Enterrem minha consciência bem longe deste rio PDF Imprimir E-mail
Paulo Brack*   
03/02/2010, 13:16
A emissão da licença prévia, concedida pelo Ibama neste dia 1º de fevereiro de 2010, para a maior hidrelétrica da Amazônia, e a terceira maior do mundo, a usina de Belo Monte no rio Xingu, deixou muitos ambientalistas transtornados. Trata-se, talvez, da pior notícia do final dessa década. Foi anunciada, justamente, três dias após o término do Fórum Social Mundial “Um Outro Mundo é Possível”[?]. Combinou com o momento ainda de ressaca da reunião frustrante de Copenhague, onde os governos se escaparam de enfrentar, com compromissos, um dos maiores dramas da atualidade: as mudanças climáticas. Pior ainda, coincidiu com o início das comemorações de 2010, o Ano Internacional da Biodiversidade, da ONU.

A situação já era mais ou menos esperada, desde o afastamento do ex-coordenador de licenciamento do Ibama, Leozildo Benjamin, em novembro último, quando as enormes pressões do Ministério de Minas e Energia (MME) e da Casa Civil não obtiveram resultado na liberação da licença para que a hidrelétrica fizesse parte do leilão de energia previsto para o fim de ano passado.

O governo brasileiro, por meio de seu Ministro de Meio Ambiente, Carlos Minc, de forma patética - maculando sua longa trajetória de ambientalista e político nessa área - materializa a economia do “vale tudo por dinheiro”, justificando que serão cobrados cerca de 1,5 bilhões de reais e 40 medidas em compensações ambientais (ou pseudocompensações?), a uma série de danos, ainda com magnitude incerta.

Com a licença concedida, ficou assegurado o leilão da segunda maior hidrelétrica brasileira (11 mil megawats), e a maior do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), para alegria de Edison Lobão, ministro do MME, da super Ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (a mãe do PAC) e das grandes empresas e empreiteiras de megaobras no Brasil. Felicidade, da mesma forma, para as mesmas empresas imediatistas que financiam as campanhas eleitorais milionárias, com volumes de dinheiro “nunca vistos antes neste País”.

Por sua vez, se aprofunda o “faz-de-conta” no licenciamento ambiental do país, onde 99,9% dos empreendimentos ganham o OK dos órgãos ambientais, independentemente da precaução e a provável extinção de espécies, principalmente peixes, plantas e outros organismos de corredeiras e rios caudalosos, processo teoricamente vedado pela Constituição Federal. No outro lado, resta a profunda tristeza e a indignação para os povos indígenas, ribeirinhos da Amazônia, ambientalistas e demais membros da sociedade civil, que lutam há mais de 20 anos contra este projeto monstrengo, representado por Belo Monte. Alguns destes já chamavam o projeto de “Belo Monstro”.

O restante da sociedade quiçá comece a perceber o desastroso modelo de “desenvolvimento” e de ocupação da maior floresta tropical do mundo. Restarão as ações na justiça, que são várias.
Tudo indica que, liberada a obra, estaremos reproduzindo as tragédias ambientais já conhecidas com as hidrelétricas de Tucuruí (PA) e Balbina (AM), com o aumento da destruição ambiental e a disseminação de doenças tropicais associadas a águas artificiais e paradas e a imigração de dezenas ou centenas de milhares de pessoas, de áreas já afetadas por doenças, ligadas às condições precárias do Arco do Desmatamento, que já assola a parte sul do Pará.

Com a hidrelétrica de Balbina, na década de 80, o rio Uatumã, próximo de Manaus, simplesmente morreu e emite altas cargas de gases de efeito estufa (GEE), principalmente o metano. Philip Fearnside, o segundo cientista mais citado no mundo com relação às mudanças climáticas, afirma que as hidrelétricas, nas condições atuais dos rios brasileiros, são verdadeiras “fábricas de metano”, emitindo quatro vezes mais GEE que termoelétricas a combustíveis fósseis. A Eletrobrás tenta desmentir, porém não encontra alguém a altura deste cientista para um possível “contraponto".

