Colunas

Taiamã, Dia 06: Onça é onça, e ponto final!

No sexto e último dia da expedição à Taiamã, a equipe se admira com a astúcia do maior predador das Américas. Veja fotos.

13 de outubro de 2011 · 11 anos atrás
  • Adriano Gambarini

    É geólogo de formação, com especialização em Espeleologia. É fotografo profissional desde 92 e autor de 14 livros fotográfico...

Nesta semana, Adriano Gambarini acompanha a expedição à Estação Ecológica de Taiamã, no Mato Grosso. Ele conta aqui o dia-a-dia dos pesquisadores e o monitoramento das onças pintadas.

 

DIA 06

 

Foto: Adriano Gambarini
Foto: Adriano Gambarini
Hoje é o último dia de campanha. A noite anterior foi de muito investimento em reorganizar os laços. A camuflagem de plantas e galhos secam no decorrer dos dias, o que pode tornar o ambiente mais ‘artificial’. Assim, verificamos todos os laços para uma última tentativa. À medida que Rogério e Fred checam, já desativam os laços. Até que no quinto laço encontram sinais evidentes de que alguma onça passou por ali, cheirou, marcou o lugar…e foi embora. No laço seguinte…idem!

Num questionamento técnico, ficaram os dois confabulando o que poderiam ter feito de diferente para que o bicho tivesse uma atração maior pelo caminho onde estava o laço. Mas enfim, algumas idéias conjuntas, mas um veredicto que é unânime para quem trabalha com este felino: não é à toa que a onça é o maior predador do Brasil, topo de cadeia alimentar e o maior felino das Américas! Sua astúcia para se dar bem num mundo que oprime seu território cada vez mais, tem que ser cada vez maior também… princípio básico da sobrevivência. Boba é que ela não é!

Findado o trabalho de retirada dos laços, é hora de ir embora. Mas não antes dar um giro pela região; quem sabe uma onça não dá o ar da graça para nós? Demos a volta na ilha de Taiamã, seguindo pelo Rio Paraguai e Bracinho. Passamos pelo ponto onde os guias de pesca da região jogam peixe com freqüência, no limite da Esec, numa insana tentativa de cevar as onças para que turistas possam ver. Podem até conseguir tal feito, mas as conseqüências são incalculáveis, e no ano passado todos tivemos prova disto, quando uma onça atacou um turista dentro de um barco de pesca. Apos as apurações pelos pesquisadores do CENAP e Taiamã, confirmou-se que o ponto do ataque era justamente o mesmo lugar onde os guias estão cevando as onças.

Paramos no lugar e vimos rastros molhados de onça, ou seja, ela acabara de passar por ali!!! Daniel deu uma volta pelo mato e encontrou cabeças relativamente novas de peixe; ou seja, a ganância dos guias não tem limite, eles continuam a brincar com fogo. Seguimos inconformados com isto, com a fumaça que tornava a paisagem opressora, quando Fred comentou:

 

– É Gamba, acho que não foi desta vez que encontramos uma onça no barranco.
– Calma Fred, o dia não acabou… Retruquei.

 

Passados 10 minutos, de repente uma cabeça arredondada e imponente desponta na sombra da vegetação.

 

– Ali, ali, gritei! O Fred também viu quase no mesmo momento.

 

Lá estava ela, tranqüila, olhando o rio como um caboclo olha o movimento da rua numa cidade de interior, sentado à frente da sua casa. Lá estava ela, rainha das matas, calmamente lambendo suas patas como um indefeso gato num sofá de apartamento qualquer. Lá estava ela, serena, alheia à fumaça que alardeava um fogo sem propósito. Lá estava ela, imponente, mostrando que onça é onça, e ponto final!

Clique nas imagens para ampliá-las

 

 

 

Leia também

Reportagens
19 de maio de 2022

Pesquisa questiona ocorrência de Mata Atlântica no Piauí

O estudo caracterizou flora e vegetação de florestas estacionais em municípios na área de abrangência da Lei da Mata Atlântica no Piauí e concluiu que não há espécies botânicas exclusivas do Bioma

Notícias
19 de maio de 2022

Em meio à ameaça da mineração, projeto prevê criação de parque na Serra do Curral

O projeto de lei nº 1.125/22 foi apresentado às comissões da Câmara dos Deputados nesta terça-feira (17) pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) para garantir a proteção da serra mineira

Reportagens
18 de maio de 2022

Ocupação indígena no Parque Estadual Cunhambebe quer retomar posse do território

Indígenas estão acampados desde quinta (12) ao lado da sede do parque fluminense, em mobilização pela retomada do seu território ancestral

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Comentários 3

  1. Eu espero que os indígenas sejam assentados em terras degradadas do entorno, onde eles podem produzir suas roças à vontade. Infelizmente vimos muitas vezes o resultado da entrada de indígenas nas unidades de conservação do sul da Bahia e norte do Rio Grade do Sul, para no falar do litoral de São Paulo e Paraná. A extinção local dos animais de maior porte se segue rapidamente, assim como a venda de madeira. As unidades de conservação não são palco para solucionar os nosso grave problemas sociais.


  2. Israel Gomes da Silva diz:

    Se não tem apoio de partido político, quem está bancando a picanha e a bebida que a liderança está comendo todos os dias no Sahy Vilage Shopping, sendo solicitado apenas Notinhas da comida? Todos os dias um grupo de indígenas vão à praia e aí Shopping, mesmo no frio.


  3. Salvador Sá diz:

    Parabens ao Duda pela materia, me permite concluir que estamos diante de uma nova e muito grave ameaça ao q sobrou, grave pq faz uso de uma causa nobre, mas cheia de equivocos e que está enganando muita gente e não só os próprios índios. A materia fura o cerco de silencio feito pelo ambientalismo seletivo e chapa branca midiatico.