O dia em que Santa Catarina derreteu
Germano Woehl Junior
Catarinense, doutor em física pela UNICAMP, pesquisador titular do Instituto de Estudos Avançados, em São José dos Campos (SP) e nas horas vagas se dedica na defesa da Mata Atlântica através do Instituto Rã-bugio.

O dia em que Santa Catarina derreteu

Germano Woehl Jr.
quinta-feira, 4 dezembro 2008 16:24

Morro do Baú, em Ilhota (SC), um dos lugares onde a morraria derreteu. (Fotos: Germano Woehl)
Morro do Baú, em Ilhota (SC), um dos lugares onde a morraria derreteu. (Fotos: Germano Woehl)
Imagem da destruição em Ilhota (SC), na região do Morro do Baú.
Imagem da destruição em Ilhota (SC), na região do Morro do Baú.

Logo, os jornais começaram a divulgar os números da tragédia em Jaraguá do Sul e outras cidades da região. Por estar numa área bem preservada, o Centro Interpretativo da Mata Atlântica (Cima), onde o Instituto Rã-bugio desenvolve atividades de educação ambiental ao ar livre (interpretação de trilhas) com as escolas da região, nada sofreu. Porém, da região do Morro do Baú, na divisa entre os municípios de Luis Aves e Ilhota, a 30 quilômetros dali, vinham as notícias mais assustadoras de destruição: o “derretimento” de montanhas inteiras.

Por ironia, eu conheci o Morro do Baú, no Dia de Finados de 2001 (02/11), a convite do professor Ademir Reis, do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Para quem não sabe, o morro é uma área protegida. Trata-se do Parque Botânico do Morro do Baú, criado em 1963 pelo esforço do Padre Raulino Reitz, que, ao ver o ritmo alucinante da destruição protagonizada por agricultores da região, tentou salvar pelo menos um pedacinho do paraíso: 750 hectares. Obtendo recursos públicos do governo estadual, comprou a área de oito agricultores, que queriam abandonar a atividade.

Desmoronamento sobre avenida, em Jaraguá do Sul (SC)
Desmoronamento sobre avenida, em Jaraguá do Sul (SC)

Ele foi muito criticado na época por este ato de heroísmo. Acusaram-no de incentivar o êxodo rural, como se o padre fosse culpado pelo processo que ocorre em todos os lugares do mundo, quando os países se desenvolvem e começam a se industrializar. É um direito que as pessoas têm de largar a vida sofrida no campo e tentar a “prosperidade” nas cidades, trabalhando em indústrias, tendo acesso a melhores condições de educação para os filhos, hospitais etc.

A maioria dos brasileiros, inclusive eu, vivenciou este processo. Muitos gerentes de banco, juizes, médicos, professores universitários, diretores de grandes empresas e outros, são filhos ou netos de agricultores. Mas o fato é que os descendentes das famílias do Morro do Baú podem se considerar pessoas de muita sorte, pois devem suas vidas ao visionário padre  Raulino Reitz. Graças a ele, escaparam do “Inferno de Dante”. E alguns sairiam de lá de qualquer forma, após devastarem tudo. Aliás, todo mundo pode se considerar sortudo por receber esse “presentão” muito especial do religioso, que é o Morro do Baú preservado – um tesouro riquíssimo em formas de vida, que abriga várias espécies de plantas e animais ameaçados de extinção.

Nas imagens que vi de uma emissora de TV, as partes mais altas do Morro do Baú, da face mostrada na imagem do topo deste artigo as mais preservadas, não desabaram, porque montanhas bem preservadas não derretem. Contudo, a face voltada para o litoral, bem mais íngreme, sofreu desmoronamentos. As partes bastante íngremes das montanhas com vegetação rala, de pequenos arbustos, também estão sujeitas a estes fenômenos, mas são bem raros. Mas o Morro do Baú não se desintegrou, continua como está na imagem mostrada no topo deste artigo, capturada em novembro de 2001. E assim deverá ficar para as gerações futuras. Imaginem quantas vidas humanas não foram salvas, só nesta última tragédia, graças aos esforços do padre Raulino Reitz para preservar aquela montanha.

Rãzinha, símbolo da riqueza da biodiversidade do Parque Botânico do Morro do Baú.
Rãzinha, símbolo da riqueza da biodiversidade do Parque Botânico do Morro do Baú.