A ameaça para a floresta, os povos indígenas e os demais milhares de ribeirinhos do Pará, muito provavelmente, não se dará somente pelo alagamento de Belo Monte, em seu imenso lago (500 km2), que corresponde a cerca de 50 mil campos de futebol. Ou seja, não se trata exclusivamente de terras a serem alagadas, mas a conversão de ecossistemas lênticos (rios de águas correntes) do rio Xingu em lóticos (lago artificial). Tal mudança traria a extinção de dezenas de peixes de corredeiras, muitos desconhecidos, e o desaparecimento de outros que representam base alimentar estratégica para os povos da região.

A obra, prevista para uma das regiões com maior pressão de desmatamento (rios da margem direita do rio Amazonas), trará inevitavelmente incremento à ocupação trágica, já verificada para os municípios de Altamira e arredores, onde as grilagens e os conflitos de terra, aliados à derrubada da floresta e sua conversão em pastagens, atingem níveis astronômicos. Tal fato, relacionado à migração em massa para a Amazônia, já foi verificado em Rondônia, e denunciado por fiscais do Ibama daquele estado, quando constataram que a leva de migrantes e a atividades econômicas desordenadas, atraídos pelas hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, estaria ligado ao aumento local de desmatamento em mais de 600%, verificado em 2007.

Hoje, segundo documento sobre ameaças ecológicas na Amazônia, realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), existem 83 hidrelétricas funcionando, sendo planejadas outras 247 na região. Menos de 30 projetos podem afetar até 44 mil pessoas, sendo que mais de 40% das obras atingiriam terras indígenas. Para piorar a situação, muitas hidrelétricas interrompem os corredores ecológicos, obliterando as artérias de vida representadas pelos rios, onde as escadas de peixe não têm viabilidade alguma, ou também por meio de projetos associados, de eclusas e hidrovias, para a navegação de produtos de exportação do agronegócio, como grãos, principalmente a soja, e minerais, em detrimento da floresta. Fortalece-se, assim, o chamado agro-hidronegócio.

O ISA destaca também a falta de políticas públicas com relação às verdadeiras vocações da região. Segundo esta entidade, as políticas públicas buscam atender demandas externas e não as da própria população amazônica, por meio da implantação de grandes projetos de infraestrutura, prioridade dos governos para a região há décadas, resgatando projetos do regime militar. “O Estado está presente na Amazônia, mas de forma esquizofrênica: enquanto tenta, a muito custo, tirar do papel ações ainda incipientes de controle do desmatamento, financia – por meio de instituições como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), outros bancos regionais e estaduais – atividades que estão destruindo a maior floresta tropical do planeta".

Os programas governamentais, em especial o PAC, não têm a mínima compreensão da real sustentabilidade ecológica e o papel estratégico nos âmbitos climático, econômico e socioambiental da floresta amazônica. Não interessa aos governos e aos grandes conglomerados que explorarão a energia desta nova usina, os direitos dos indígenas, a extinção de espécies e o efeito dominó de degradação representado por mais uma obra faraônica no coração da Amazônia, já ferida. No caso do PAC, a concepção de desenvolvimento sem sustentabilidade é ilustrada nos documentos oficiais, quando a palavra “ambiente”, no sentido ecológico, praticamente é substituída pela expressão “ambiente de investimentos”.

O verdadeiro entrave para a redenção deste país não é a demora ou complicações nos processos de licenciamento ambiental e sim a velha concepção do crescimento econômico, onde a biodiversidade, ainda muito desconhecida, e as culturas milenares locais não valem nada. Sem raízes, tudo perde seu sentido. Infelizmente, para aqueles que ambicionam poder econômico e/ou político, e que se apoderam dos mecanismos de Estado e subjugam os demais, tudo vale, menos o diálogo, o respeito à democracia e à natureza.

