O dia em que Santa Catarina derreteu PDF Imprimir E-mail
04/12/2008, 13:24

Na manhã de 24 de novembro, uma segunda-feira, o governador de Santa Catarina Luiz Henrique da Silveira (PMDB) concedeu sua primeira entrevista coletiva, logo após um sobrevôo pela região atingida pelo aguaceiro. Muito assustado, suas primeiras palavras aos jornalistas foram: “Os morros derreteram, como se fossem de sorvete”.

O primeiro alerta de que algo anormal estava acontecendo eu recebi no sábado (22/11), quando Elza, minha esposa, me enviou de Guaramirim (SC) uma mensagem pelo celular informando um volume de água absurdo coletado no pluviômetro da RPPN Santuário Rã-bugio. No acumulado de três dias, registramos um índice pluviométrico de 316,5 mm, ou 20% da média anual dos últimos três anos.

Logo, os jornais começaram a divulgar os números da tragédia em Jaraguá do Sul e outras cidades da região. Por estar numa área bem preservada, o Centro Interpretativo da Mata Atlântica (Cima), onde o Instituto Rã-bugio desenvolve atividades de educação ambiental ao ar livre (interpretação de trilhas) com as escolas da região, nada sofreu. Porém, da região do Morro do Baú, na divisa entre os municípios de Luis Aves e Ilhota, a 30 quilômetros dali, vinham as notícias mais assustadoras de destruição: o “derretimento” de montanhas inteiras.

Por ironia, eu conheci o Morro do Baú, no Dia de Finados de 2001 (02/11), a convite do professor Ademir Reis, do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Para quem não sabe, o morro é uma área protegida. Trata-se do Parque Botânico do Morro do Baú, criado em 1963 pelo esforço do Padre Raulino Reitz, que, ao ver o ritmo alucinante da destruição protagonizada por agricultores da região, tentou salvar pelo menos um pedacinho do paraíso: 750 hectares. Obtendo recursos públicos do governo estadual, comprou a área de oito agricultores, que queriam abandonar a atividade.

Ele foi muito criticado na época por este ato de heroísmo. Acusaram-no de incentivar o êxodo rural, como se o padre fosse culpado pelo processo que ocorre em todos os lugares do mundo, quando os países se desenvolvem e começam a se industrializar. É um direito que as pessoas têm de largar a vida sofrida no campo e tentar a “prosperidade” nas cidades, trabalhando em indústrias, tendo acesso a melhores condições de educação para os filhos, hospitais etc.

A maioria dos brasileiros, inclusive eu, vivenciou este processo. Muitos gerentes de banco, juizes, médicos, professores universitários, diretores de grandes empresas e outros, são filhos ou netos de agricultores. Mas o fato é que os descendentes das famílias do Morro do Baú podem se considerar pessoas de muita sorte, pois devem suas vidas ao visionário padre  Raulino Reitz. Graças a ele, escaparam do “Inferno de Dante”. E alguns sairiam de lá de qualquer forma, após devastarem tudo. Aliás, todo mundo pode se considerar sortudo por receber esse “presentão” muito especial do religioso, que é o Morro do Baú preservado - um tesouro riquíssimo em formas de vida, que abriga várias espécies de plantas e animais ameaçados de extinção.

Nas imagens que vi de uma emissora de TV, as partes mais altas do Morro do Baú, da face mostrada na imagem do topo deste artigo as mais preservadas, não desabaram, porque montanhas bem preservadas não derretem. Contudo, a face voltada para o litoral, bem mais íngreme, sofreu desmoronamentos. As partes bastante íngremes das montanhas com vegetação rala, de pequenos arbustos, também estão sujeitas a estes fenômenos, mas são bem raros. Mas o Morro do Baú não se desintegrou, continua como está na imagem mostrada no topo deste artigo, capturada em novembro de 2001. E assim deverá ficar para as gerações futuras. Imaginem quantas vidas humanas não foram salvas, só nesta última tragédia, graças aos esforços do padre Raulino Reitz para preservar aquela montanha.

Além da destruição e das vítimas dessa última tragédia, o que mais me assustou e me deixou muito preocupado foram as declarações do coordenador da Defesa Civil de Santa Catarina, ao descrever a região do Morro do Baú durante uma entrevista no programa do Faustão. Ao se referir às propriedades rurais dos municípios de Ilhota e Luis Alves, arrasadas pelo aguaceiro, disse: “A região ainda tem muita natureza, os agricultores de lá preservam”. Não tenho a menor dúvida de que o coordenador foi sincero em suas declarações, mas o que me assustou foi a constatação de que as pessoas já não sabem mais o que é uma área preservada, ou melhor, o que é natureza de tão devastada que está a Mata Atlântica.

