Transporte público não é solução. Ou é? PDF Imprimir E-mail
03/12/2008, 10:00
“Carros elétricos, etanol e similares são remendos para o problema”, rebate o leitor Marcos Silvério, comentando a coluna da semana passada. “A solução (...) é o investimento em transporte público de qualidade (...) Os carros roubam espaço, tempo e saúde da população”. Adoraria concordar, não fosse o transporte público, com freqüência, o que o economês chama de bem inferior. Já explico.

Mas Silvério está certo ao afirmar que carros elétricos são uma solução “meia-sola”. Primeiro, porque representam pollution elsewhere (poluição gerada em outro lugar). Os elétricos zeram a poluição do cano de descarga, mas a deslocam para as usinas geradoras da energia que carrega as baterias, boa parte delas movida a óleo ou carvão. As baterias em si também são um problemão, já que o lítio tem alta e longeva toxicidade ambiental. Mas isso não anula outras vantagens do carro elétrico: silêncio; ar urbano de melhor qualidade e uma poluição que não sai por aí, sendo gerada no “varejo”, aonde quer que os donos vão. É possível  tratá-la em escala, tanto no local da fonte geradora, quanto na disposição de baterias

Se pararmos para pensar, carros são de uma ineficiência óbvia. Aquela tonelada e tal de lata fica parada a maior parte do dia. Pense quanto espaço de garagem e estacionamento é usado pelos carros. E quando o bicho anda, além de entupir as ruas, quase sempre seu espaço interno é subutilizado. Em cidades, áreas densas, o automóvel não parece fazer nenhum sentido. De fato, ele rouba tempo e espaço da população.

O problema é que a população é composta de indivíduos, e esses adoram carros. A prova mais recente é a explosão de vendas no Brasil, quando o crédito melhorou. Bem, nessa hora, entra o argumento do transporte público: as pessoas compram carros porque não têm alternativa disponível. Infelizmente, ele não é verdadeiro, porque  o transporte público é um bem inferior: quando a renda das pessoas aumenta, a quantidade demandada desses bens cai. Dou um exemplo de livro de Economia. Com mais dinheiro no bolso, as pessoas compram menos batata e mais proteína animal. No nosso caso, mais renda, significa menos disposição para usar o transporte público.

Em todo o mundo é assim. Não importa que o transporte público oferecido seja de primeira qualidade. O londrino deve ter acesso a um dos melhores sistemas públicos do mundo. No entanto, o trânsito no centro de Londres estava tão ruim que a cidade passou a cobrar um pedágio para dirigir nessa área. Seattle (Estados Unidos) é outro lugar em que o governo investiu em transporte de massa com poucos resultados. Mesmo o admirável sistema de trens da Europa Ocidental, é dependente de pesados subsídios. E essa regra parece ser generalizada: subsídios só adiam o abandono do transporte público. Será que existe algum país rico no mundo onde o número de carros per capita está caindo?

A maneira de racionalizar o uso dos carros e evitar que ganhem de goleada do transporte de massa, é penalizar as externalidades que geram. As principais são: emissões; trânsito (conte aí a dificuldade de estacionamento); e barulho. Acrescentaria na lista uma quarta categoria, mais sutil: a competição por status, que, muitas vezes leva a compra de carros grandes, os famigerados “utilitários”. Tudo isso tem que ser recuperado do usuário de carro. Quer um carro maior? Paga. Quer rodar? Paga. Quer fazer barulho? Paga também. Na verdade, cobrar por essas coisas não é um imposto, mas uma devolução aos demais cidadãos dos malefícios impostos a eles pelos usuários de carros.
 
Mudar a natureza humana é um projeto difícil. Indivíduos gostam de mais coisas. Deixar tudo na mão de planejadores também esbarra em comportamentos individuais, materializados em projetos ideológicos e de poder. A maneira mais neutra é lembrar que a liberdade de um termina onde começa a do outro. Deveríamos abordar os problemas causados pelos automóveis dessa mesma forma. Quando o limite da qualidade de vida dos outros é ultrapassado, que venha a conta.
Comentários
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Bicicletas, sempre!
Sílvio Tambara 08/12/2008 09:22:35