A energia deveria ser um bem de interesse público e não uma mercadoria. No Brasil, parece que acontece o contrário. Desde o governo FHC, quando das privatizações, mais de 70% da produção e distribuição de energia está nas mãos de grandes empresas privadas, nacionais ou multinacionais. Nossa energia e nossa água acabam indo para exportação de produtos com baixo valor agregado. O atual modelo do setor é centralizado em grandes obras, fato que invariavelmente traz também imensos impactos ambientais.

Estamos consolidando no Brasil um modelo de mercado, onde nossos rios são leiloados e nossa sociobiodiversidade negligenciada e ameaçada.  Colocamos em risco a maior floresta tropical do mundo para ressuscitar um modelo de gigantismo do crescimento econômico, concentrador, que surgiu na última década de 70, porém com métodos autoritários e de dissuasão que deixariam os ex-governantes militares com inveja.

* Paulo Brack é biólogo, professor do Instituto de Biociências da UFRGS e membro da coordenação do Ingá – Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais, entidade filiada à APEDEMA-RS.
Comentários
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Lembram do rio Madeira? e da Mata Atlântica?
Liliani 03/02/2010 14:06:50

Estimado Paulo, estou ainda perplexa com a notícia, revoltada. Embora esperada,
não imaginava que ia ser assim tão cara de pau. Seu texto dá um panorama
excelente desta desgraça no Pará e outras tantas. Sempre temos uma esperança,
mas quem é que vai impedir estes grandes financiadores de politicagens? E lá
vai a máfia matar o rio Xingu para manter sua laia no poder...Como impedir
Dilma? É impressionante a capacidade a super chefe tem de fazer acontecer
qualquer empreendimento de mega impacto, de ressuscitar projetos da ditadura, de
passar por cima de tudo e de todos, nada impede o que eles querem fazer. 247
projetos!? é de chorar! Isso é autocracia sob a chancela de uma diabólica
criação: esse pacto de acelaração do caos. Não vai ser fácil com estes
"lagos" de dinheiro para financiar a campanha deste ano. Não dá nem
tempo de pensar em algo, e lá se vai outro projeto ilegal e outro e outro, e
já nem lembramos mais do rio Madeira!!! O Brasil nunca esteve em mãos tão
destrutivas e inconsequentes, é imcompreensível o que está acontecendo. Aqui
no litoral do Paraná estamos mal com o pedacinho estreito de Mata Atlântica
que sobrou. É porto público, é porto privado, rodovias, indústrias do
pré-sal se instalando, e quando vamos as audiências quase somos linchados pelo
povo, sedento por "progresso", porque se compra tudo... vamos indo muito
mal... bem triste!
petistas: militantes ou militares?
Kennedy Road 04/02/2010 06:26:24

A pior ditadura que este país sofreu foi a partir de 2003. Este governo nunca
respeitou a vontade da população. Sempre atropela como atropelou o IBAMA
quando da divisão recente. Os militares foram "truculentos"? Os
petistas são muito mais pois têm como base a mentira e a venda do país para
benefício de seus próprios bolsos. São falsos comunistas que vestiram a
casaca do capitalismo e não entendem absolutamente nada do que disse Karl Marx.
Fazem o contrário. E por aí vai... qual é a importância da Natureza intacta?
Para eles, nenhuma. Não conseguem compreender o oroboros porque "tudo que
você faz, um dia volta prá você". E a Natureza vai se vingar, aliás, já
está se vingando. Estas "vinganças" são resultado de acidentes ou
catástrofes naturais mas a ação do homem, irresponsável para com seus
próprios filhos, têm contribuído para o caos. O que mais me impressiona é
que a energia gerada será vertida para a indústria multinacional do alumínio,
bauxita, ferro, manganês...
Parabéns ao colega Biólogo Paulo Brack.
Compartilho com as ideias e os ideais. A sociedade brasileira precisa mesmo é
de educação. Os deseducados de Brasília não serão eternos.
belo monte ou belo monstro ?
Lais Catherine Sonkin 04/02/2010 06:30:50

