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Uma das coisas mais interessantes do Parque Nacional da Montanha da Mesa é que ele inclui áreas de montanha, de encosta, de banhados, de litoral e, até mesmo áreas marinhas, tornando-o uma unidade de conservação bem completa.

Assim é que, em contraste com as trilhas montanhosas de Chapman´s Peak ou até mesmo destoando dos antílopes do Cabo da Boa Esperança, o Parque abriga a praia de Boulders.

Boulders, em meio à área metropolitana de Cape Town é uma das únicas três praias em toda a África Continental onde o pinguim africano (Sphesincus demersus) se reproduz. No total há apenas 27 locais catalogados onde esse pinguim, considerado vulnerável à extinção e exclusivo da África Meridonal, se reproduz, 24 deles são ilhas. Duas das praias continentais, uma na Namíbia e a outra próxima a Betty´s Bay na África do Sul, ficam em lugares isolados e protegidos. Não é o caso de Boulders.

Quando o primeiro casal de pinguins foi avistado em suas areias em 1984, Boulders já era parte integrante do circuito praiano do Cabo, cheia de banhistas no verão e flanqueada por casas de gente abonada. No começo todos acharam bonitinho e –até inusitado- e a passarada foi bem recebida. O problema é que os pinguins gostaram, avisaram os amigos e no ano seguinte voltaram com muitas companhias e dispostos a ficar. Em poucos anos mais de 400 pares já vinham a Boulders se reproduzir e o número, que hoje ronda os 3 mil indivíduos, continua a aumentar todos os meses.

E assim os pinguins aproveitaram a compaixão de bacanas e banhistas e invadiram a praia de todos, obrigando o Serviço de Parques da África do Sul a fazer alguma coisa. Assim a praia foi incorporada ao Parque Nacional da Montanha da Mesa, quando da sua criação em 1998 e hoje, depois do bondinho da Montanha da Mesa e do Cabo da Boa Esperança, Boulders é o terceiro ponto mais visitado do Parque. Seu ingresso não apenas financia a infra-estrutura eco-turística, que inclui passarelas e centro de visitantes, como também custeia pesquisas que ajudam a conservar a espécie.

No frigir dos ovos (que afinal hoje estão bem protegidos de qualquer frigideira)  todos saem contentes: os turistas ganham uma nova atração, os pinguins têm seu santuário assegurado e ainda sobram recursos para serem aplicados em outras áreas do Parque. Talvez o exemplo de Boulders pudesse servir de inspiração aos legisladores brasileiros. Pelo menos no caso do Rio de Janeiro faria muito mais sentido incorporar o Arquipélago das Cagarras ao Parque Nacional da Floresta da Tijuca, dando mais musculatura e relevância a esta que é uma das unidades de conservação urbanas mais notáveis de todo o mundo, do que criar uma reserva marinha isolada e desconectada do ambiente terrestre.