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A cena final da obra-prima “Por quem os sinos dobram”, de Ernest Hemingway, é um daqueles momentos da literatura que se tornaram inesquecíveis, porque mexem fundo com a nossa emoção. Como frequentemente acontece nos grandes livros, há tramas distintas que se desenvolvem isoladamente ao longo do livro todo, e que só ali na cena final se encontram e revelam toda a sua riqueza de sentido. Em “Por quem os sinos dobram”, o personagem principal é Jordan, um americano que luta como voluntário do lado dos republicanos combatendo os nacionalistas na guerra civil espanhola, e que é a personificação do idealismo e da coragem. Mas Hemingway escrevia bem demais para cair na armadilha maniqueísta de pintar um conflito humano dividido em dois lados estanques, dos bons e dos maus. Dentro do lado republicano há o rancoroso Pablo sabotando os esforços de Jordan. Do lado nacionalista, acompanhamos ao longo do livro inteiro – sem que saibamos bem porque - os passos de um certo tenente Berredo, um personagem tão humano e idealista quanto Jordan, mas que as circunstâncias colocaram lutando pelo outro lado. Na tal cena final, Jordan, com a perna quebrada e sem poder escapar, aguarda escondido atrás de umas árvores, com a arma engatilhada, para pelo menos levar com ele o primeiro soldado nacionalista que aparecer. Mas o primeiro nacionalista que se aproxima, despreocupadamente, sem desconfiar da emboscada, é o tenente Berredo. Vem um nó na garganta, do qual não conseguimos nos livrar. Poucas vezes a falta de sentido do conflito humano foi tão bem demonstrada pela literatura: há gente bem intencionada em toda parte, mas as nossas ideologias podem nos jogar uns contra os outros.

Hoje se fala muito do conflito entre “o social” e “o ambiental”. Cada vez que ouço falar desse conflito me vem à cabeça aquele final de “Por quem os sinos dobram”. Sempre me perturbou muito o fato de existir tanto idealismo, tantas boas intenções dos dois lados, tanto daqueles que querem um mundo socialmente melhor como daqueles que querem conservar a natureza, e que no entanto haja tanto conflito entre os dois grupos.

A “sustentabilidade” pode ser a base para um acordo?

Paradoxalmente, muitos dos conflitos atuais vêm das “soluções mágicas” para negar que haja conflito, e das críticas a tais “soluções”. É o caso do chamado socioambientalismo, que tem defendido que se pode resolver problemas sociais com a utilização supostamente sustentável de recursos dentro de Unidades de Conservação. Adoraria poder me convencer disso, mas não consigo. O calcanhar de Aquiles do socioambientalismo, claro, é se as utilizações de recursos propostas são de fato sustentáveis, ou se isso é apenas pensamento desejoso.

Na maioria dos casos, a resposta verdadeira para essa questão seria “não se faz a mínima idéia.” Quando se diz que algo é sustentável, quase sempre o que se está dizendo na verdade é “estou fazendo menos estrago ambiental do que poderia estar sendo feito de outra forma”. Isso pode muito bem ser verdade (ou não, dependendo do caso), mas não tem nada a ver com ser sustentável. Sustentabilidade, por definição, implica em que os usos atuais de recursos não podem comprometer a disponibilidade dos mesmos recursos para as gerações futuras. No entanto, como já argumentei aqui mesmo em O Eco (na crônica “A tal da sustentabilidade”), sustentabilidade geralmente é apenas assumida, mas quase nunca é testada. Se o uso de qualquer “recurso natural renovável” é sustentável ou não, é uma questão demográfica a respeito da população biológica que é o tal “recurso”. Isso é óbvio, ou deveria ser, mas por alguma razão a demografia raramente é analisada antes de se dizer que algo é “sustentável”. Pior, nas poucas vezes em que é testada, a sustentabilidade assumida geralmente não é verdadeira.

No caso do socioambientalismo, a sustentabilidade via de regra é assumida com base em uma série de pressupostos – que populações humanas viviam em harmonia com a natureza no passado pré-tecnológico, que as condições com as quais elas se relacionam com a natureza hoje são similares às do passado, que se trata de economias “tradicionais” e não de economias de mercado, e por aí vai. Esses pressupostos são essencialmente ideológicos, mas infelizmente tem pouca ou nenhuma base na realidade. Na maioria dos casos são demonstravelmente falsos. A ideologia, aqui, é má conselheira.

Se a tão falada sustentabilidade é um gigante de pés de barro, o efeito disso sobre a biodiversidade que fornece os tais “recursos” é óbvio, mas os efeitos sociais não são menos trágicos. Estimular pessoas a depender de uma exploração de recursos que seja na verdade insustentável não é bom para ninguém, muito menos para as próprias pessoas. Empurrar populações para dentro de Unidades de Conservação, para uma apropriação para poucos do que na verdade é de todos, só disfarça a incapacidade de nossos governantes de oferecer verdadeiras oportunidades para as pessoas. Além disso, na ausência de sustentabilidade, isso só representa o que Tim Flannery chamou de “comer o futuro”, com paliativos imediatistas e populistas que só empurram o problema para a frente e o tornam cada vez maior. “Ah sim, sempre vai haver mais uma Unidade de Conservação para invadir.” A velha e boa mentalidade de fronteira. Mas que visão curta depender desse tipo de solução para resolver nossos problemas sociais em pleno século 21!