Concordo, mas as pessoas também gostam de bicicletas. A diferença é que para
carros se movimenta mundos e fundos, tudo é pensado para quem tem carro, ao
passo que a bicicleta é oficialmente desincentivada como transporte e vista
pelos governos apenas como um brinquedo. O que em si já é ridículo, posto que
é o veículo individual mais utilizado no país.
É sim a solução
Nitai Bezerra da Silva 09/12/2008 15:21:23

Transporte públic, uma solução comum que favorece a maioria. Vejam o que
estão fazendo para melhorar o nosso sistema de transporte público.
www.onibusrecife.com.br
Pegurier, concordo!
Ferdinando Filetto 13/12/2008 21:08:51

Concordo quando você afirma:"O problema é que a população é composta de
indivíduos, e esses adoram carros". E no Brasil mais ainda! Simbolo de
"status" e de comodidade, impregna a cultura consumista
"tupiniquim". Afinal, Airton Senna é mais venerado no Japão do que o
Pelé! A questão cultural sobrepõe a questão ambiental nestes termos. Mas tem
o exemplo de Freiburg na Alemanha, a "cidade solar", que também exalta
culturalmente o uso das "bikes" como meio de transporte. De forma
prática precisamos incrementar o transporte multimodal, buscando os meios menos
impactantes na modulação. Mas, considerando as vertentes "Nelson
Rodrigueanas" do processo: "Sou, eu e meu carro"! Precisamos de
psicólogos e não de engenheiros! Tenho dito!!! Sucesso!!!
concordo em parte
Henrique Torres 24/12/2008 16:47:56

Pergurier, você está certíssimo quando afirma não ser suficiente investir em
transporte público para diminuir o uso do automóvel. Os "pesados
subsídios" ao transporte público, como você diz (que não são tão
pesados assim: isso depende do país; os trens regionais não são subsidiados.
E se fossem, qual o problema? Existe saúde pública de qualidade sem
subsídio?) têm um efeito inegavelmente positivo, mas não conseguem evitar os
congestionamentos. Um exemplo, que você citou: na área onde foi iniciada a
cobrança do pedágio em Londres, apenas 10% dos deslocamentos eram em
automóvel, mas mesmo assim a velocidade média era de 11 km/h. Por isso foi
necessário o pedágio. Outra coisa: dizer que as pessoas amam o automóvel não
explica tudo. Existe um bombardeio de marketing em favor do automóvel e de
menosprezo ao TP. Margaret Thatcher já dizia que quando um homem se vê dentro
de um ônibus aos 26 anos, ele pode se considerar um fracassado. E essa imagem
não é à toa. Todos os governos - com raras exceções - beneficiam o
automóvel como "gerador de empregos" (Lula), "sinal de
progresso" (Collor), etc. E para isso eles subsidiam pesadamente a
indústria automobilística. Os EUA não seriam tão "autocêntricos" se
Eisenhower não tivesse construído o sistema de rodovias interestaduais (o
maior investimento em obras públicas naquele país) e se não fossem dadas
todas as facilidades para os automobilistas (D. Shoup estima os subsídios ao
automóvel apenas com o estacionamento gratuito em mais de 300 bilhões de
dólares). E não são apenas os governos federais. Basta ver a diferença de
tratamento que qualquer cidade brasileira dá ao automóvel e ao TP. Para ficar
no exemplo do Rio: por exemplo, as famigeradas "faixas reversíveis de
tráfego", que jogam mais carros no Centro a cada dia, enquanto os usuários
dos ônibus sofrem parados no trânsito. As calçadas ridiculamente estreitas,
enquanto todo o espaço é dado aos carros (quando as próprias calçadas não
estão tomadas por eles). E por aí vai. Por que ninguém fala nesses subsídios
ao automóvel? Basta começar a suprimí-los, que a coisa já melhora; e, é
claro, com pedágio, cobrança de estacionamento a tarifas realistas (2 reais é
mais barato que uma passagem de ônibus). Etc, etc. Mas o importante é que
você tocou muito bem nesse ponto e espero que continue. Um abraço e bom Natal.
Transporte público: uma solução e não A solução
Eduardo 09/02/2009 06:15:58

Concordo com a coluna!

A poluição são as pessoas, e pessoas gostam de
carros. O transporte público é uma alternativa interessante, mas não é a
ÚNICA solução. Sem mandar a conta das externalidades negativas do transporte
privado para quem o usa, o transporte público não tem como dar
certo.

Pedágios urbanos, impostos sobre emissões e poluição (aqui e em
outros lugares), etc. são medidas complementares (e fundamentais) ao transporte
público.

Que se calcule quanto custa à sociedade eu ir de carro do ponto A
ao B no horário X, e me mandem a conta! Eu decido se vou de carro, moto,
bicicleta a pé ou de transporte público. Talvez, o ideal fosse q cada carro
tivesse um chip q registrasse distâncias, trajetos, horários e datas. No final
do mês ou ano, vem o IPVA ajustado para o quanto eu andei. Em outras palavras,
um pedágio universal.

E para o Henrique q disse: 'E no Brasil mais ainda!
Simbolo de "status" e de comodidade, impregna a cultura consumista
"tupiniquim"', eu diria q carro é símbolo de status em qq lugar! Na
URSS, se pagava uma fortuna por um par de calças jeans durante o
comunismo.

Consumismo é só uma das formas de ostentação (vaidade),
características inerentes ao ser humano. Não são algo exclusivos da "
cultura tupiniquim" ou do capitalismo.

Por isso, acho q é melhor tirar
vantagem da natureza humana (com incentivos) do q tentar reprimi-la.

Abs
MOTO 4
ANDRE 30/05/2009 04:08:44

A MOTO 4 PODE SER POLUENTE, MAS E MUITA FIXE!!!
Concordo
silvio 17/06/2009 14:42:59

Hoje em dia nos seres humanos estamos usando vários carros, movidos a gasolina.
Se nos utilizássemos carros elétricos os problemas iriam ser levados a outro
“lugar”, seriam levados as usinas que carregam as baterias que boa parte
delas é movida a óleo ou carvão então essa solução seria boa se não fosse
pela parte das baterias que teriam que ser carregadas, e também as baterias
liberam lítio gerando toxidade ambiental.
Bom o problema é que a sociedade
é composta por indivíduos e esses adoram os carros, e esses indivíduos estão
comprando cada vez mais carros, a prova disso e a explosão de vendas depois que
o crédito melhorou. As pessoas compram carros porque não têm alternativa
disponível, mas isso não é verdade os transportes públicos são poucos mais
eles tentam ser o mais confortável possível, se o estado comprasse mais
ônibus e incentivasse a população a usar os transportes públicos com mais
freqüência toda essa poluição seria menor.
Sobre trilhos -solução
Marcos Ribeiro 31/01/2010 13:58:41

Brasil é pais dos ônibus, infelizmente.Em varios paises é transporte
auxiliar, rodando até tres quilometros e aqui roda 50.Calorentos roda aos
trancos e solavancos, anda e para, zoeirento estresse.Metrô, VLT é o
principal, estrutural,roda suave, conforto do rolamento sobre trilhos, qualidade
de vida,rápido não poluente, para a cada 800 metros,alta capacidade e de
primeiro mundo e se for refrigerado melhor.
Algumas cidade da Europa a passagem
é subsidiada o usuario paga um terço os outros dois os empresarios e
governo.Em cidades menores é gratis. Acredite! O imposto da prefeitura paga o
serviço dos ônibus dos seus cidadãos.O modelo de TP para o Brasil é de São
Paulo com metrô e não Curitiba e o Rio está no fim da linha.Me perdoe.Chegue
rápido,vá de trem.
Cadaverico 05/03/2010 10:04:17

Não tem que criar novas formas de complicar o transito já difícil, tem que
facilitar o trafego para quem s dispuser a mudar os hábitos, como um amigo já
mencionou em comentário anterior, tem que ter coragem, coragem de fechar vias a
determinados veículos, criar faixas exclusivas e baratear o custo do transporte
coletivo para que este se torne mais atrativo do que o conforto de estar só em
seu carro, em uma fila gigantesca de transito lento. Há também de se investir
em educação e conscientização, como ouvi outro dia de um usuário de
transporte coletivo que deixa seu carro em casa e vai de ônibus ao trabalho,
que o usa para esse fim é egoísta, pois em sua maioria os carros andam com uma
só pessoa, conforto e espaço, já no transporte coletivo, apesar de sempre
estar cheio estimula o convívio em sociedade. Essa história vai longe...
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