Desmatou? Leva que o terreno é seu
10/11/2008, 07:00

Quem está acompanhando a história que contei nos três artigos anteriores deve ter pensado que no último artigo da série, que é este, eu reservei só parte boa, só alegria e a satisfação de estar podendo salvar alguns vestígios da Mata Atlântica para as gerações futuras.

Afinal, que outros problemas um proprietário de área preservada poderia enfrentar além de todos aqueles que já relatados nos artigos anteriores? O fato é que desgraçadamente existe um número incrível de modalidades usadas pelo homem para destruir as áreas preservadas. Certamente, eu ainda não devo ter vivenciado todas nestas áreas que estou tentando proteger. Mas os desafios existem para serem vencidos e precisamos salvar alguma coisa para as gerações futuras.



À medida que surgiam as oportunidades de compra de áreas preservadas, eu fechava o negócio, geralmente sem ver a área, confiando somente na descrição do vendedor e na documentação para obtenção da escritura e registro no cartório de imóveis. Então, um advogado me ofereceu mais uma área de 33 hectares no entorno das que eu já tinha comprado. Ele não sabia direito onde ficava porque este terreno foi arrematado num leilão do Banco do Brasil por R$ 4 mil e ele queria R$ 10 mil, uma pechincha (a compra foi realizada em 26/11/2004). O terreno pertencia a uma madeireira falida e ficou com o Banco do Brasil por conta da execução de uma dívida referente a um empréstimo bancário.



Eu imaginava que este terreno ficava no meio das extensas áreas preservadas da região, que nem teria acesso por estradas, como é a situação de boa parte dos terrenos naquela região. Após algumas semanas de ter concretizado a compra e obtido a escritura devidamente registrada, eu e a Elza planejamos uma expedição para colocar os pés na área e apreciar a riqueza da biodiversidade.

Foi fácil encontrá-la com as informações dos moradores da localidade. Ao contrário do que imaginei, o terreno fazia divisa com a propriedade devastada de um jovem agricultor, que ocupava a área havia pouco tempo, depois de ter morado em Curitiba, Mato Grosso e Rondônia. Este agricultor confrontante foi muito gentil conosco e nos mostrou toda a área preservada que compramos. Ficamos fascinados. Valeu a pena compra – pelo menos até aquele momento. E que vizinho bom – pensei. Contudo, eu logo notei algo estranho ali, mas procurei não pensar no pior.



No meio da área preservada adquirida, encontramos muitos restos de troncos de árvores nobres, que caíram naturalmente, retalhados recentemente com motosserra para aproveitar parte da madeira. Embora indignado, eu já estava aceitando aquilo como normal, pois era um problema que eu já tinha vivenciado na outra área. Mas arrisquei em perguntar para o agricultor quem tinha retirado a madeira. Para minha surpresa, ele assumiu a autoria sem nenhum constrangimento. Como forma de retribuir a gentileza de ele ser tão prestativo  fingi aceitar aquilo como um favor até, mas eu estava profundamente indignado. Lembrando o que expliquei no artigo anterior, que os troncos de árvores caídas não podem ser aproveitados, como muitos imaginam. É ali que começa a vida de um ecossistema.



Mas algo continuava a me inquietar, além da garimpagem da madeira dos troncos caídos. Eu também estava curioso para saber onde ficava um desmatamento chocante, com uso de fogo, que podia ser avistado da estrada principal, conforme mostra uma das imagens deste artigo, e que eu já havia denunciado. Reparem na gravidade do caso. Fica no topo de um morro de alta declividade. Portanto, trata-se área de preservação permanente (APP), perfeitamente justificável uma vez que este tipo de agressão pode provocar um grande escorregamento da encosta. Depois de estudar bem a geografia da região, eu finalmente descobri. Este desmatamento foi feito no nosso terreno! Na área que compramos para preservar! E o infrator foi este jovem agricultor.



A finalidade foi extrair lenha para sua estufa de secagem de fumo e ampliar a área invadida para formação de pastagem. Opa! Ampliar área invadida? Como assim? Sim, é exatamente o que você, leitor, deve estar imaginando. O que tanto me inquietava foi o fato de constatar vestígios da uma mata derrubada recentemente na divisa com a propriedade deste agricultor – além daquela área avistada da estrada geral. E o pior se confirmou: um agrimensor que contratei para medir a área, de acordo com as divisas indicadas por este agricultor, descobriu que estão faltando 13 hectares nesta área que deveria ter 33 hectares.



