não seja útil!
gavaiao pega macaco
michele marinho 03/04/2009 13:52:21

quero parabenisar a todos do IBAMA por coservar nossas faunas brasileiras que
ate nos mesmos colocamos em extiçao.....
temos que cuidar da nossa fauna para
que outros animais ameaçados em extiçaonao acabe por causa das nossas fauta de
respossabildade
Parabéns
Suellen 23/05/2009 14:25:23

Parabéns pela sua matéria ela é muito importante para nós sabemos sobre as
extinções.
Ficaria mais interessante se você colocasse uma matéria sobre
os rios ameaçados em nosso país o Brasil.

Obrigado pela atenção
e
novamente parabéns pela sua matéria.
Muito boa!
Ana Carolina 01/06/2009 09:29:52

estou em pesquisa para minha monografia sobre espécies em extinção e gostei
muito do conyeudo desta reportagem.A pergunta sobre os criterios da IUCN eram
umas das minhas duvidas,obrigada!
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