A primavera silenciosa do Cerrado PDF Imprimir E-mail
Verônica Theulen   
12/09/2006, 15:43
É época de seca no Cerrado. Embora este ano tenha uma chuva ou outra meio fora de hora, ainda dá para sentir a secura do ar, a beleza do céu azul. Sentimo-nos mais livres. É a primavera chegando ao Cerrado. Mas este ano a primavera parece muito mais silenciosa.

Em plena primavera definiremos os próximos anos do nosso país. No nosso consciente coletivo, quando se fala de primavera aparece algo inspirador, cores, cheiros, um tempo de beleza. Mas não obstante nos deparamos com o que é o frenesi dos candidatos. São as eleições e, se a seca muitas vezes encanta e inspira, desta vez a situação não se repete. Somos envolvidos neste processo democrático meio hipócrita. Falo isso porque há um sentimento de responsabilidade embutido em toda população, mas as informações disponíveis são totalmente manipuladas. Fui embebida desde cedo, na minha criação, pela necessidade de trabalhar por um país mais democrático, onde era importante votar. Acho que fui até enganada demais. Mas desta vez está difícil, sinto-me sem rumo. Não sei em quem votar, na medida do possível, leio, acompanho, ouço. Mas nada me convence. Nem um pouquinho. E o pior de tudo é que me sinto culpada de ter acesso à informação e não ter competência para escolher um candidato.

Em plena primavera definiremos o futuro, ou quem sabe o presente mesmo do nosso Cerrado. Frente à situação que temos, quatro anos são decisivos. São para hoje. Não estamos na década de 70, onde poderíamos ousar. Estamos em pleno ano de 2006 e frente ao cenário atual. A tendência, segundo uma série de estudos, é que o Cerrado desapareça em 2030, sobrando apenas às unidades de conservação, poucas e isoladas. Onde a proteção deverá ser cada vez mais eficiente. Por isso mesmo esta eleição é decisiva. Temos muito pouco tempo.

Nada se fala de conservação. Mas se quiser entenda que Cerrado é sinônimo de agronegócio, renda, exportação, agricultura, pecuária. Assim há apoio dos diferentes setores. Também se pode lembrar do Cerrado quando se fala em crise energética, que desponta dia-a-dia percorrendo o destino do nosso Cerrado para implantação de mais uma centena de hidroelétricas. E as propostas são sempre excelentes, para todos os setores, com exceção da área da conservação. Que perde extensas áreas sem nenhuma responsabilidade.

As pastagens sobem e descem, o preço do gado também. A soja tem altos e baixos e quando despenca, há uma corrida até Brasília e de algum lugar se despejam recursos para salvar os produtores quebrados. Ou agora passeatas, movimentos, estradas fechadas, tudo isso para salvar a área produtiva do país. Mas ninguém questiona o passivo ambiental existente deste setor em relação ao Cerrado, que deveria cumprir no mínimo a reserva legal e as áreas de preservação permanente.

Pior ainda são os impactos indiretos, não medidos, não mensuráveis. E então nossa primavera silenciosa é cada vez mais parecida com a primavera silenciosa escrita por Rachel Carson em 1962, que salientava a vulnerabilidade da natureza frente às ações do homem. De uma forma pioneira no mundo chamou à atenção dos perigos causados pelo uso indiscriminado de produtos químicos, destacando que os processos são integrados, que na natureza nada ocorre isolado. Isso foi em 1962, quando tínhamos a maior parte do Cerrado ainda intacta. Mesmo com todos estes alertas fizemos tudo igual, ou muito pior, porque tínhamos conhecimento e a tecnologia soprou a favor da destruição. Mas foi a questão política e econômica que prevaleceu sobre absolutamente tudo. Hoje temos um Cerrado quase totalmente ocupado, um uso incontrolável de produtos químicos, águas e alimentos contaminados, prejuízos direto sobre a natureza. E quem paga por este passivo. De quem é essa dívida?

Mas como diz o poeta Fernando Pessoa: Na vida tudo passa, até o universo passa. Por que então não passarão os aborrecimentos se até o amor passa? Pior de tudo é que nessa poesia quem passará será o Cerrado e não a destruição. Isso é o mais triste de toda esta história.

É evidente que o Cerrado em pé tem muito mais valor agregado do que cortado e explorado da forma que está ocorrendo. Isso é comprovado. Não estou sendo purista, dizendo que não deveriam existir áreas destinadas à produção. Claro que deveriam, mas dentro dos parâmetros mínimos aceitáveis de planejamento e de legislação. Estamos colocando tudo abaixo e nem sequer sabemos o que estamos perdendo. O negócio é abrir novas áreas e aumentar a produção. Porque Cerrado em pé é considerado improdutivo.

E se a primavera é silenciosa o verão promete efervescer. A primavera silenciosa repousa sobre o manto dos grandes campos úmidos e do Cerrado esquecido nas propostas dos candidatos. Esquecidos do tempo, das políticas, de tudo e de todos. Uma primavera silenciosa que desponta no céu do Cerrado, anunciando que o tempo é pouco e que as estratégias precisam ser efetivadas. Que o silêncio deve ser quebrado não com o barulho das colheitadeiras, mas com o vento tocando os buritis.

O país está parado e no sussurro alguns ventos sopram anunciando que o tempo é incerto. Que não temos garantia de absolutamente nada, que incorreremos no mesmo erro democrático de sempre - a incerteza. Olhamos, lemos, mas evidentemente não sabemos em quem votar. Não temos candidatos com propostas de conservação para o Cerrado.

O silencio que desponta na noite estrelada do Cerrado sugere que mais uma vez não podemos adormecer. Não podemos cochilar. Qualquer piscada de olhos pode apagar de vez a maior riqueza do nosso Brasil Central. Ou como gado que dorme com o olho aberto. E então. Como compôs Zé Ramalho, com seu admirável gado novo: Vocês que fazem parte dessa massa que passa nos projetos do futuro. É duro tanto ter que caminhar e dar muito mais do que receber. E ter que demonstrar sua coragem à margem do que possa parecer. E ver que toda essa engrenagem já sente a ferrugem lhe comer. Ê , ô ô, vida de gado, povo marcado, ê, povo feliz.
Comentários
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dalila 02/09/2008 19:18:37

primavera silenciosa
ÇLJK
TAYNARA 29/09/2008 16:25:02

KHGFGHJN
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