Durante aquele Finados, em 2001, quando conheci a região pela primeira vez, fiquei tão aterrorizado com a devastação dos agricultores como estou agora com suas conseqüências. No caminho, cheguei a comentar com Elza: “Será mesmo que sobrou alguma coisa preservada nesta região? Não pegamos a estrada errada, ao contrário da que o professor Ademir Reis indicou?”

Reparem na foto do Morro do Baú (topo) e observem a paisagem arruinada de uma propriedade rural, em primeiro plano. Só tem plantas exóticas (capim braquiária, palmeira-real-australiana, eucalipto, lírio-do-brejo…). Reparem também naquele corte do barranco. Interessante, não é mesmo? Este é o padrão que se repete em toda a região. Então, foram justamente estes morros devastados que derreteram. De área preservada, só sobrou mesmo o Morro do Baú e, nas partes mais altas, os domínios do parque criado por Raulino.

Em qualquer imagem mostrada pela TV de morros que desabaram (ou derreteram) se observam pastagens ou “reflorestamento” de pinus e de eucalipto. Em um caso de quatro pessoas que retornaram após serem resgatadas e morreram soterradas, o morro que provocou a tragédia era todo ocupado por uma plantação de pinus. Numa das reportagens, o apresentador, que, pessoalmente sobrevoou a região, se disse surpreso com a quantidade de madeireiras e de “reflorestamentos” de pinus e de eucalipto. Podemos concluir que o aguaceiro foi apenas um coadjuvante nos desmoronamentos e assoreamento de grandes extensões dos vales com solo estéril das montanhas derretidas. É esta paisagem arruinada que estamos deixando para as gerações futuras.

Nós herdamos um passivo ambiental gerado no aguaceiro de 1983, que atingiu também as cabeceiras do Rio Itajaí. Foi justamente numa das áreas que compramos para preservar, em Itaiópolis (SC), que ainda salvará muitas vidas humanas em Blumenau e evitará prejuízos materiais no Porto de Itajaí e na infra-estrutura das cidades. A encosta deslizou deixando a paisagem arrasada, como na foto ao lado. A área da encosta era bem preservada, mas um agricultor desmatou até a borda, apesar de ser área de preservação permanente (APP), que é de uso proibido, justamente para proteger a encosta. Naquele ano, vários deslizamentos de grandes proporções ocorreram nas cabeceiras do Itajaí, que represavam suas águas e estouravam em seguida, produzindo “cabeças d’água” com grande poder de destruição.

Não faz muito tempo, os chineses anunciaram seus planos de usar uma bomba atômica para explodir uma cordilheira e fazer a transposição de um importante rio para irrigar plantações. Acho que, ao ver as cenas da destruição em Santa Catarina, os chineses vão descobrir que existe uma maneira muito mais simples de “derreter” montanhas.

Por conta das agressões que fizeram às áreas preservadas de Mata Atlântica, a história revela que gerações do passado, inclusive de catarinenses, já sofreram tragédias de proporções tão grandes como esta, mas nunca foram tão bem registradas e divulgadas como agora (popularização das câmeras digitais e filmadoras, internet, televisão etc). Nosso desafio é convencer as pessoas que ocupar áreas de preservação permanente, como as encostas dos morros, não é somente uma infração às leis ambientais, mas um ato suicida.

Comentários
Adicionar RSS
que nos sirva de alerta
joel marcos ventura 06/12/2008 21:08:08

essa trajédia só nos mostra,que ocupar regiões de morros ou encostas, é
totalmente inviável,não há mais como,as consequêcias estão ai para todos
verem!
Antes de tudo conciência e prevenção
Conceição Guimarães 08/12/2008 09:35:50

Os acontecimentos ultimamente estão bem claro pra todos, na nossa busca
incessante de querer sempre mais do que precisamos para sermos felizes, nós
destruímos a natureza e ela só esta pedindo de volta o que é dela por
direito.
Não destrua a natureza, não desmate, não queime e não invada só
assim poderemos viver em harmonia com ela e sem sermos expulsos desse modo tão
violento.
Terrivel o efeito! Mais graves sao as causas!
Oscar Llanque 08/12/2008 12:06:16

Muito obrigado Germano pela brilhante explicação.
lamento que os causantes
principáis: as transnacionais do petróleo, das armas e da contaminção,
daquele primeiro mundo e do nosso, nem estem ahi....
Gostaria um juizo por
crime de leza humanidade em contra de éssas máquinas de fazer
dinheiro!!!

