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Desde pequena gosto muito de árvores. Cresci subindo no pé de manga de um sítio de família no interior de São Paulo. Várias gerações brincaram naquela mangueira – além de meus tios avós, donos do quintal, seus filhos e netos, meus pais, minha irmã, primas e primos que vieram depois de mim já subiram várias vezes no pé de manga. Virou tradição familiar. Com a mangueira que hoje tem 60 anos de idade passei a compreender melhor o mundo desses seres que os povos nativos americanos chamam de “Povo-em-Pé”.

 

A autora se divide entre manejar o equipamento de escalada e posar para a foto

A autora se divide entre manejar o equipamento de escalada e posar para a foto

Diz Jamie Sams no livro As Cartas do Caminho Sagrado: “o Povo-em-Pé fornece oxigênio ao resto dos filhos da Terra. Através de seus troncos e de seus galhos, dão abrigo aos seres que têm asas. No vão de suas raízes fornecem asilo a pequenas criaturas de quatro patas que vivem abaixo do solo. Os materiais para a construção das casas de seus companheiros humanos constituem outro presente que a Nação Árvore nos oferta. O Povo-em-Pé percebe as necessidades de todos os filhos da Terra e se esforça por atendê-las. Cada árvore e planta possui seus próprios dons, talentos e habilidades a serem compartilhados”. Descobri que estes talentos vão bem além de folhas, frutos, raízes, sombra, madeira.

A primeira vez que escalei uma árvore com ajuda de mosquetão, corda e cadeirinha foi em 2007. Estava no Amazonas. De cima do mogno compreendi o que escaladores profissionais chamam de “mundo do ponto de vista das árvores”. Lá de cima, a vista é outra. Pode parecer óbvio, mas quando se está na copa é que temos uma dimensão real de sua altura e do que avistamos lá de cima. Acho que levei isso mesmo a sério.

A redwood

Em 2008 a conheci. Ela era uma redwood, árvore literalmente gigante – uns 70 metros de altura, 1500 anos de idade. O objetivo era escalá-la com técnicas que aprendi em um curso de tree climbing enquanto morei nos Estados Unidos. Meu instrutor estava comigo e nossa missão naquele final de semana era subir na “velha senhora”.

 

 

Como o tronco é enorme, subi rápido e focada nele. Sem olhar para os lados, só via ele. De longe ouvi um barulho se aproximar. Era o vento, balançando lentamente todas as copas daquele imenso vale montanhoso da Califórnia. Chegou. Bateu em mim e a dona redwood começou a balançar. Foi aí que me dei conta da altura em que estava, quando vi o carro minúsculo parecendo um Playmobil. Ele percebeu o susto, quis conversar para me acalmar, mas não teve jeito. Só consegui segurar em um de seus galhos com os dois braços bem abertos – que não deram conta de agarrá-lo por inteiro – e silenciar. Precisei sentir aquela árvore, me conectar com Luna, nome que dei para minha amiga em homenagem à Julia Butterfly Hill.  Descemos, mas aquela redwood não saiu da minha cabeça a semana inteira.

Era como se fosse um chamado, como se eu tivesse voltado para casa com a missão incompleta, ainda faltava algo e eu não sabia o que. Decidi voltar no mesmo lugar na semana seguinte. Desta vez, meu instrutor não subiria comigo. Lição aprendida, passei a escalar Luna olhando lentamente para os lados, por causa da altura. Subi de frente para o tronco e também de costas para ele, atenta ao mundo visto lá de cima. Pude respirar com calma e sentir o perfume do ar, ouvir com atenção os pássaros ao redor.

 

 
Era como se a Luna me carregasse no colo e ninasse, ao invés de sustentar com a firmeza de seus galhos milenares o meu corpo pequeno pendurado. Lá em cima, sem fazer o menor esforço para isso, entrei em estado de meditação. Os pensamentos se acalmaram. Altura, temperatura, ventos fortes, contas a pagar, e-mails a enviar, tudo isso sumiu da minha mente. De repente, só existia eu e a Luna no mundo.

No silêncio daqueles instantes, de olhos fechados e mãos no tronco, compreendi que escalar uma árvore – seja ela uma redwood gigante, um mogno ou um pé de manga -, ensina muitas coisas ao coração do homem. Naquele dia, Luna me ensinou a confiança: em mim mesma – minha vida estava em minhas mãos, literalmente; na árvore – ela já sobreviveu a tantas ventanias...; na vida – quanta surpresa boa nos espera quando enfrentamos nossos medos e acreditamos no melhor!

Em homenagem às árvores, finalizo com outra frase de Jamie Sams: “o Povo-em-Pé nos inspira, como guardiães de nossa Mãe Terra, a olhar para a raiz de cada bênção, reconhecer a sua verdade e utilizar esta bênção para o bem de tal forma que sua dádiva não tenha sido ofertada em vão”. Obrigado por tudo.

* Karina Miotto é editora de ((o))eco. Ela reside em Belém do Pará.