Mobilidade sustentável à espanhola PDF Imprimir E-mail
Daniel Setti   
03/03/2009, 17:07

Barcelona (Espanha) - Barcelona é sempre citada entre as cidades avançadas em termos de sustentabilidade e de mobilidade. Não por acaso, a metrópole espanhola foi escolhida como sede da edição 2009 do fórum anual do Banco Europeu de Investimentos, previsto para esta primeira quinzena de março, cujos temas principais são alternativas para se financiar um transporte ecológico em centros urbanos europeus.

E o aspecto mais positivo do enfoque dado pela prefeitura barcelonesa ao meio ambiente e à melhor qualidade de vida de seus moradores é que seus projetos e metas neste âmbito não param de crescer e ser aprimorados. Tudo isso não se nota só pelos números, mas também pelas pequenas alterações no cotidiano da capital da Catalunha (comunidade autônoma Espanhola).

Dinheiro bem empregado

O orçamento aprovado pelo município para este ano é de quase 3 bilhões de Euros (mais de R$ 9 bilhões). É certo que São Paulo, por exemplo, tem disponível para gastar este ano uma quantidade 3,2 vezes maior, mas é sete vezes mais populosa e sua área correspondente a quinze barcelonas.

Desses 3 bilhões de Euros, 746,2 milhões sairão do caixa da própria prefeitura. O resto vem de diferentes investimentos externos e de fundos que o governo espanhol destinou para enfrentar a crise financeira internacional. E desta cifra, que corresponde a mais alta já disponibilizada na história da cidade (4,1% maior que a do ano passado), 17,5 % estão reservados para Meio Ambiente, Serviços Urbanos e Manutenção. O prefeito Jordi Hereu também promete direcionar 25 milhões de Euros só para infra-estrutura.

“Alguns podem questionar se esses investimentos recordes são bons na atual conjuntura, na qual a crise condiciona tudo”, escreveu Hereu em recente editorial sobre o orçamento, publicado em um dos informativos oficiais do Ayuntament (Prefeitura, em catalão). “Então, digo que sim. As dificuldades não nos impedem de enxergar além”.

Entre as prioridades destacadas por ele para 2009 estão “atenção às pessoas, manutenção do espaço público e mobilidade”. O que isso significa, na prática, pode ser ressaltado em diferentes itens, todos relacionados ao aumento da sustentabilidade e/ou da mobilidade na cidade.

Ônibus melhores e carros elétricos

A frota de ônibus barcelonesa é modelo de acessibilidade. Todos os veículos são rebaixados e contam com rampas mecânicas para subida de cadeiras de rodas e amplos espaços reservados que, embora originalmente criados para pessoas com deficiências físicas e carrinhos de bebês, fazem a alegria de senhoras com carrinhos de compras e até mesmo de músicos transportando instrumentos imensos como um violoncelo. Dezessete linhas já têm serviço de ajuda a deficientes visuais e auditivos.  

Mas a cidade espanhola deseja também que seu transporte afete menos o meio ambiente. Neste momento, estão sendo instalados, em caráter de teste, motores híbridos em diversos ônibus. O sistema propicia um revezamento entre funcionamento elétrico e a diesel e sua intenção é reduzir pela metade as emissões de óxidos de nitrogênio, além de economizar 30% de combustível.

Trata-se de uma das iniciativas para tentar tirar a cidade de recente lista de grandes urbes espanholas com ar de má qualidade, divulgada pelo Observatório da Sustentabilidade da Espanha, entidade fundada há quatro com uma parceira entre Ministério do Meio Ambiente espanhol, Fundação Universidade de Alcalá e Fundação Biodiversidade. Outra medida trata da implementação, até 2011, de cinqüenta pontos de recarga elétrica para automóveis. O primeiro foi inaugurado no ano passado. Cada motorista paga uma taxa de 1,2 Euro mais 1,95 pela hora de serviço.


Controle de velocidade


Também para reduzir a emissão de poluentes caminha o controle de velocidade nas estradas de 40 municípios da província (estado) de Barcelona. Um recente levantamento concluiu que, após o início da implementação de 80 quilômetros por hora como limite de velocidade, os automóveis da região estão emitindo 4% menos gases.

O controle de velocidade também joga a favor dos pedestres em outra medida, nas chamadas Zonas 30. Denominam-se assim as áreas da cidade onde se admitem automóveis, desde que circulando a no máximo 30 quilômetros por hora. Cerca de vinte bairros barceloneses têm essa limitação, que diminuem em até 30% os acidentes e estimulam o comércio nas vias. As ruas em si também contam com atenção especial. Cerca de 600 delas devem passar por obras este ano, incluindo alargamentos de calçadas e restauração.

Metrô em constante crescimento

Mais essencial ainda, o metrô de Barcelona continua crescendo e sendo reformado. Ano passado, transportou quase 400 milhões de passageiros. A rede, que já conta com mais de onze linhas, 121 estações e 104 quilômetros de extensão, acaba de inaugurar mais duas estações. A obra custou 142 milhões de Euros e favorecerá 14 mil pessoas por dia.