Durante as constantes visitas ao terreno, apareceu mais uma oportunidade de compra de uma área próxima, com 36,3 hectares. Então, pela primeira vez, eu vi o terreno antes de concretizar a compra. Até que enfim eu criei juízo, certo? Os donos moravam em Curitiba e herdaram estas terras do pai, um agricultor que abandonou a atividade há muitos anos (êxodo rural) e foi tentar a sorte em Curitiba, onde se deu muito bem, tornando-se um próspero comerciante, no ramo de materiais de construção.



Cerca de um mês após a compra, fomos ver com mais detalhes a área e tivemos mais uma decepção. Um desmatamento na divisa, pegando toda a parte plana do terreno. Eu havia me certificado bem onde era a divisa com os avós dos vendedores que também me tranqüilizaram sobre a existência de marcos em lugares muito bem determinados (referência da estufa de fumo, margem de riacho etc.). Mesmo assim, ainda tive a humildade de perguntar para este confrontante onde afinal era a divisa. Ele apontou para o limite do desmatamento, que coincide com a borda do penhasco. Eu perguntei onde estavam os marcos das divisas. Com muita frieza, respondeu que acidentalmente o trator arrancou. O agrimensor que contratei descobriu que neste caso estão faltando apenas 6 dos 36,3 hectares comprados, considerando as “novas” divisas indicadas por este confrontante.



Fiquei como um gato escaldado de tantas “cabeçadas” que levei nestas compras de áreas preservadas com vizinhos hostis e desonestos. Ainda bem, pois tanta precaução me livrou de um grande pepino quando apareceu outra chance de comprar uma área “preservadíssima”. O vendedor, residente em Mafra (SC), herdou a área do pai, que tinha falecido há pouco tempo. Na escritura consta que o terreno se situa na localidade de Xavier da Silva, em Itaiópolis (SC). Ele não conhecia o terreno, tampouco sabia onde ficava esta localidade. Mas garantiu que seu pai jamais havia explorado a madeira desta área e que sempre comentava sobre os pinheiros (araucárias) e imbuias gigantescas. A tentação de comprar este paraíso era irresistível e eu já estava doido para fechar o negócio. Fiz um esforço para não ser tão afobado e o convidei para me mostrar a área antes de fechar o negócio.



Chegando na localidade, só se via uma paisagem arrasada. Estava tudo devastado. Eu já estava convencido do que tinha acontecido, mas procurei manter o otimismo. Depois de muita pesquisa e informações dos moradores – que certamente nem sabem mais como é uma área preservada - descobrimos que o terreno foi totalmente invadido pelos confrontantes. Tomaram posse na moda antiga: desmatando, ou melhor, “limpando” a área. Virou tudo plantação de soja e pinus. O coitado do herdeiro ficou apenas com um pedaço de papel na mão, a escritura no caso, e com os comprovantes de quitação dos impostos. Não sei como ele vai fazer para reaver o patrimônio que seu pai lhe deixou, já que envolve custos elevados com advogados, elaboração de laudos técnicos etc. Enquanto que para tomar posse o invasor precisou apenas colocar gasolina e afiar os dentes da sua motosserra. O documento de posse que fala mais alto foi a devastação.



Então, será que comprar para preservar resolve? Esta foi a indagação que eu fiz nos artigos anteriores e a resposta é mais ou menos óbvia. Se você não cuidar da área vai ter surpresas desagradáveis. Só a compra não é a garantia da preservação. As pessoas não respeitam a propriedade alheia e muito menos a natureza. Esta, aliás, por ser a mais frágil, é a primeira a ser agredida, já que não pode se defender da ganância do homem. Por isso, precisa de proteção das poucas pessoas - éticas - com consciência de que todos neste planeta têm direito à vida.







