Marcos Sá Corrêa
Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja e de Época, diretor do JB, de O Dia e do site NO. É pai de Rafael Corrêa, colunista de ((o)) eco.

A viagem que o Aerolula está devendo ao Brasil

Marcos Sá Corrêa
sexta-feira, 10 julho 2009 17:47

O vôo SK 400 saiu de Copenhagen para Estocolmo às seis e pouco da manhã. Com sol alto, em horário nórdico. Era um dia resplandescente de verão, daqueles que revelam nos menores detalhes o que o mundo tem de bom ou de ruim. E o Airbus ia varrendo o chão, desde a decolagem, com uma câmera que enchia todas as telas a bordo com o cenário assombroso do percurso.

Eis um acessório que não deveria faltar no Aerolula. E nos aviões de todos os políticos brasileiros que viajam tanto às nossas custas, mas voltam dizendo que a Europa só virou o que é depois de acabar com suas árvores. O SK 400 teria muito a lhes mostrar, num trajeto pouco maior que o do Rio de Janeiro a São Paulo.

Moinhos de vento

A começar pela decolagem, que logo na cabeceira da pista costeia a ponte de Oresund, da Dinamarca à Suécia. Seus 16 quilômetros cobrem mais ou menos a distância do Rio a Niterói, com anos-luzes de diferença, e não só em engenharia e arquitetura, por sinal, prodigiosas. O mar lá embaixo é azul. Ao pé do aeroporto ficam as praias de Amager, balneário preferido da capital.

Da água despontam turbinas eólicas, brancas como cegonhas, alinhadas em fila, girando mansamente suas hélices como moinhos futurísticos. E a ponte acaba de repente, numa ilha notoriamente artificial, a Pepparholmen, como se ligasse o continente a lugar nenhum.

A visão desperta lembranças de viadutos que foram construídos só para desviar dinheiro público. Mas ali a história é outra. O sumiço quer dizer que a pista se enfia num túnel submarino, desviando-se no meio da travessia de uma reserva natural, que os construtores preferiram deixar intata. “Você não poderia ter um símbolo mais dramático, ou mais belo, do poder e da prosperidade da Suécia no fim do século XX”, comenta Andrew Brown, jornalista inglês que nos anos 70 mergulhou como operário no socialismo sueco, atraído pela obsessão de pescar em lagos e rios selvagens que, a seu ver, eram a alma daquela utopia política.

O que Brown pôs em livro, o circuito de TV do SK 400 desdobra, ao vivo e em cores, até segundo antes do pouso em Estocolmo: “O campo não é só um adorno na janela. É mais poderoso e íntimo do que que isso”. Confunde-se com a própria Suécia, que aliás está toda enfeitada para a estação com guirlandas de flores silvestres nas casas de campo, repetindo costumes imemoriais que se modernizaram sem perder as razões ambientais para continuar vivos.

As florestas cobrem hoje 60% do país. Produzem 12% das exportações suecas. Empregam pelo menos 100 mil pessoas. Avançam 100 milhões de metros cúbicos por ano. E se expandem sem parar há mais de um século, por conta de leis que, entre outros prodígios, já haviam plantado por volta de 1925 um bilhão de mudas num território que não chega a um terço de um estado como o Amazonas.

As perdas por fogo são desprezíveis, apesar do pendor para a combustão que têm as coníferas. Em 2008, foram míseros mil hectares. Os alces fazem mais estragos nas estatísticas florestais do que os incêndios. A produção comercial de madeira cresce 7% ao ano. As licenças para corte caíram 12% em 2007.

Tudo isso salta aos olhos antes mesmo do desembarque. Logo, não é possível que os políticos brasileiros, tão viajados, não enxerguem a contrapartida natural das economias saudáveis. Quando dizem, como o presidente Lula, que país rico não tem árvore, o que eles ignoram talvez não seja propriamente o que vem a ser um país rico, mas o que é uma árvore.

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