A Generalitat (governo da Catalunha) estima que, até 2014, a rede tenha 185 quilômetros de extensão e oitenta estações novas (chegando a 200). Das já existentes, 78 estações são acessíveis com elevadores, 27 estão em obras e 16 deverão ter essa adaptação aprovada em breve.

Duas rodas no transporte

Não dá para falar sobre os avanços de Barcelona nos âmbitos de sustentabilidade e mobilidade sem mencionar o emprego da bicicleta como meio de transporte na cidade. Hoje há 128 quilômetros de ciclovias, que devem aumentar em 20% nos próximos anos, especialmente com o Bicing, sistema público de uso de bicicletas (imagem no topo da reportagem).

Lançado em março de 2007, transformou-se numa febre, ainda que muitas de suas anatômicas bicicletas apresentem freqüentes defeitos técnicos (alguns causados por vandalismo). O sistema já conta com cerca de 180 mil inscritos e mais de 400 estações, cada uma com um número médio de quinze bicicletas.

O sistema permite que, por 30 Euros ao ano, ou 1 Euro pelos planos semanais, cada usuário desfrute das “magrelinhas” como meio de transporte. É só colocar o cartão de sócio próximo ao sensor da estação e uma das bicicletas é liberada. Elas podem ser devolvidas em qualquer outro posto. Não se paga nenhuma taxa extra pelo uso por meia hora e os três blocos de trinta minutos seguintes custam 50 centavos de Euro (cobrados no cartão de crédito). O limite é de duas horas e seu não cumprimento supõe multa de 3 Euros. Quem recebe três multas perde o direito de usar o serviço: uma “bobeada” que merece ser evitada.
Comentários
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bicis
Matias M. Mickenhagen 04/03/2009 04:33:21

Que cheguemos logo ao ponto em que lá estão!!! Vamos que vamos.
Participem da
bicicletada de vossas cidades!
Educação e Respeito ao Cidadão
Luciano Ogura Buralli 05/03/2009 00:35:49

O resultado de todas essas conquistas do povo de Barcelona e vizinhança passa
primordialmente pela educação. Sem isso não iremos muitos longe, pois temos
que nos informar para elegermos os melhores governantes em todas as esferas
públicas.
Também espero que um dia possamos ter em nossa capital.. linhas de
ônibus que ajudem pessoas com deficiência visual e auditiva, além dos que tem
alguma deficência física.
O controle de velocidade nos centros urbanos
deveria ser tratado com muito mais rigor, e uma medida de limitar a 30km nos
bairros residencias é fabuloso, acho que até temos isso por aqui, mas quem
respeita??
A preocupação de lá é tamanha que chegam a limitar em 8okm a
velocidade em rodovias, para que a emissão caia uns 4%.
Parabéns às
conquistas desse povo!! Espero que nosso país se eduque o mais rápido
possível, para que possamos desfrutar disso também!!
igualzinho no Brasil
Mauro Freitas 16/03/2009 16:50:48

Voces viram o detalhe? Lá o cidadão que quer se deslocar na cidade vai num
bicicletário, pega um ticket neste totem, retira a bicicleta, desloca-se até
onde quer ir, estaciona a bicicleta no outro bicicletário e tudo bem, sem
apertaperta de ônibus e vuco vuco de trânsito.
Se fosse aqui, não ficaria
nenhuma bicicleta no local. Todas magicamente se evaporariam. Não dá nem prá
pensar. Vamos botar mais 20 anos de socioeducaçãoambiental pra chegar lá
!!
É duro mas é real !!!
Realidades diferentes- Desigualdades Mundiais
Rakel 05/06/2009 06:08:47

Gente, sou totalmente a favor da bici.
Agora, vamos pensar bem: vc dizem q
falta educaçao. Muito bem, falta mesmo, uma vez que ainda temos indices de
analfabetos relevante en todo o brasil. Vcs dizen que vao robar as bici, vao
mesmo, se tem muita gente q vende o almoço prá comprar a janta....Nas Oropa o
estado é forte e responde as necesidades basicas do cidadao: educaçao, escola,
transporte, moradia....otra realidade da nossa.Além do que, ali a maioria vive
em uma classe media, tb ao contrario da gente. Assim que, antes de qq. critica o
comparaçao, vamos analizar os contextos historicos-economicos-sociais...e
tentar mudar as bases, prá ver se a ponta do iceberg possa consecuentemente
passivel de mudança. Vale uma observaçao: Brasil é um grande reciclador nao
pq é ecologicamente correto, mas pq é fonte de renda para muitas familias. De
esta maneira, qdo a sustentabilidade pasa de ser só concientizaçao para ser
uma forma de sobrevivencia, nao por opçao mas por exclusao de um sistema, a
realidade se revela muito mais triste. Enfim, uma pequena impressao de uma
sobrevivente tb! Un salve a todos !
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