Já compramos 433 hectares de áreas preservadas nas cabeceiras do rio Itajaí, em Itaiópolis (SC), e tudo está sendo transformada em RPPN, a maioria já protocolada no ICMBio, em processo final de criação. Salvamos da destruição muitos quilômetros de matas ciliares e milhares de árvores, muitas com mais de 300 anos de idade e da lista das espécies ameaçadas. Sem contar a riquíssima biodiversidade de outras plantas e animais. Assim, estamos realmente “fazendo a nossa parte” sem ter que esperar 300 anos ou mais para ver se vai dar certo, caso tivéssemos optado pelo plantio de árvores, onde teríamos gastado muito mais (5 vezes mais, no mínimo). De sobra, ainda salvamos milhares de animais, nossa biodiversidade, que infelizmente não ressuscitam e tampouco brotam a partir de meia dúzia de espécies árvores nativas plantadas.
Comentários
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Parabéns Germano e Elza
Fernando Tortato 10/11/2008 12:09:33

Fico muito contente em ler esta coluna!Apesar de todas as dificuldades
encontradas, o empenho e dedicação que voces demonstram na preservação
destes fragmentos florestais é contagiante. Durante 4 anos de minha graduação
realizei pesquisas com mamíferos na Reserva Biológica Estadual do Sassafrás,
próxima a região da futura RPPN e conheço bem a realidade da região. Apesar
de agora estar trabalhando no pantanal ainda penso em voltar a trabalhar no vale
do Itajaí e quem sabe realizar o sonho de também ter minha RPPN e ajudar na
preservação da região. Um grande abraço, Fernando
Parabéns!
Déa Alves 11/11/2008 04:15:34

Interessante e estimulante. Parabéns Germano e Elza. O Espírito Santo, estado
onde vivo há cinco anos (sou do Rio de Janeiro), precisa muito de iniciativas
assim! Como começar?
Abração
Déa
RPPN e Reserva Biológica
Carlos Eduardo Zimmermann 11/11/2008 14:12:06

Germano e Elza

Parabéns pela iniciativa. A Floresta Atlântica precisa de
ações como a de vocês. Como o amigo Tortato,trabalhamos com aves na Reserva
Biológica do Sassafras, que se caracteriza como uma das UCs mais ricas em
espécis de aves de SC.
Estamos criando as condições para um futuro corredor
de biodiversidade de toda esta região.

Abraços

Carlos
Elza e Germano
Gisele Londero 11/11/2008 14:17:53

Parabéns pela área!!!!
Só preciso discordar de uma coisa que disseste, nem
sempre é possível comprar um area preservada e a açao de reflorestar é sim
nobre também.
Restam pouquissimas areas assim e tu bem sabes, entao precisamos
contar com toda a ajuda, seja ela de formiguinha ou de grandes latifundios.
No
mais, mostrou a nossa realidade nua e crua!!!
Parabéns!
Flávia 11/11/2008 14:32:31

Isso sim é iniciativa! Obrigado por relatarem suas lutas, os desafios e a
satisfação de fazer o bem para a natureza, independente dos obstáculos!
Grande iniciativa
Viviane Rodrigues 11/11/2008 17:46:02

Germano e Elza,
Ainda bem que existem pessoas como vocês, que se propõem a
pôr em prática ações tão primordiais. Que vocês possam continuar esse
trabalho com cada vez mais sucesso, e que nós também possamos auxiliar de
algum modo. Grande abraço. Viviane (Joinville)
Elza e Germano
vera 11/11/2008 17:47:29

Tenho acompanhado e admiro o trabalho de vocês na preservação da Reserva e
das áreas verdes que ainda nos restam. Minha luta não é diferente. Mas não
fechemos os olhos ante a inércia do poder público e daqueles que ainda não se
deram conta de que, sem a Natureza, nada somos.
Vamos continuar combatendo o
bom combate. Vamos ficar alertas, denunciar e dar o exemplo.

Um
abraço,
Vera
Sugestão
Monika Naumann 11/11/2008 18:36:54

Com relação a vizinhos problemáticos, sugiro que vocês formem uma
"cooperativa" de pessoas interessadas em preservação, e que comprem
várias áreas vizinhas, mesmo aquelas já devastadas, ou que serão utilizadas
para exploração agrícola. Conheço uma comunidade assim em São Francisco de
Paula - RS. Um professor universitário adquiriu uma área, depois vieram outros
colegas que adquiriram áreas vizinhas, e o objetivo deles é a preservação ou
exploração para turismo e pesquisa. É melhor do que ficar sozinho em meio a
vizinhos hostis. Em tempo: estou elaborando uma metodologia de reflorestamento
para áreas de reserva legal que abarcará dezenas de espécies da mata
atlântica, e a idéia é que seja viável economicamente.
Sejam abençoados.
Mariza 11/11/2008 18:49:54

Olá, Germano e Elza.
É estimulante ler sobre o maravilhoso trabalho de
vocês, sobre a coragem e a determinação de ambos!
Parabéns ao casal, sejam
abençoados.
Abraço-os com admiração.
Mariza.
RPPN
Fabio Roberto Ribeiro da Silva 12/11/2008 09:12:09

Parabens pela iniciativa de comprar para preservar, vocês estão fazendo o que
eu gostaria de poder fazer.

Também mono em Jaraguá do sul e sou turismólogo.

Vocês tem algum projeto para o uso turístico das áreas?
ilana lewinsohn 12/11/2008 11:50:27

É... dói encarar certos aspectos da realidade humana...
Coragem a vocês,
Germano e Elza!
Sua iniciativa é louvável, e certamente há muitas pessoas
dispostas a ajudá-los como puderem.
Apesar de todas as enormes dificuldades
em diversos níveis, tenho certeza de que o planeta todo passa por um processo
de mudança, de limpeza, e por isso toda a sujeira está vindo à tona antes de
uma renovação profunda...
São ações como as de vocês que vão nortear
esse processo, cada vez mais.
Sigam acreditando! Vocês estão cada vez menos
sozinhos, e as coisas vão melhorar!
Havendo qualquer coisa que eu possa
fazer... ponho-me à disposição.
Fraternalmente,
ilana
Lucidez 3
Ocelote 13/11/2008 05:36:59

Gente lúcida!
O Brasil quase sempre aparece como um país formado de apenas de
pessoas desvairadas, sedentas por lucro ou meios de vida baseados na Lei de
Gerson...parece alucinação coletiva a forma como investimos na degradação de
tudo no nosso país, incluindo aí entes e dementes.
Não arrancamos nenhum
naco de nosso território, mas o matamos por dentro, atingindo sua capacidade de
suportar biodiversidade e a própria vida da população....enquanto isso, há
este desvario de proteger a integridade territorial, ao mesmo tempo que se
escancara e oficaliza várias formas de degradação do conteúdo deste
território....matamos por dentro, ao poucos, de forma eficiente! A verdadeira
ameaça tem sido nós mesmos.
Assim, cada vez que surgem pessoas claramente
lúcidas no meio desta confusão toda, indicando uma ordem na forma de pensar a
vida em meio a um país desconjuntado, minhas esperanças se acendem
novamente...sou otimista...

E sonho com o dia em que a lucidez vença
ignorância, porque se houve esta tal de batalha vencida pela esperança frente
ao mêdo, acho que agora o medo da desgraça ambiental está cada vez mais
denso, em função da inépcia, cara-de-pau e comprometimento de nossas
autoridades e órgãos ambientais.

Mais uma vez, parabéns a voces pela
lucidez e coragem!
é apenas o começo
joel marcos ventura 16/11/2008 10:34:07

sua matéria até aqui nos mostra que comprar áreas para preservar,é apenas o
começo das adversidades a serem enfrentadas,ou seja é um pacote cheio de
desafios para manter esse bioma intacto,em razão a tudo isso,só podemos dizer:
parabénz Germano e Elza, pela incansável luta .
Sibele Kamchen 20/11/2008 04:50:26

Admiro cada vez mais a força e dedicação de vocês. O amor por todas as
formas de vida supera todos os obstáculos. Parabéns!

Abraços,
Sibele
Elza e Germano
Patricia de Andrade Bello 26/11/2008 16:56:18

Tenho verdadeira admiração pelo trabalho de vocês. Espero um dia poder
conhecer o instituto. Abraço
Perseverança
Rogel Ferreira Costa 16/01/2009 11:56:08

Parabéns Elza e Germano, espero que Deus de sempre força e perseverança para
vcs superar dias díficeis.
Mata Atlântica
Samuel baker Moro Aragão 13/02/2009 12:44:03

Parabéns ao casal,e muito obrigado pela perseverança de proteger uma área
belíssima de nosso país,se tivessemos mais pessoas com esta visão e sei que
temos,mais presisamos de mais,nossa natureza seria bem mais preservada,e
detestando aquele"jovem agricultor" ele destroi o que a natureza levou
anos para criar.
novo código
Marta 03/05/2009 15:13:59

Enquanto poucos tem a atitude de preservar nosso governo catarinense tem a
atitude de criar um código para devastar
Parabéns por suas atitudes
Marta
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