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Desmatamento: ranking por municípios não funciona

Criar ranking dos municípios campeões de desmatamento distorce a informação, porque os municípios grandes sempre encabeçam as listas

13 de dezembro de 2011 · 10 anos atrás
  • Gustavo Geiser

    Engenheiro agrônomo com mestrado em Agroecossistemas pela Universidade Federal de Santa Catarina, trabalha na Polícia Federal...

A maioria das ações do governo federal contra desmatamento é baseada nas listas publicadas em portaria do Ministério do Meio Ambiente apontando os municípios chamados “campeões de desmatamento”, aqueles que tiveram mais hectares desmatados no período. Defendo aqui que realizar o recorte por município gerará um ranking distorcido.

Esses municípios com maior área desmatada passam a ter atenção prioritária e são alvo de operações das mais diversas entidades, como IBAMA, Polícia Federal, INCRA e ONGs variadas. As ações energéticas que se seguem, sejam lá de quem for, revertem ou amenizam os índices ruins. Todo mundo quer ser o pai da criança e credita os números aos esforços de sua organização. As coisas seguem sob o espírito de “estamos conseguindo combater o desmatamento”.

Mas é surpreende que ações continuem sendo direcionadas aos municípios que mais desmataram. Isso não faz sentido. Primeiro, porque é óbvio que os municípios com áreas gigantescas, como Altamira — simplesmente o maior município do mundo – costumará ter valores absolutos altos. Por outro lado, áreas onde se concentram diversos municípios pequenos passam despercebidas, ainda que somem em conjunto uma grande área desmatada. Municípios pequenos não terão um número suficiente de hectares desmatados para figurar no topo da lista.

Para ilustrar, o mapa a seguir apresenta exemplos clássicos no estado do Pará (onde tenho mais experiência), para 2010, sobrepondo os limites dos municípios com os focos de desmatamento do DETER, representados pelos polígonos de desmatamento (cada polígono é um ponto vermelho no mapa). Tais concentrações, em boa parte dos casos, não correspondem às listas de prioridades apontadas no ranking dos municípios com mais desmatamento.

Figura 1 – Mapa do estado do Pará, onde as linhas verdes demarcam os municípios e cada ponto vermelho designa um polígono de desmatamento. Os retângulos pontilhados em verde e em rosa estão expandidos nos mapas da Figura 2 e da Figura 3. Fonte: DETER/INPE.
O mapa da Figura1 mostra o Pará inteiro. Os dois mapas seguintes representam recortes do primeiro. O primeiro recorte, da Figura 2, destaca a grande concentração de pontos vermelhos no sudoeste do Pará, junto à BR-163 (retângulo pontilhado verde). A única sede de município presente naquela região é Novo Progresso, que aparece sem destaque no ranking dos municípios com mais desmatamento. Porém, como se observa na Figura 2, embora próximos, a maior parte dos focos não se insere na área de Novo Progresso. Ficam, sim, dentro do município de Altamira, cuja sede se localiza a mais de 800 km da região. Em 2010, apenas um dos 153 polígonos de desmatamento pertencia efetivamente à região da sede do município de Altamira. Todos os demais estão próximos às sedes de um desses municípios: Novo Progresso, Uruará e São Félix do Xingu. Conclusão: concentrar ações em Altamira não funciona bem.
Figura 2 – Recorte do mapa, equivalente ao retângulo pontilhado verde na Figura 1. Repare a enorme distância e a ausência de estradas entre a sede de Altamira e a sede de Novo Progresso.

No exemplo acima, se a opção for montar a base da operação na sede de Altamira, é bom lembrar que para chegar às áreas desmatadas junto a Novo Progresso é preciso cobrir mais de 800 quilômetros em estradas de terra precárias, o equivalente a dois dias de viagem em veículo 4×4, com chance substancial de ser impossível atingir o local do desmatamento. Ao contrário, se a base for Novo Progresso, o trajeto será de apenas 30 quilômetros.

Outro exemplo é a região sudeste do estado. Usando um segundo recorte do mesmo mapa (Figura 3) dá para ver claramente na região uma concentração de desmatamentos independentes das sedes de município. Desta vez, a característica é a divisão da área desmatada em vários municípios pequenos, o que levou a que apenas Pacajá e Novo Repartimento (os maiores municípios) entrassem no radar das autoridades como prioritários. Será que essa região é menos preocupante do que outra, apenas por a primeira concentrar os focos em uma mesma sede administrativa? Vamos analisar em detalhes.

Figura 3 – Região sudeste do estado (recorte em rosa da Figura 1) mostra focos de desmatamento independentes das sedes dos municípios.

Como se pôde observar, não há nenhuma sede de município próximo a esse foco de desmatamentos. Eles se distribuem na área de diversos municípios. Pela forma como é feita a lista dos municípios campeões de desmatamento, essa região nunca será classificada como prioritária, visto que nenhum município alcançará por si só um índice grande o suficiente.

O ponto desse artigo é chamar atenção para a forma superficial como é feita a lista dos municípios campeões de desmatamento. Existem fontes de dados excelentes sobre a dinâmica do desmatamento, mas mal utilizadas impedem o planejamento de políticas públicas eficazes.

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