Cerrado na contramão PDF Imprimir E-mail
Verônica Theulen   
31/01/2007, 14:22
Chove sem parar. É o tempo das águas mudando a paisagem do Cerrado. Época de vitalidade, de verde intenso. Os rios transbordam e a água brota em todos os cantos. O vento é mais forte e fresco. Assim, os dias passam. Um novo ano começa, e em toda essa euforia de ano novo, a ilusão aparece mais intensa. De repente, acreditamos que tudo pode ser realmente melhor. Sinceramente não acho ruim. É bom imaginar que as coisas podem ser diferentes.

Estou de férias e viajo pelo Cerrado. No meio de um asfalto esburacado, de estradas precárias, continuo passando por várias novas áreas preparadas para soja. Gado daqui, gado de lá, assim sigo. Caminhões de carvão não param de passar. Cruzam, esbarram, numa rapidez característica de quem tem destino certo. Sinto-me completamente na contramão. Continuo dirigindo mas meus pensamentos me entorpecem. Onde ainda há tanto Cerrado para queimar? Como mudaremos esta situação? Quando isso vai acabar? Por outro lado, sei que boa parte desse movimento acontece dentro da legalidade que as leis permitem e flexibilizam. Continuo dirigindo, cada vez mais na contramão. Tal sentimento expande a viagem, ultrapassa as estradas esburacadas, transpassa a região, o país. Um sentimento estranho aparece, forte, vivo. Minha profissão, aquilo que acredito, minha vida está na direção contrária. A conservação do Cerrado é um movimento na contramão.

A chuva forte que cai me faz parar na beira de estrada, e espero. Vantagens para quem está de férias, sem hora para chegar em lugar algum. Penso que sobram justificativas, o que falta é comprometimento. Somos um país de uma população pouco agressiva. Não que a agressividade seja um mérito. Mas não encontro outra palavra que possa representar meu sentimento. Agressividade até pode ser vista pelas ruas, mas é o lado obscuro. Neste momento, falo de força para defender o bem comum, o nosso patrimônio natural. Falo de força para mudar o sentido, para conseguir andar mais na corrente. Há mudanças no comportamento em relação ao Cerrado? Talvez sim. Talvez porque os resultados são tão poucos, muitas vezes inexpressivos. A maioria das ações é tão tímida que não consegue mover uma palha do chão.

Tecnicamente seguramos qualquer discussão. Mas é técnico com técnico. Além disso não conseguimos avançar em absolutamente nada. Não aumentamos a extensão de unidades de conservação no Cerrado, nem fizemos com que as pessoas cumprissem seus Termos de Ajustamento de Conduta, muito menos que obedecessem as leis e tivessem um mínimo de decência. É como se ficássemos atônitos, levássemos um susto. Do medo criou-se o trágico no rosto, pintou-se o pálido e não rolou uma lágrima nem uma lástima pra socorrer e na gente deu o hábito de caminhar sobre as pregas de tirar leite das pedras, de ver o tempo correr.

O carvão segue com destino certo. Os grãos continuam dando lucro porque nunca foi computado o valor do Cerrado perdido. E se o lucro não acontece, como foi no último ano, o governo assume o ônus e tenta dar uma ajuda aos “produtores de grãos” em crise. E assim vamos deixando de lado a grande discussão. Quanto deveria ser o preço dos nossos grãos? Como conseguir equilibrar a tal da balança?

Se computássemos ou mensurássemos a perda dos ambientes naturais, certamente o valor dos grãos deveria ser muito mais elevado e poderíamos fazer algo para mudar o sentido. E, logicamente, isso deveria ser investido em conservação. Para China, por exemplo, é muito mais econômico comprar grãos nossos do que gastar seus recursos hídricos, já bem comprometidos. É mais lucrativo investir a água na indústria, os lucros são muito maiores. Afinal de contas, há no mercado grãos disponíveis por preços muito mais atrativos. Mesmo em meio à crise, ainda há um mercado bem interessante. E não achem que penso que isso não é bom para o país, que não deveríamos ter exportações. Mas não dá para negligenciar absolutamente tudo em prol da economia. E nós não nos preocupamos com isso porque natureza não tem valor. Aquilo que é perdido não é computado.