Gostaría você e todos os(as) interesado(a)s considerem o
seguinte pronunciamento do presidente da Bolivia para a cumbre do meio ambiente
2008.

http://www.abi.bo/index.php?i=enlace_alte
rnativo&j=abi/comentarios/0147.html

um grande abraço
INFELIZMENTE AS TRAGÉDIAS CONTINUAM
RUTE CRISTINA 17/04/2009 16:21:34

A DESTRUIÇÃO DAS CÉLULAS CILIADAS DA AMAZÔNIA

O ser humano e os outros
mamíferos têm células ciliadas no revestimento interno da traqueia e
brônquios, que servem para reter muco e poeira que poderiam prejudicar os
pulmões, e também nos ovidutos, onde eles ajudam o óvulo a mover-se do
ovário para o útero.

Dessa mesma forma as matas servem como cílios para a
preservação das águas dos rios, por isso são chamadas matas ciliares. Essas
são florestas,, ou outros tipos de cobertura vegetal nativa, que ficam às
margens de rios, igarapés, lagos, olhos d´água e represas. O processo de
eliminação das florestas resultou num conjunto de problemas ambientais, como a
extinção de várias espécies da fauna e da flora, as mudanças climáticas
locais, a erosão dos solos e o assoreamento dos cursos d'água.

Neste
panorama, as matas ciliares não escaparam da destruição; pelo contrário,
foram alvo de todo o tipo de degradação. Basta considerar que muitas cidades
foram formadas às margens de rios, eliminando-se todo tipo de vegetação
ciliar; e muitas acabam pagando um preço alto por isto, através de
inundações constantes.

Todos os noticiários em nosso país, estão
repletos de informações sobre a situação das enchentes ocorridas nos
últimos dias na cidade de Altamira, Município situado dentro da Amazônia
Legal.

Nos primeiros meses do ano de 2008 esta mesma cidade esteve nos
noticiários devido ao protesto de seus moradores contra a Operação Arco de
Fogo, nesta operação mais de 100 homens da Polícia Federal, Ibama e Força
Nacional de Segurança participam da operação, contra a extração ilegal de
madeira e o desmatamento na região da Transamazônica e Xingu. . Os
manifestantes se vestiram de preto, usaram fitas e bandeiras pretas e levaram
dezenas de faixas e cartazes demonstrando indignação com a ação do governo
federal.

Entretanto esta ações não foram suficiente para inibir e impedir
a ação criminosa de ignorantes, que destroem a natureza com ganância e
ambição. A falta de cultura e consciência ambiental nas décadas passadas,
deixaram a área central da cidade de Altamira, sem nenhuma reserva de floresta,
quer seja em praças ou reservas municipais.

Considerando o Decreto
6321/2007 – que “dispõe sobre ações relativas à prevenção,
monitoramento e controle do desmatamento no Bioma Amazônia, o Município de
Altamira passou a compor os 36 Municípios considerados pela portaria 28/2008
como prioritário para realização de ações de prevenção e controle do
desmatamento, compondo ainda a lista publicada em Março de 2009, pois não fez
o “dever de casa”, segundo o ministro Carlos Minc, apesar do Município ter
reduzido sua taxa de desmatamento, mas continuam com altos índices de
desmatamento, 271 km2.

Também o Ministério Público de Altamira, instaurou
inquérito civil para apurar eventual prática de crime ambiental cometido pela
prefeitura do município, ao realizar obras nas proximidades do igarapé
Altamira. As obras, de abertura de via pública, estariam provocando
devastação no igarapé, conforme denúncia encaminhada ao MP pelo Movimento de
Mulheres e Trabalhadoras de Altamira Campo e Cidade. A prefeitura já sofreu
autuação do Ibama pelo mesmo motivo, sendo multada em R$ 200 mil.

Em
conseqüência ao total descaso com o meio ambiente e com sua sociedade, hoje a
cidade de Altamira encontra-se com aproximadamente 1.887 famílias
desabrigadas, ou cerca de 20 mil pessoas, representando 25% de sua população.
Paradoxo
Cris 24/09/2009 20:18:31

Sei que estou um pouco atrasada no comentário. Mas estou trabalhando num artigo
sobre a região, visto que a conheço muito bem. Observei, ao contrário de sua
explanação, que a maioria dos desabamentos ocorreram em áreas que não haviam
sido desmatadas. Isto ocorreu devido ao "peso" das árvores,
especialmente as mais antigas. O solo encharcado não conseguiu manter a unidade
sob a pressão da vegetação, gerando os maiores deslizamentos. As áreas
íngremes, com vegetação rasteira, "grama", manteve-se, em grande
parte, intocada. Inclusive estou acompanhando algumas áreas de risco, com
encostas ainda "mexidas". Estamos realizando a retirada das árvores
maiores, cujas bases não estão seguras, para que não desabem nas próximas
chuvas.
deus
ingrid 17/11/2009 15:13:57

Deus esta voltando...
Escrever comentário

Comentários são moderados e aceitos sempre
que não trouxerem termos abusivos ou ofensivos.


Nome:
Email:
 
Título: