Por quem dobram os sinos da conservação PDF Imprimir E-mail
11/11/2009, 09:43
A cena final da obra-prima “Por quem os sinos dobram”, de Ernest Hemingway, é um daqueles momentos da literatura que se tornaram inesquecíveis, porque mexem fundo com a nossa emoção. Como frequentemente acontece nos grandes livros, há tramas distintas que se desenvolvem isoladamente ao longo do livro todo, e que só ali na cena final se encontram e revelam toda a sua riqueza de sentido. Em “Por quem os sinos dobram”, o personagem principal é Jordan, um americano que luta como voluntário do lado dos republicanos combatendo os nacionalistas na guerra civil espanhola, e que é a personificação do idealismo e da coragem. Mas Hemingway escrevia bem demais para cair na armadilha maniqueísta de pintar um conflito humano dividido em dois lados estanques, dos bons e dos maus. Dentro do lado republicano há o rancoroso Pablo sabotando os esforços de Jordan. Do lado nacionalista, acompanhamos ao longo do livro inteiro – sem que saibamos bem porque - os passos de um certo tenente Berredo, um personagem tão humano e idealista quanto Jordan, mas que as circunstâncias colocaram lutando pelo outro lado. Na tal cena final, Jordan, com a perna quebrada e sem poder escapar, aguarda escondido atrás de umas árvores, com a arma engatilhada, para pelo menos levar com ele o primeiro soldado nacionalista que aparecer. Mas o primeiro nacionalista que se aproxima, despreocupadamente, sem desconfiar da emboscada, é o tenente Berredo. Vem um nó na garganta, do qual não conseguimos nos livrar. Poucas vezes a falta de sentido do conflito humano foi tão bem demonstrada pela literatura: há gente bem intencionada em toda parte, mas as nossas ideologias podem nos jogar uns contra os outros.

Hoje se fala muito do conflito entre “o social” e “o ambiental”. Cada vez que ouço falar desse conflito me vem à cabeça aquele final de “Por quem os sinos dobram”. Sempre me perturbou muito o fato de existir tanto idealismo, tantas boas intenções dos dois lados, tanto daqueles que querem um mundo socialmente melhor como daqueles que querem conservar a natureza, e que no entanto haja tanto conflito entre os dois grupos.

A “sustentabilidade” pode ser a base para um acordo?

Paradoxalmente, muitos dos conflitos atuais vêm das “soluções mágicas” para negar que haja conflito, e das críticas a tais “soluções”. É o caso do chamado socioambientalismo, que tem defendido que se pode resolver problemas sociais com a utilização supostamente sustentável de recursos dentro de Unidades de Conservação. Adoraria poder me convencer disso, mas não consigo. O calcanhar de Aquiles do socioambientalismo, claro, é se as utilizações de recursos propostas são de fato sustentáveis, ou se isso é apenas pensamento desejoso.

Na maioria dos casos, a resposta verdadeira para essa questão seria “não se faz a mínima idéia.” Quando se diz que algo é sustentável, quase sempre o que se está dizendo na verdade é “estou fazendo menos estrago ambiental do que poderia estar sendo feito de outra forma”. Isso pode muito bem ser verdade (ou não, dependendo do caso), mas não tem nada a ver com ser sustentável. Sustentabilidade, por definição, implica em que os usos atuais de recursos não podem comprometer a disponibilidade dos mesmos recursos para as gerações futuras. No entanto, como já argumentei aqui mesmo em O Eco (na crônica “A tal da sustentabilidade”), sustentabilidade geralmente é apenas assumida, mas quase nunca é testada. Se o uso de qualquer “recurso natural renovável” é sustentável ou não, é uma questão demográfica a respeito da população biológica que é o tal “recurso”. Isso é óbvio, ou deveria ser, mas por alguma razão a demografia raramente é analisada antes de se dizer que algo é “sustentável”. Pior, nas poucas vezes em que é testada, a sustentabilidade assumida geralmente não é verdadeira.

No caso do socioambientalismo, a sustentabilidade via de regra é assumida com base em uma série de pressupostos – que populações humanas viviam em harmonia com a natureza no passado pré-tecnológico, que as condições com as quais elas se relacionam com a natureza hoje são similares às do passado, que se trata de economias “tradicionais” e não de economias de mercado, e por aí vai. Esses pressupostos são essencialmente ideológicos, mas infelizmente tem pouca ou nenhuma base na realidade. Na maioria dos casos são demonstravelmente falsos. A ideologia, aqui, é má conselheira.

Se a tão falada sustentabilidade é um gigante de pés de barro, o efeito disso sobre a biodiversidade que fornece os tais “recursos” é óbvio, mas os efeitos sociais não são menos trágicos. Estimular pessoas a depender de uma exploração de recursos que seja na verdade insustentável não é bom para ninguém, muito menos para as próprias pessoas. Empurrar populações para dentro de Unidades de Conservação, para uma apropriação para poucos do que na verdade é de todos, só disfarça a incapacidade de nossos governantes de oferecer verdadeiras oportunidades para as pessoas. Além disso, na ausência de sustentabilidade, isso só representa o que Tim Flannery chamou de “comer o futuro”, com paliativos imediatistas e populistas que só empurram o problema para a frente e o tornam cada vez maior. “Ah sim, sempre vai haver mais uma Unidade de Conservação para invadir.” A velha e boa mentalidade de fronteira. Mas que visão curta depender desse tipo de solução para resolver nossos problemas sociais em pleno século 21!

O socioambientalismo no fundo tenta revogar o velho provérbio, “Você não pode ter o bolo e comê-lo”. Para muita gente, essa é uma tentativa bem intencionada e sincera de resolver os problemas sociais. Resolver esses problemas tem que ser um objetivo central e crucial para todos nós, sempre, mas discordo que essa seja uma forma verdadeira de resolvê-los. Concordo que, no fundo, não precisa mesmo haver conflito entre a conservação e o social – mas para isso, temos que pensar numa escala maior, no espaço e no tempo.

Conflito ou não, uma questão de escala

Se pensarmos bem, se há ou não conflito entre a conservação e o social é uma questão de escala. Em pequena escala de espaço ou de tempo, é óbvio que tende a haver conflito sim. Toda a história humana é repleta de devastações ambientais feitas por povos tentando elevar seus níveis de vida através da exploração local e imediatista de recursos naturais. Como foi expresso com perfeição pelo ecólogo-filósofo argentino Adrian Monjeau, trata-se do predomínio do “eu(ou nós)-aqui-agora” sobre o “todos-em todos os lugares-amanhã”.

No entanto, se olharmos numa escala maior, o conflito imediatamente desaparece. Ao usar de forma imediatista e irresponsável seus recursos naturais, cada civilização só tende a destruir os serviços ambientais - fertilidade dos solos, qualidade da água, florestas, e até o próprio clima - os quais a biodiversidade nos dá, de uma maneira nem sempre óbvia. Com isso, destrói as bases de sua prosperidade e de seu bem estar social, o qual depende, em grande escala espacial e a médio e longo prazo, desses serviços. Este ponto foi demonstrado com brilhantismo no livro “Colapso”, de Jared Diamond, publicado em 2005.

“Colapso” provocou uma imensa revolução na nossa visão da história, ao mostrar que o desaparecimento de várias das grandes civilizações do passado foi devido à sua incapacidade de lidar com os problemas ambientais que elas mesmas causaram. No entanto, entre os exemplos de “Colapso” mostrando que o bem-estar ambiental e o social caminham juntos, um dos mais perturbadores é bem atual: o da ilha de Hispaniola.

Hispaniola: uma ilha e dois destinos

Hispaniola é uma grande ilha do Caribe, dividida entre dois países: Haiti e República Dominicana. Hispaniola havia sido notada pelos primeiros europeus que a viram no século 16 como uma ilha coberta por florestas exuberantes. Os destinos dos dois países que a dividem, que de início pareciam similares, começaram a divergir mais marcadamente a partir do início do século 20, quando a República Dominicana começou a tomar uma série de ações reais de conservação, tais como uma legislação proibindo contaminação dos rios em 1901, e a criação de várias reservas naturais a partir de 1927. Tais ações ganharam um maior impulso a partir da década de 1960, quando entre outras coisas foi reprimida a exploração madeireira ilegal, foram criadas leis protegendo as matas de galeria e foi banida a caça. O sistema de Unidades de Conservação do país foi maciçamente ampliado e hoje compreende 74 reservas, cobrindo cerca de um terço de toda a área do país.

Enquanto isso, do lado do Haiti, nada. O Haiti prosseguiu com uma receita econômica velha conhecida nossa, que inclui rápido desmatamento e plantação de algumas commodities agrícolas, principalmente café e açúcar. Além disso, no Haiti a fonte de energia mais utilizada é o carvão, o que aumenta ainda mais a pressão sobre a pouca mata remanescente. O sistema de Unidades de Conservação do Haiti é ínfimo, contando com apenas quatro pequenas reservas, que garantem ao país apenas 1% de cobertura florestal. O resultado de tudo isso tem sido erosão, perda de solos férteis, e uma imensa degradação ambiental em geral.

Se uma imagem vale mil palavras, uma imagem de satélite de Hispaniola no Google Images vale um milhão de palavras. Dê uma olhada, porque essa é uma imagem impressionante: uma ilha com uma metade marrom (Haiti, a oeste) e uma verde (República Dominicana, a leste). O resultado social de tudo isso, depois de um século, é claro. A República Dominicana é um país relativamente próspero, para os padrões latino-americanos, com um nível de vida muito similar ao do Brasil. O Haiti é o país mais pobre do hemisfério, com uma miséria que parece não ter solução, fome, doenças devastadoras, e uma violência urbana fora de controle.

Que receita nós queremos para a nossa sociedade? Que futuro queremos? Em pequena escala a conservação e o social podem parecer estar em conflito. Em grande escala, no espaço e no tempo, não estão. Será que vamos continuar não aprendendo as lições da história?

O mundo melhor será um só

Não se engane de que a luta pela conservação não seja também uma luta por um mundo socialmente melhor. Conservar a natureza implica em querer um mundo melhor para todos, e não sempre para alguns tentando resolver seus problemas à custa do que é de todos. Precisamos de toda a boa vontade que exista na humanidade, porque um mundo ambientalmente melhor será também um mundo socialmente melhor. Nossos destinos estão todos ligados, como na brilhante passagem do poeta irlandês John Donne que deu o título ao livro de Hemingway:

“Nenhum homem é uma ilha; cada homem é um pedaço do continente, uma parte do todo. Se um torrão de terra é arrastado para o mar, toda a Europa fica diminuída (...). A morte de cada homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade. Por isso não pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por você.”

Hoje estamos num mundo diferente daquele do século 17 de Donne, ou daquele da primeira metade do século 20 de Hemingway. Nem todos já perceberam isso - nosso governo infelizmente ainda não - mas nessa época de mudanças climáticas globais os “problemas ambientais” deixaram de ser uma preocupação lateral para ser o problema central da humanidade, aquilo do qual todo o resto, inclusive obviamente a resolução dos problemas sociais, vai depender. A morte de cada animal ou planta, de cada espécie ou ecossistema, também nos diminui. Estes sinos também dobram por nós.
Comentários
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Muito Bom!
Cássio Rabuske da Silva 11/11/2009 09:19:18

Meus parabéns! Gostei muito do paralelo com o livro de Hemingway e da citação
do filósofo Monjeau. Os filósofos tem sido pouco empregados em artigos de
biólogos, e a visão histórica, tão importante, muitas vezes
inexiste.
Parabéns! Artigo para ser lido e difundido!
Parabéns
José marques Porto 11/11/2009 11:01:24

Professor desde o primeiro artigo seu que li no O ECO fiquei feliz por ver que
gente tão brilhante pensa como eu. Parei de me sentir sozinho. Parabéns seu
artigo serviu pedagogicamente para nosso trabalho, bem como, para
contrabalancear como o artigo do eucalipto.
Haiti x Rep. Dominicana
Aldem Bourscheit 11/11/2009 11:40:49

Imagens da Nasa para a fronteira entre os dois países em
http://svs.gsfc.nasa.gov/vis/a000000/a002600/a0026 40/
Paulo Drummond 11/11/2009 12:25:56

Excelente! Vale a pena ler artigos como esse, pra entender o andar da carruagem
e o caráter de seus cocheiros.
Vida inteligente no OECO
Ciro Siqueira 11/11/2009 15:27:07

Tô chocado!!
José Netto 11/11/2009 17:02:41

Muito feliz com as palavras de Fernandez.Coisa fina "filosofia,literatura e
conservação".
Futuro catastrófico
Walter Miguel Kranz 11/11/2009 19:17:40

Para entender as Dyckia (Bromeliaceae) estive lendo muito sobre os climas do
passado no Brasil. Em resumo, é o seguinte: o aquecimento global que está
acontecendo é cíclico e natural, tem, ou melhor teve no passado uma duração
de cada ciclo de cerca de mil a quato mil anos. Aquelas mudanças climáticas
eram lentas, de maneira que toda a vegetação se adaptava. Agora com
destruição intensa dos habitats e o grande volume de carbono fóssil
(combustíveis) lançado na atmosfera faz com que os fenômenos atmosféricos se
intensifiquem acelerando o processo de aquecimento com séros danos à pasisagem
e de inimagináveis consequências para as populações humanas.
É possível
letícia pinheiro 12/11/2009 05:49:00

O que eu mais gostei desse texto, é que, ele deixa claro que é possível
conciliar preservação e bem social. A questão socioambiental, não pode mais
ser dissociada, e tudo depende de metas objetivas, planejamento a médio e longo
prazo. E responder com responsabilidade e consciência de que fazemos parte de
um todo: o que queremos para o nosso futuro?
Conservação e idealismo
Mario Cohn-Haft 16/11/2009 07:44:26

Fernando, meu herói, muito linda essa sua matéria sobre a conservação: uma
visão de gente madura sobre a não-diferença entre bem social e ambiental.
Muito gratificante ver o texto costurar vozes antigas (a do Donne, por
exemplo--não tô te chamando de velho, veyo) falando o que toda geração
deveria saber sobre temas universais. Gostei especialmente da referência ao
idealismo, dando o direito para os "oponentes" também a quererem o bem.
Mas é justamente aí que questiono a nossa capacidade de atingir eles e não
estar simplesmente "preaching to the choir". Suspeito que há de fato 2
tipos de ideólogo, que partem de pressupostos ideológicos (fés) diferentes.
Sinto q nós naturaloides acreditamos q o mundo (ou universo) tem limites, tem
leis naturais acima de nós e que não reconhecer e respeitá-las seria tentar
negar o imutável e seria uma receita para desastre. Os "outros",
tipicamente das ciências exatas ou áreas sociais, acreditam q o único limite
é a imaginação humana e tomam cada novo problema como um novo desafio,
inspirador para uma mente ágil e bem intencionada. Quanto mais inteligente,
mais ferrenho se torna o "inimigo", pois constrói uma lógica
internamente coerente partindo de uma "religião" conflitante à nossa.
Às vezes sinto que é uma espécie de guerra santa, com um leque de perfis de
gente muito parecido dos dois lados. Como o biólogo convence o engenheiro q é
melhor deixar floresta em pé do que semear nuvens? argumentos econômicos?
estéticos? Às vezes sinto q a conquista (se é q vitoria é possível) será
feita pela "igreja" que oferece as melhores festas. A religiao q só
fala q vamos pro inferno tende a perder fiéis. Acho que temos, entre todos os
outros deveres nossos, também que mostrar q entender a natureza, desvendar
mistérios ao nosso redor, viver em consoância com uma filosofia, dá um baita
barato imbatível e sem ressaca!
E as populações tradicionais vão prá onde?
Marcelo Pontes Monteiro 13/11/2009 11:03:19

Faltou responder a esta pergunta. Pois se não houver uma solução para esta
questão o conflito continua. Será que dá para conseguir emprego decente para
todos nas cidades?
Somos todos tradicionais
Luiz Oliveira 14/11/2009 20:12:56

Parabéns pelo artigo, que consegue expor uma questão complexa em bases que
tornam possível um debate desapaixonado, permitindo manifestações muito
interessantes, como a colocada pelo Sr. Mario Cohn-Haft quando pergunta, se
preservar florestas seria melhor do que semear nuvens.
Para essa questão
retórica, minha resposta seria: Devemos preservar a floresta, porque ela faz
bem para a minha alma e meu espírito. Porque paisagens naturais são
arrebatadoras e falam ao intimo de cada um de nós. Não importa que eu viva na
cidade, que raramente pise descalço no chão, que não viva sem luz elétrica
nem ar condicionado. Apenas saber que posso desfrutar ocasionalmente da
experiência de contemplar florestas, montanhas, vales, geleiras, pradarias,
vida selvagem em seu estado natural faz bem para minha alma, acalma meu
espírito. Estou certo que isso vale para todos nós. Nesse sentido, creio,
somos todos "tradicionais".
Acho, realmente, que os problemas
relacionados à pobreza, à falta de educação, saúde, de oportunidades e
"espaços vitais" de determinados grupos populacionais não tem
relação nenhuma com a manutenção de áreas protegidas. Acredito que esses
grupos acabam sendo massa de manobra de processos econômicos que os empurram
cada vez mais para a periferia (em todos os sentidos da palavra), apenas para
removê-los novamente quando sua presença já tenha criado uma situação
"de fato" sobre o território e, portanto, as condições para seu
aproveitamento econômico.
Então estaremos nós, os bem intencionados, lutando
a batalha errada, a batalha perdida, pois o verdadeiro inimigo vencerá sem ter
lutado...
Bravo
Denise 15/11/2009 14:29:56

Fernando, como sempre, um maestro com as palavras. Um dia, assim que crescer um
pouquinho mais (não tanto em tamanho, é claro), quero tentar me aproximar da
sua clareza, competência e humanidade. Seus artigos - e idéias - são para ler
e reler.
Por quem os sinos nunca dobram?
Francisco Pontual 16/11/2009 04:13:48

Salve Fernando!

Apesar da minha concordância quase plena com seus argumentos,
(e floreios ... rsrs), quando se trata da tal “ideologia socioambientalista”
considero fundamental tentar fazer uma distinção entre quem são os generais
de 10 estrelas e os soldados que de fato executam as tarefas impostas. Os
generais em sua perspectiva tomada, quase sempre, do interior de seus quarteis
institucionais (governamentais ou não) formulam as variantes da ideologia e
tomam decisões de como implementá-las no mundo lá de fora. Assim como em
todas as guerras, os oficiais bravateiam e se agridem verbal e
“civilizadamente”, mas quem é invariavelmente destroçado, na
implementação das tais ideologias, é a soldadesta que acaba induzida a
cumprir ordens. Portanto, na maioria das vezes, quem já estava dentro, invade
ou é deslocado para o entorno de reservas obviamente são estes e não os
formuladores das ideologias. Aliás, os policiais florestais, guarda-parques e
outros que entram em conflito com os “infratores” fazem parte da mesma massa
de manobra, só que a serviço do exército rival. O que acho importante no
momento é frizar que estes são apenas os peões no tabuleiro da confusão
político-ideológica.

Infelizmente, o Brasil oferece um exemplo em carne viva
do resultado da dilapidação cultural e infindáveis torniquetes
socio-econômicos que têm historicamente assolado os povos indígenas,
tradicionais, e comunidades rurais engajadas em agricultura familiar do mundo.
Sobreviventes fantasmagóricos de seguidos processos tipicamente coloniais,
moedores de carne e usurpadores de identidade, que se extendem até os dias de
hoje, quando somos tidos como uma nação democrática. Como tudo que está ruim
pode piorar, na segunda metade do século XX, um devastador asteróide, chamado
neoliberalismo, vindo de outra época mas revigorado por sua última passagem
pelos anéis de Chicago, chocou-se contra o mundo dos desvalidos. A mais pura e
miserável verdade é que, independente dos valores intrínsecos e inalienáveis
de todo esse contingente humano, mesmo comunidades isoladas da Amazônia estão
sendo contaminadas com a febre da economia de mercado. O estado autóctone foi
desmontado logo no primeiro contato, a condição de subsistência se manteve
pelos séculos subsequentes, e a catequese atual é baseada no mantra de um tal
de desenvolvimento sustentável. Um desenvovimento que se propagandeia social e
econômicamente justo, orgânico, responsável, comunitário, que não gera
dependência externa e minimiza impactos. Mas que ainda se baseia em comércio
de produtos. Um comércio que depende de instituições para costurar a frágil
teia que liga a matéria prima ao produtor e o produto ao consumidor.
Curiosamente, estas mesmas instituições formaram-se quase todas na atmosfera
pós-impacto do tal asteróide neoliberal. Portanto, nos últimos 500 anos,
generais mudaram a cor de suas bandeiras e comandaram meia-volta umas tantas
vezes. Quanto à soldadesca, esta sempre foi e será arregimentada para marchar
e por em prática os novos planos de guerra.

Como sabemos, independente dos
motivos ou orientação dos atacantes, todas as armas sempre foram apontadas e
disparadas contra um único alvo. Tal como um paredão de fuzilamento, quem tem
sido banhado de sangue e seiva é este planeta que teimosamente se mantém azul,
embora menos verde a cada dia. E quando se fala em proteger os recursos que
pertencem à biosfera (não a humanidade apenas!) considera-se que, em última
análise, os sinos dobram para todos já que cada um de nós deveria ter os
mesmos direitos e deveres. Embora aqueles que, historicamente, só tem sido
pisados não saibam, a eles também está reservado um pedacinho do céu. Bem
modesto é verdade, e bem no andar mais lá de baixo, meio perto do inferno, mas
fazer o que? O colapso de várias civilizações devido ao mal gerenciamento e
consequente falência de recursos naturais como descrito no best-seller de
Jarrod Diamond pode ajudar a entender melhor a responsabilidade de generais e
soldados diante dos acontecimentos. O que colapsou de fato nas sociedades
descritas foi sempre a estrutura (ideológica e socio-econômica) criada e
mantida pelas camadas hierarquicas mais altas. Por vezes, levando consigo todos
os que estavam abaixo. Um aspecto que Diamond deixa de analisar no exemplo Maya,
é como a pirâmide da hierarquia social pode, por vezes, perder o topo e
continuar muito bem sem ele. Ou seja, quando se diz que a civilização Maya
colapsou não se faz referência aos vários povos Maya que vivem até hoje no
Mexico, Belize e Guatemala, mantendo sua cultura, falando as suas línguas e
praticando suas atividades de subsistência. Assim que se viram livres de seus
reis, nobres e sacerdotes e toda a pujança (e tresloucada gastança de recursos
naturais e humanos) da época das cidades e templos, a “soldadesca” voltou
para as suas atividades de sobrevivência sem mais ter de obedecer a comandos
ideológicos suicidas.

Precisamos rever paradigmas e prestar muita atenção
nos vários contextos em que as reservas estão sendo criadas, abandonadas,
invadidas e depredadas. Precisamos, acima de tudo, fazer um esforço pra
identificar quem está de fato travando essa guerra ideológica entre
conservação e socioambientalismo. O absurdo bordão extra-oficial dos últimos
tempos do Serviço de Proteção ao Índio (“índio bom é índio morto”)
agora parece ter sido atualizado para “comunidade rural boa é a que migra pra
cidade (e morre)”. A profetizada Transição Agrária nunca resolveu a
questão fundamental - se todos deixarem o campo quem vai alimentar o mundo?
Dados da FAO comprovam que ainda é a agricultura familiar que alimenta o mundo.
Que aliás continua sendo escurraçada pelo apoiadíssimo agribusiness (pra
produzir soja pra alimentar boi gringo, biocombustíveis pra manter os padrões
de consumo, etc). Quem quiser acreditar em fazendas industriais produzindo
gêneros alimentícios para a subsistência de uma nação que faça uma
doação pra Fundação Bill e Melinda Gates em sua cruzada pela nova
revolução verde na Africa, movida por sementes geneticamente modificadas,
fertilizantes e agrotóxicos de última geração ( a maioria feitos nas
indústrias que o Bill tem controle acionário). A propósito, os Gates também
estão preocupadíssimos com a necessidade de criação de novas revervas
africanas para a proteção de recursos naturais.

Abraços, Chico Pontual
Quase lá!
Wilde Itaborahy 17/11/2009 13:07:10

Acho que os 10% que faltaram pro Fernandez quase foram supridos pelo comentário
do Mario e seu português sempre impecável. Queria só dentro do que vejo todo
dia, tentar por mais 1% no bolo.
Penso que dentro desse paradigma que vivemos
realmente é difícil acreditar em sustentabilidade, principalmente na Mata
Atlântica. Mas para muito além do romantismo, devemos admitir que algumas
pessoas já quebraram esse paradigma. Os "agrofloresteiros" já não
pensam em sustentabilidade de uso de recursos e sim na capacidade humana de
contribuir para gerar recursos naturais. Produzem assim, alimento, solo,
florestas, dignidade, consciência política, cooperação, e um novo paradigma
que infelizmente a Universidade não vem dando conta de acompanhar.
Tudo isso
sem mágica, muitas vezes sem apoio. Agrofloresta, sei bem, não resolve tudo,
mas é outro paradigma que precisamos tentar compreender.
Ecoturismo Vs conservação
laurent 17/11/2009 17:24:11

 A verdadeira conservação, trabalho e investimento deveria ser feito nas
bordas e nas regiões limítrofes e já mais degradadas, recuperando estes
habitats e atraindo a fauna para que ela possa voltar a ocupar estas
áreas.
 Reflorestar, plantar mudas nos barrancos de rio e fiscalizando
melhor as agressões que são mais freqüentes nestas regiões de mais fácil
acesso por estradas, educando e ajudando os nativos.

 Com esse cinturão
verde em volta da região, o ecoturismo seria mais facilmente trabalhado com
acessos mais fáceis, com preços mais em conta para turistas, mão de obra mais
disponível e qualificada por estar mais perto das capitais, a arrecadação
seria reinvestida na manutenção destes projetos, e possivelmente teria mais
incentivo do governo. Haveria um controle mais eficaz do que entra e
sai.
 As regiões centrais e mais afastadas e selvagens onde tem sido
compradas mais terras são as que deveriam ser deixadas sem interferência
humana, porque lá não há o que consertar sendo o berço da fauna, deixando o
de preferência intacto.
 Nos 17% de cobertura florestal já desmatados no
pantanal por exemplo é justamente lá que os investimentos e trabalho de
conservação deveriam se concentrar com muito mais empenho.
 O que
acontece é que as entidades de preservação querem se isolar no seu éden
privativo para não serem perturbados, (biopiratas) e querem desfrutar de uma
natureza intacta exatamente como qualquer outro, apenas justificando um emprego.

 Não é preciso ir longe e nem pagar mais caro para ver a fauna principal
do Pantanal, há regiões que numa distancia de apenas 80 km do aeroporto de
Cuiabá se encontra em pleno cerrado pantaneiro e onde se observa grande
quantidade de fauna nas pequenas e raras aguadas.
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