O socioambientalismo no fundo tenta revogar o velho provérbio, “Você não pode ter o bolo e comê-lo”. Para muita gente, essa é uma tentativa bem intencionada e sincera de resolver os problemas sociais. Resolver esses problemas tem que ser um objetivo central e crucial para todos nós, sempre, mas discordo que essa seja uma forma verdadeira de resolvê-los. Concordo que, no fundo, não precisa mesmo haver conflito entre a conservação e o social – mas para isso, temos que pensar numa escala maior, no espaço e no tempo.

Conflito ou não, uma questão de escala

Se pensarmos bem, se há ou não conflito entre a conservação e o social é uma questão de escala. Em pequena escala de espaço ou de tempo, é óbvio que tende a haver conflito sim. Toda a história humana é repleta de devastações ambientais feitas por povos tentando elevar seus níveis de vida através da exploração local e imediatista de recursos naturais. Como foi expresso com perfeição pelo ecólogo-filósofo argentino Adrian Monjeau, trata-se do predomínio do “eu(ou nós)-aqui-agora” sobre o “todos-em todos os lugares-amanhã”.

No entanto, se olharmos numa escala maior, o conflito imediatamente desaparece. Ao usar de forma imediatista e irresponsável seus recursos naturais, cada civilização só tende a destruir os serviços ambientais - fertilidade dos solos, qualidade da água, florestas, e até o próprio clima - os quais a biodiversidade nos dá, de uma maneira nem sempre óbvia. Com isso, destrói as bases de sua prosperidade e de seu bem estar social, o qual depende, em grande escala espacial e a médio e longo prazo, desses serviços. Este ponto foi demonstrado com brilhantismo no livro “Colapso”, de Jared Diamond, publicado em 2005.

“Colapso” provocou uma imensa revolução na nossa visão da história, ao mostrar que o desaparecimento de várias das grandes civilizações do passado foi devido à sua incapacidade de lidar com os problemas ambientais que elas mesmas causaram. No entanto, entre os exemplos de “Colapso” mostrando que o bem-estar ambiental e o social caminham juntos, um dos mais perturbadores é bem atual: o da ilha de Hispaniola.

Hispaniola: uma ilha e dois destinos

Hispaniola é uma grande ilha do Caribe, dividida entre dois países: Haiti e República Dominicana. Hispaniola havia sido notada pelos primeiros europeus que a viram no século 16 como uma ilha coberta por florestas exuberantes. Os destinos dos dois países que a dividem, que de início pareciam similares, começaram a divergir mais marcadamente a partir do início do século 20, quando a República Dominicana começou a tomar uma série de ações reais de conservação, tais como uma legislação proibindo contaminação dos rios em 1901, e a criação de várias reservas naturais a partir de 1927. Tais ações ganharam um maior impulso a partir da década de 1960, quando entre outras coisas foi reprimida a exploração madeireira ilegal, foram criadas leis protegendo as matas de galeria e foi banida a caça. O sistema de Unidades de Conservação do país foi maciçamente ampliado e hoje compreende 74 reservas, cobrindo cerca de um terço de toda a área do país.

Enquanto isso, do lado do Haiti, nada. O Haiti prosseguiu com uma receita econômica velha conhecida nossa, que inclui rápido desmatamento e plantação de algumas commodities agrícolas, principalmente café e açúcar. Além disso, no Haiti a fonte de energia mais utilizada é o carvão, o que aumenta ainda mais a pressão sobre a pouca mata remanescente. O sistema de Unidades de Conservação do Haiti é ínfimo, contando com apenas quatro pequenas reservas, que garantem ao país apenas 1% de cobertura florestal. O resultado de tudo isso tem sido erosão, perda de solos férteis, e uma imensa degradação ambiental em geral.

Se uma imagem vale mil palavras, uma imagem de satélite de Hispaniola no Google Images vale um milhão de palavras. Dê uma olhada, porque essa é uma imagem impressionante: uma ilha com uma metade marrom (Haiti, a oeste) e uma verde (República Dominicana, a leste). O resultado social de tudo isso, depois de um século, é claro. A República Dominicana é um país relativamente próspero, para os padrões latino-americanos, com um nível de vida muito similar ao do Brasil. O Haiti é o país mais pobre do hemisfério, com uma miséria que parece não ter solução, fome, doenças devastadoras, e uma violência urbana fora de controle.

Que receita nós queremos para a nossa sociedade? Que futuro queremos? Em pequena escala a conservação e o social podem parecer estar em conflito. Em grande escala, no espaço e no tempo, não estão. Será que vamos continuar não aprendendo as lições da história?

O mundo melhor será um só

Não se engane de que a luta pela conservação não seja também uma luta por um mundo socialmente melhor. Conservar a natureza implica em querer um mundo melhor para todos, e não sempre para alguns tentando resolver seus problemas à custa do que é de todos. Precisamos de toda a boa vontade que exista na humanidade, porque um mundo ambientalmente melhor será também um mundo socialmente melhor. Nossos destinos estão todos ligados, como na brilhante passagem do poeta irlandês John Donne que deu o título ao livro de Hemingway:

“Nenhum homem é uma ilha; cada homem é um pedaço do continente, uma parte do todo. Se um torrão de terra é arrastado para o mar, toda a Europa fica diminuída (...). A morte de cada homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade. Por isso não pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por você.”

Hoje estamos num mundo diferente daquele do século 17 de Donne, ou daquele da primeira metade do século 20 de Hemingway. Nem todos já perceberam isso - nosso governo infelizmente ainda não - mas nessa época de mudanças climáticas globais os “problemas ambientais” deixaram de ser uma preocupação lateral para ser o problema central da humanidade, aquilo do qual todo o resto, inclusive obviamente a resolução dos problemas sociais, vai depender. A morte de cada animal ou planta, de cada espécie ou ecossistema, também nos diminui. Estes sinos também dobram por nós.