Patrocínio
Apoio
Outras colunas
O mais novo nunca foi novidade
Bodoquena: eu quero o parque legal
Índia, país do sagrado ao profano
Mirador volta a ameaçar Veadeiros
Especial
Parceiros
| Pequenas miragens |
|
|
|
| Verônica Theulen | |
| 11/04/2007, 12:13 | |
|
Era frio e claro em Brasília. Início da seca, ainda não definitiva, mas presente. O amanhecer anunciava que o dia seria de céu intenso. Daqueles de “brigadeiro”, onde o espírito descansa. Mas a mente transborda. Difícil se concentrar. É preciso conferir o plano de vôo, as paradas, a rota e as dezenas de recomendações. Tudo pronto. Um vôo no coração do Brasil. Quando estou no Cerrado, ou penso nele, tenho sempre a impressão que tudo ocorre em flash. É uma sensação como aparecer e desaparecer. Quase loucura. Acender e apagar a luz. Como tudo é intenso e muda rápido, é como um diálogo entusiasmado. Então decidi escrever esta coluna com esta cara, este jeito, com toda informalidade de que for capaz. As frases longas serão abandonadas. Desta forma tento transcrever aquilo que experimento. As linhas escorregam e tentam descrever alguns momentos. Vividos há quase um ano. Saboreados com tamanha intensidade que é preciso lembrar Carlos Drummond de Andrade, e dizer: “Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força jamais resgata”. A irregularidade nos une. Todos aqui se acham no direito de cometer algum delito. Quem sabe, alguma coisa errada. Sabem que estão errados, mas não têm consciência do que isso quer dizer. Vivem numa ilusão. Não acham isso ruim, sempre há justificativas, até para intelectuais, instruídos e ricos.No final das contas, sempre alguém ganha alguma coisa com isso. E todos perdem. Há até certo charme em afirmar: “se todos fazem, eu também tenho o direito". E assim o ilegal vai tomando forma daquilo que é politicamente correto. Realmente do alto tudo é mais intenso, inclusive as lembranças. O olhar fixo. Pensamentos muito longe. Conversas compartilhadas com quem conheceu este Cerrado ainda intacto. Sobradinho está imensa. Tomou proporções de cidade. Não resta nada do Cerrado que havia ali. Planaltina também é um desastre. Construções em cima de construções. Tudo ocupado. Cerrado nem na praça. O vôo continua, o dia está perfeito. De repente a lagoa Jacuba, a imponente Jacuba. Citada nos livros, destacada como a mais importante e única da região. Prazer em conhecê-la. Mas já é tarde. Não há mais lagoa Jacuba. O que era belo transformou-se numa paisagem morta, corroída. Buritis secos, cerrado dizimado e paisagem 100% descaracterizada. Agora ela repousa somente nos livros de história, mérito dos produtores de soja. Não há nenhuma possibilidade de restauração. Realmente, eles conseguiram acabar com a Jacuba. Mais uma vitória. Um tributo a tão amada leguminosa. Ao lado do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, São Jorge cresce a olhos vistos. Muitas casas. A visão muda rapidamente, as quedas do rio Preto são deslumbrantes. Gritos de alegria. A mata que as circunda é volumosa, pesada e forte. Dá vontade de pedir para parar, pura contemplação. Que aquele momento fosse congelado, que aquela emoção fosse eternizada. Manter-se ali, diante da beleza. Sem dizer nada, simplesmente nada. Alguns minutos. Não há nada mais lindo na região do que o Parque. Mas é tão rápido, a área é pequena e o entorno começa a ficar muito fragmentado. Que vontade de voltar no tempo, imaginar um vôo na década de 60, com os 600.000 hectares protegidos. Uma região imponente, algo divino. Mas o vôo é rápido, como são rápidas as mudanças. Os recortes. Mas o que sobra ainda consegue ser eternizado. Com o encanto do dia sobrevoamos a área da futura Reserva do Cerrado da Fundação O Boticário. Difícil descrever o que se vislumbra do alto, a magnitude do lugar. Novas paisagens que se abrem à frente, encostas recobertas de um cerrado denso, que se junta a cerrados de altitude e campos que recobrem as pequenas chapadas no alto das montanhas, a apenas 20 km do Parque. Hora de voltar. Avistar o Parque na parte norte, belo e elegante. Veredas recortam a paisagem de pura beleza. Flashes e mais flashes. De repente, o lixão de Alto Paraíso, vergonhoso e inaceitável. Quase junto ao ponto mais alto do planalto central. O colorido dos plásticos mancha a paisagem, numa visão absurda. Aquilo não poderia estar ali, no entorno imediato do Parque Nacional. Usina de reciclagem comprada há 12 anos das empresas que enganam prefeitos do interior. Instalada em lugar inadequado, mas mantida, agora quase legalizada. Ou quem sabe, como as ocupações do entorno do Parque Nacional de Brasília, vivendo na suposta legalidade. De repente, a área de ampliação do Parque. Não há outro destino para aquele lugar, senão ser protegido. As quedas, o cerrado, as matas. Tudo é surpreendente. Ainda há muita beleza a ser protegida. Mais alguns minutos. A soja reaparece, o cansaço também. Dia intenso. Contraditório. Mas também cheio de beleza. A vida prossegue em Brasília, como se nada tivesse ocorrido. O vento sopra novamente. Volta o sentimento de dia cumprido. A viagem alimenta a alma. Momentos únicos, para sempre.
|