Bom dia amigos do O Eco. A leitura do excelente artigo de Paulo Brack me faz
repassar em flashback tantos anos de militancia ambiental. Ainda guardo meu
botton amarelo com um sol onde tem escrito No Nukes e outro onde tem escrito
Energia Nuclear Nao Obrigado. Agora estou aqui lendo Paulo Brack e penso, pra
que piquete eu vou ? em que greve, em que passeata eu me encaixo ? vou apoiar a
geração de energia nuclear ? não sei mais o que fazer. isso ai é muito pior
que os militares, vem fantasiado de democracia, de desenvolvimento sustentavel.
Nosso presidente ganha uma medalha por dia. Nosso ministro do meio ambiente vai
testar sua biografia nas urnas brevemente. Que tenha sucesso. Mas pode ter
certeza que o perfil de seu eleitor mudou radicalmente.Sai o eleitor convicto,
consciente e entra o eleitor do midiatico.Voltando ao assunto Belo Monstro eu
tenho uma duvida a compartilhar:
A Associação Brasileira de Normas Tecnicas
lançou em julho de 2008 a NBR 14653-6 relativa a avaliação de bens: Recursos
Naturais e Ambientais. Esta Norma Tecnica que eu adquiri recentemente define os
procedimentos, metodologias e parametros a serem adotados na valoração de
recursos naturais. Se formos aplicar a norma ABNT na avaliação do valor da
area de abrangencia da Usina de Belo Monte, certamente o valor auferido sera
maior que o valor da energia a ser gerada daqui a x anos deduzidos os custos
sociais e ambientais alem do custo para as populações tradicionais que podem
chegar a extinção. Qual é o valor do nome XINGU ? considerando que até um
chinezinho quando estuda Brasil na escola, estuda a palavra Xingu, vamos
calcular este valor. Mas então, se qualquer avaliação pericial do valor do
dano ambiental, ou do valor de terras para desapropriação deve ser realizado
com base na NBR 14653-6 da ABNT, porque ainda nao foi feito pelo governo
brasileiro o calculo da avaliação ambiental da area de abrangencia de Belo
Monte ? ou porque este valor nao é apresentado a sociedade brasileira ? eu
quero saber quant vale no mercado internacional o nome XINGU !!!
Ricardo Lima 04/02/2010 08:22:27

Parabéns Paulo pela excelente matéria.
Estamos todos indignados com essa
atitude governamental.
O QUE FAZER ?
Luiz Tadeo Damaschi 04/02/2010 10:28:28

O que temos em nossas prateleiras, estantes, armários, bolsos, garagens.....
Livros, revistas, celulares, note book, fornos de micro ondas, motos, carros,
quadros, vasos, quantos pares de sapato temos em casa, quatro, cinco, quinze e
camisetas experimente contar quantas são.....
Nós super ecologistas,
consumimos igual a todos os outros ditos não ecologistas, queremos passear em
paraísos ecológicos, ainda preservados, quanto custa estes
deslocamentos......Temos que abrir mão do consumo, ter o dinheiro para consumir
e optar por não vaze-lo........
Enquanto não abrirmos mão do ego, nada
disso vai mudar....... Poderemos dizer que existem outras maneiras menos
impactantes de gerar energia.... Mas mesmos assim continuamos necessitando dela,
se não mudarmos o nosso modo de vida.
Aqueles que estão tendo seu primeiro
emprego ou mudando de faixa de consumo, não tem o mesmo direto que nos, de ter
tudo o que temos.......
Claudio Tulio J. Padua 04/02/2010 12:07:35

O problema é que muitos "ambientalistas" que se mostram revoltados, mas
resignados com esta situação, também são atores que alicerçam a pressão do
chamado agrohidronegócio ao se manifestarem de forma colérica contra a unica
alternativa de desenvolvimento sustentável que viria de encontro aos interesses
das populações ribeirinhas, tradicionais e indigenas:

O MANEJO DE FAUNA
Anônimo 04/02/2010 13:13:56

http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2010/02/ 04/fechem-ibama-263422.asp
marcia pimenta 04/02/2010 14:36:31

Caro, Professor Brack
Grande texto! Até que ponto podemos confiar nos
compromissos assumidos pelo Brasil em Copenhagen? O atual governo não dá a
mínima pro meio ambiente, dito inúmeras vezes como um entrave para o
crescimento. E tanta energia pra que? Para as eletrointensivas fazerem aqui, o
que nos seus países de origem já não fazem mais, pq têm uma sociedade
educada e esclarecida. Quantas outras atividades poderiam ser incentivadas com
maior geração de emprego e menos subsídios governamentais?
Isso tudo no
governo de um homem que defendeu junto com Chico Mendes a utopia de qua a
floresta em pé rende mais do que a sua devastação. Lamento realmente o
prejuízo para os índios do Xingu, que sem alternativas e sem ouvidos que os
ouçam são condenados a aceitar bovinamente a falta de respeito por sua
cultura e a destruição de suas fontes de subsistencia, como a pesca. A mídia
só os leva para os holofotes quando resolvem puxar o facão pra fazer valer
seus direitos!
Abração
Márcia Pimenta
Belo Monte: ora, as leis
Anônimo 05/02/2010 06:20:24

Washington Novaes

Há muito se sabe e se diz que no Brasil há "leis que
pegam" e "leis que não pegam" ou "ficam só no papel". É
verdade. Os exemplos poderiam ser dezenas, centenas, mas não é preciso
enumerá-los, cada pessoa tem em sua memória muitos exemplos. Mas talvez o
exemplo mais aberrante seja o da Resolução nº 1, de 23 de janeiro de 1987, do
Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que tem força de lei. Diz ela, no
inciso I do artigo 5º, que projetos que precisem de licenciamento ambiental
deverão "contemplar todas as alternativas tecnológicas e de localização
do projeto, confrontando-as com a hipótese de não execução do projeto".
E entre as iniciativas que a essa exigência devem submeter-se estão as
"barragens para quaisquer fins", assim como "abertura de canais"
e implantação de "hidrelétricas acima de 10 MW".

A Hidrelétrica de
Belo Monte, no Rio Xingu, que acaba de receber do Ibama licença prévia,
enquadra-se em todos esses itens. Terá sido confrontada com alternativa de não
execução? Não parece. Poderia ser confrontada, por exemplo, com o estudo de
Unicamp e WWF, tantas vezes já mencionado neste espaço, que afirma não
precisar o Brasil de ampliação de sua oferta de energia; poderia ganhar o
equivalente a 30% de seu consumo atual com programas de conservação e
eficiência energética (como ocorreu no apagão de 2001); ganhar mais 10% com a
redução de perdas nas linhas de transmissão (o Brasil perde mais de 15% nesse
caminho, ante 1% no Japão); e ainda outros 10% com a repotenciação de
geradores muitos antigos - tudo a custos muitas vezes menores que os da nova
geração. Mas não só os governantes deixam a lei no papel como o atual
ministro de Minas e Energia atribui "intenções demoníacas" a quem
recorde esse e outros questionamentos de alto nível na área científica e
universitária. E ainda tem a desfaçatez de dizer que só estão sendo
licenciadas numerosas usinas termoelétricas, altamente poluidoras, porque o
licenciamento ambiental impede a implantação de hidrelétricas (no momento em
que não há ameaça de falta de energia e os reservatórios transbordam).

O
fato é que se concedeu licença prévia para o projeto de Belo Monte, mas
"com 40 condicionantes", que incluem "ações de mitigação dos
impactos do empreendimento". Isso incluiria projetos de saneamento,
"melhoria das condições de vida da população impactada" (12 mil
pessoas, segundo o governo, 80 mil, segundo várias ONGs), monitoramento da
floresta e adoção de áreas de conservação. Ao todo, isso poderia chegar a
R$ 1,5 bilhão, mais 0,5% do valor do empreendimento a título de
"compensação ambiental".

A Resolução nº 1 do Conama já "não
pegou". As condicionantes vão "pegar"? A julgar pela experiência,
tudo indica que não. Pode-se voltar ao caso do projeto de transposição das
águas do Rio São Francisco, tantas vezes comentado aqui. E na última
(30/10/2009) para lembrar exatamente isto: que 31 condicionantes exigidas pelo
Ibama ao conceder licença prévia (como agora em Belo Monte) não haviam sido
cumpridas e ainda assim as obras tiveram licença de instalação e foram
iniciadas. E não eram exigências simples: referiam-se à impropriedade para a
agricultura da maior parte dos solos aos quais se destinaria à água; diziam
que toda a água iria para açudes onde as perdas por evaporação podem chegar
a 75%; afirmavam que quase todo o restante se destinaria ao abastecimento de
cidades onde as perdas de água canalizada estão na casa dos 40%; que a
transposição não beneficiaria as populações mais carentes, que vivem em
pequenas comunidades isoladas.

De nada adiantou todos esses argumentos terem o
aval de nomes ilustres da ciência, da SBPC, da OAB, de prelados religiosos. A
todos o governo federal respondeu que se tratava de argumentos de
"má-fé" ou desconhecedores da realidade. E quando o Comitê de Gestão
da Bacia do São Francisco - o maior interessado -, por 44 votos a 2, condenou a
transposição, a então ministra do Meio Ambiente levou-a ao Conselho Nacional
de Recursos Hídricos, onde o governo federal tem maioria absoluta e, sozinho,
aprovou a obra, também questionada pelo Tribunal de Contas da União, que
aponta "sobrepreço" de R$ 460 milhões.

Agora, a licença de
instalação para Belo Monte está concedida, embora nem sequer se saiba quanto
custará: R$ 16 bilhões, R$ 30 bilhões? Seja como for, a potência nominal de
11,2 mil MW se transformará em "energia firme" de apenas 4,5 mil MW,
porque nos períodos de estiagem poderá cair para até mil MW. E exigirá a
abertura de dois canais no rio, com a escavação de 160 milhões de metros
cúbicos de terra e 60 milhões de metros cúbicos de rochas. Que impactos
terão no rio obras como essas, em volume superior às que abriram o Canal do
Panamá? Um painel de 38 especialistas na área acha que o estudo de impacto
subestimou também o deslocamento obrigatório de moradores da região; que não
incluiu o custo das infraestruturas urbanas necessárias para alojar essas
pessoas e as dezenas de milhares que acorrerão em busca de empregos; o impacto
sobre a pesca (da qual dependem 72% dos moradores da área); a não-inclusão
dos custos sociais e ambientais no preço da obra e no preço da energia a ser
gerada; a concessão de incentivos fiscais do Estado e municípios, em
detrimento de obras sociais; a destinação de praticamente toda a energia aos
setores de eletrointensivos (alumínio e ferra gusa, principalmente), a preços
subsidiados, como em Tucuruí, e que precisam ser pagos por toda a sociedade
consumidora; os prejuízos para vários grupos indígenas.

Ao lado disso tudo,
ainda restam as questões referentes aos incentivos à ocupação desordenada da
Amazônia e seus reflexos na temperatura e no clima, no momento em que a ONU
coloca o Brasil em sexto lugar entre os países mais afetados por "desastres
naturais".

Como dizem os tribunais, "é o relatório". Vamos
esperar o veredicto social.