Além da destruição e das vítimas dessa última tragédia, o que mais me assustou e me deixou muito preocupado foram as declarações do coordenador da Defesa Civil de Santa Catarina, ao descrever a região do Morro do Baú durante uma entrevista no programa do Faustão. Ao se referir às propriedades rurais dos municípios de Ilhota e Luis Alves, arrasadas pelo aguaceiro, disse: “A região ainda tem muita natureza, os agricultores de lá preservam”. Não tenho a menor dúvida de que o coordenador foi sincero em suas declarações, mas o que me assustou foi a constatação de que as pessoas já não sabem mais o que é uma área preservada, ou melhor, o que é natureza de tão devastada que está a Mata Atlântica.

Durante aquele Finados, em 2001, quando conheci a região pela primeira vez, fiquei tão aterrorizado com a devastação dos agricultores como estou agora com suas conseqüências. No caminho, cheguei a comentar com Elza: “Será mesmo que sobrou alguma coisa preservada nesta região? Não pegamos a estrada errada, ao contrário da que o professor Ademir Reis indicou?”

Reparem na foto do Morro do Baú (topo) e observem a paisagem arruinada de uma propriedade rural, em primeiro plano. Só tem plantas exóticas (capim braquiária, palmeira-real-australiana, eucalipto, lírio-do-brejo…). Reparem também naquele corte do barranco. Interessante, não é mesmo? Este é o padrão que se repete em toda a região. Então, foram justamente estes morros devastados que derreteram. De área preservada, só sobrou mesmo o Morro do Baú e, nas partes mais altas, os domínios do parque criado por Raulino.

Em qualquer imagem mostrada pela TV de morros que desabaram (ou derreteram) se observam pastagens ou “reflorestamento” de pinus e de eucalipto. Em um caso de quatro pessoas que retornaram após serem resgatadas e morreram soterradas, o morro que provocou a tragédia era todo ocupado por uma plantação de pinus. Numa das reportagens, o apresentador, que, pessoalmente sobrevoou a região, se disse surpreso com a quantidade de madeireiras e de “reflorestamentos” de pinus e de eucalipto. Podemos concluir que o aguaceiro foi apenas um coadjuvante nos desmoronamentos e assoreamento de grandes extensões dos vales com solo estéril das montanhas derretidas. É esta paisagem arruinada que estamos deixando para as gerações futuras.

Deslizamento de grandes proporções ocorrido em 1983, nas cabeceiras do Rio Itajaí, em Itaiópolis (SC). Propriedade comprada em 2005 por Woehl e sua esposa Elza Nishimura.
Deslizamento de grandes proporções ocorrido em 1983, nas cabeceiras do Rio Itajaí, em Itaiópolis (SC). Propriedade comprada em 2005 por Woehl e sua esposa Elza Nishimura.

Nós herdamos um passivo ambiental gerado no aguaceiro de 1983, que atingiu também as cabeceiras do Rio Itajaí. Foi justamente numa das áreas que compramos para preservar, em Itaiópolis (SC), que ainda salvará muitas vidas humanas em Blumenau e evitará prejuízos materiais no Porto de Itajaí e na infra-estrutura das cidades. A encosta deslizou deixando a paisagem arrasada, como na foto ao lado. A área da encosta era bem preservada, mas um agricultor desmatou até a borda, apesar de ser área de preservação permanente (APP), que é de uso proibido, justamente para proteger a encosta. Naquele ano, vários deslizamentos de grandes proporções ocorreram nas cabeceiras do Itajaí, que represavam suas águas e estouravam em seguida, produzindo “cabeças d’água” com grande poder de destruição.

Não faz muito tempo, os chineses anunciaram seus planos de usar uma bomba atômica para explodir uma cordilheira e fazer a transposição de um importante rio para irrigar plantações. Acho que, ao ver as cenas da destruição em Santa Catarina, os chineses vão descobrir que existe uma maneira muito mais simples de “derreter” montanhas.

Por conta das agressões que fizeram às áreas preservadas de Mata Atlântica, a história revela que gerações do passado, inclusive de catarinenses, já sofreram tragédias de proporções tão grandes como esta, mas nunca foram tão bem registradas e divulgadas como agora (popularização das câmeras digitais e filmadoras, internet, televisão etc). Nosso desafio é convencer as pessoas que ocupar áreas de preservação permanente, como as encostas dos morros, não é somente uma infração às leis ambientais, mas um ato suicida.

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