Na época da colheita, de lado a lado do país a desgraça ainda é muito maior. O percurso dos grãos até o seu destino final mantém muito mais atividades, como a prostituição infantil junto aos portos. Mas ninguém liga, afinal, soja dá lucro. E nem vou entrar no mérito de quem corta, produz ou trabalha nas dezenas de carvoarias espalhadas pelo nosso Cerrado em condições miseráveis. E daí vem o incômodo, pois nem mesmo os problemas humanos mudam o sentido. Apenas fortalecem para nos manter cada vez mais na contramão.

Escrevo para aliviar a culpa. A culpa por fazer parte de uma geração que não está dando conta do recado. Não conseguimos ter foco em resultados. O balanço final da conservação do Cerrado é fraco que dói. E sorridentes fomos às urnas, no último ano, felizes porque na nossa democracia temos o direito “obrigatório” de votar. E aqui se compra tudo, de embalagem a voto. O Cerrado serviu de palco da negociação. Desta vez, foram as propostas de dezenas de novas hidrelétricas, por todos os lados. Junto com isso vem a mineração a toda velocidade. Para relaxar, é só entrar no site do DNPM e ver a quantidade de pedidos de novas lavras para mineração. Junto com a produção de grãos, essas são as propostas mais novas e promissoras para o nosso Cerrado.

Olho para frente e imagino mais alguns anos. Não gosto muito dessa história de futuro, de ficar somente na ilusão. Mas como estou viajando, tenho toda a permissão de entrar em todos os meus devaneios e imaginar o que quiser. Coloco-me mais a frente, numa distância esparramada. Um tempo que não se mensura. E o que imagino é assustador. Um tempo sem vento, parado. Sem noite nem dia, um dia sem nada. Então como disse o filósofo Emerson: Quando a natureza me leva a enganos, quando a manhã e a noite mentem. Quando a natureza recusa-me a alimentar-me. Então será tempo de morrer.

Morremos diariamente e não percebemos. Morremos constantemente em crenças e conhecimentos. A morte é boa porque, para os que acreditam, pode trazer renascimento. Mas dia vai, dia vem e nunca mais nos depararemos com o nosso Cerrado. E neste caso, não há renascimento porque não aprendemos com os erros. Pior é que a cada dia aprimoramos nossos erros, tornando-os cada vez mais irremediáveis.

Mas se parássemos hoje, do jeitinho que está, daria para salvar alguma coisa? Não é possível que ainda continuemos dando como destino certo para o nosso Cerrado virar carvão. Isso é loucura. Não é possível que criação e implementação de unidades de conservação não sejam encaradas como prioridades, que efetivamente extrapolem as salas das reuniões, dos seminários, das publicações e sejam efetivadas na prática. Com esses questionamentos sigo em frente. Então, por um segundo, penso que a única solução para o Cerrado, sendo a mais radical possível, seria uma moratória. Isso mesmo, “moratória para o Cerrado”. Tudo deveria parar até que a casa fosse arrumada. Imaginaram a desgraça que isso ia acarretar, quanta gente se rebelaria? O que aconteceria com a economia? O que viria depois? Nada mais se planta. Nada mais se produz. Nada mais.

O entardecer deixa para lá os pensamentos, os questionamentos, as dúvidas, os temores. Isso ficou repousado no dia chuvoso, que se despede com um colorido dos entardeceres do Cerrado. Paisagens que nos inspiram para seguir em frente e ver que vale a pena continuar nesta direção, mesmo que tenhamos que guiar na contramão.
Comentários
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Anônimo 10/08/2008 11:25:34

gostei e iso ai
Cerrado
Sinvaline 21/04/2009 08:12:28

Sua dor é minha e de tantos outros que indefesos assistem a morte do cerrado.
Temos aqui em Uruaçu Goias o Memorial do Cerrado que defende a preservação e
nos meus textos tento, mas a devastação é mais forte.Continuemos na
contramão quem sabe um dia...
Abraços

sinvaline
www.overmundo.com.br/overblog/memoria
l-serra-da-mesa
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