Washington Novaes é jornalista
E-mail:
wlrnovaes@uol.com.br
Quinto mundo do Lula e do PT
Marcio De Souza 05/02/2010 13:01:27

Excelente texto Brack! No livro "Os Historiadores e os Rios", Victor
Leonardi chamou a atençao sobre a destruiçao das bacias hidrográficas da
Amazônia desde o século 19, demonstrando que o impacto mais grave e maior se
deu a partir da segunda metade do século 20, quando o Estado brasileiro (ou
seja,todos nós nascidos nesta pátria da destruiçao) oficializou a agressao na
área inundando o rio Madeira de mercúrio e incentivando a derrubada da
floresta pela emigraçao, principalmente sulina. O autor lembra também a
essência do povo brasileiro: progresso a custa da morte que ameaça todas as
formas de vida (vegetais, animais e humanas). Triste país de ignorantes!!!
que titulo dar? esta atitude tem titulo?
rose 06/02/2010 06:17:46

paulo brack, seu texto nos mostra que nada mudou... só pensam em dinheiro...
já não chega a destruição de sete quedas? já não chegam os desmatamentos?
e a retirada do petroleo? só sabem tirar e tirar... para que continuar com essa
retirada se sabemos que a materia prima , como borracha , sacolas, gasolina,
entre outros é prejudicial ao meio ambiente? porque nao buscar outras
alternativas que possa substituir a geração de energia? como cidadão que
atitudes tomar? que democracia é esta? que planejamento é este? enfim,
criticar nao nos leva a nada, e sim atitudes, seria possível perguntar e
solicitar um estudo de qto custaria um projeto de energia aeólica? energia
solar? o país é enorme, a bandeira brasileira mostra muito bem a riqueza que
TINHAMOS,verde a mata, amarelo o ouro/riqueza, azul o nosso ceu... como seria a
nossa bandeira hoje??? grata pela oportunidade de comentar, sinceramente
gostaria de fazer muito mais, desejo que mais pessoas visitem este site e quem
sabe alguém iluminado possa nos dar uma sugestão de como salvar esse
patrimonio, nao pelo valor material e sim pelo valor espiritual, onde tantos
seres vivos dependem dela e consequentemente nós humanos (e nos titulamos de
inteligentes!!!)
sem título
Siegmar Metzner 07/02/2010 21:23:37

Diante de um artigo como este fica realmente difícil ainda fazer comentários.
Todos os comentários anteriores resumem o que eu gostaria de dizer. Tanta coisa
errada está sendo feita em nosso País e o que mais me
causa repugnação é
termos um completo
ignorante como nosso mandatário maior,
que além de se
julgar inteligente, ainda
quer dar lições às outras nações em como tratar
o Meio Ambiente.Pior é que
ainda recebe prêmios no exterior.
Algo está
errado,muito errado.
O PAIS E UMA MENTIRA
GIULIANO DAMASCO 08/02/2010 07:59:21

DIANTE A ESTE ACONTECIMENTO MAIS UMA VEZ VEJO COMO TÉCNICO AMBIENTAL O
DESRESPEITO COLETIVO DOS PROFISSIONAIS QUE ESTÃO ENVOLVIDOS NESTE PROCESSO
...DO QUE ADIANTA SER UMA PROFISSIONAL DE BOA CONDUTA ETICA PROFISSIONAL SE O
QUE VOCÊ DIZ E DESCREVE SOBRE OS PROBLEMAS AMBIENTAIS SE O QUE PREVALECE E A
INTERMINAVEL GANANCIA DA CORRUPÇÃO BRASILEIRA DE PASAR POR CIMA DE TUDO E MAIS
MOSTRAR MAIS UM VEZ QUE NOS NÃO SOMOS NADA PERANTE A ELES ...SO VAMOS CONSEGUIR
MUDAR ESSE PAIS SE REALMENTE ENFRENTARMOS DE FRENTE ESSES .....

SEM MAIS


LEGIAO AMBIENTAL
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