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O teatro de quinta categoria ofertado à Nação, a partir da articulação pouco velada de um comunista-ruralista perdulário que perdeu o norte - sabe-se possivelmente em quais caminhos - com a poderosa representação legislativa dos grandes proprietários, oferece um espetáculo que, finalmente, mostra a face mais rasteira e medíocre de uma fração de nossa sociedade.

Estamos à frente de uma estrutura especializada como poucas em chupar o sangue dos brasileiros, fazendo uso de um discurso subsidiado de demagogias e inverdades para continuar a destruir o patrimônio natural do País, lucrar com o prejuízo de terceiros e, ainda, querer ser chamada de desfavorecida.

Muito mais do que um novo ato regido por favores entre políticos para o atendimento de interesses de grupos econômicos quaisquer, a proposta de mudança do Código Florestal Brasileiro é uma declaração de guerra de uma gente sem escrúpulos nem medidas, contra o povo brasileiro. Está evidenciada de maneira irrefutável, nua, palavra por palavra, o que pensam. E que tipo de consideração têm, pela imensa maioria dos cidadãos, que pretendem, simplesmente, um País desfrutando de maneira esponsável de seu imenso patrimônio natural.

"Governantes, políticos e empresários voltados à destruição do Brasil a partir deste processo de expoliação criminosa, não merecem nosso respeito. São um péssimo exemplo."

Dar espaço para o que foi destruído contra a Lei seja perdoado, que propriedades com até 600 hectares não demandem áreas de Reserva Legal e transferir a responsabilidade do controle e regramentos mais específicos aos Estados representam intenções inequívocas que visam o desmanche do arcabouço protetor que temos hoje.

Apesar do reconhecimento da relevância dos inúmeros e insubstituíveis serviços ambientais que as frações de áreas naturais conservadas proporcionam a todas as atividades econômicas do País, incluindo em especial a própria agricultura, a reticência arcaica do relatório apresentado se manifesta radicalizada ao extremo.

A coerência leva a soluções inversas à flexibilização. Áreas naturais são verdadeiras fábricas de insumos que dão lastro ao desenvolvimento e à qualidade de vida. Portanto, ao invés de um empecilho, representam uma possibilidade concreta de remuneração pelo pagamento dos serviços ambientais que disponibilizam. Mas não interessa a busca por uma condição equilibrada nas atividades do campo àqueles que exploram a terra como um bem finito. E que desconsideram o interesse público do uso racional das riquezas do território nacional. 

São arrogantes a ponto de não considerar a obviedade de que uma exploração muito além dos limites da natureza representa sua própria desgraça, um pouco mais à frente. Mesmo com as incontáveis evidências, repetidas ao longo da história. Governantes, políticos e empresários voltados à destruição do Brasil a partir deste processo de expoliação criminosa, não merecem nosso respeito. São um péssimo exemplo. O retrato de como podemos ser pequenos se apenas conseguimos enxergar nossos próprios interesses, motivando qualquer tipo de instrumento para defendê-los, incluindo o descumprimento da Lei. E a mudança da Lei, em caso de maior aperto.

Não há espaço para mais insensatez num País de terra arrasada que estamos deixando para as futuras gerações. Todos os responsáveis pela continuidade na destruição do Brasil estão à mostra. Seus disfarces deixaram de ser subterfúgio para seguir a sina maldita que perseguem. Talvez por nos considerarem incapazes, sem condições de reagir frente a tanta demonstração de poder. Se depender de um crescente e significativo contingente de brasileiros de bem, este combate não está no fim. O que está do outro lado não vale a pena. Não é a agenda dos verdadeiros produtores rurais e não faz parte do futuro que este maravilhoso país merece.

*Clóvis Borges trabalha na Sociedade de Pesquisa da Vida Selvagem (SPVS) na área da conservação da natureza há 25 anos. É fellow da Fundação Ashoka e da Fundação Avina. Membro do Conselho Consultivo do FUNBIO. Veterinário e mestre em Zoologia por formação acadêmica.