Um pedido por mais nascimentos naturais PDF Imprimir E-mail
Priscila Cavalcanti*   
04 Mai 2009, 15:07
O ar é irrespirável. O lixo se acumula, não se degrada. Animais estão à beira da extinção, como a jaguatirica, o lobo-guará, a onça-pintada, o mico-leão-dourado. No mar, manchas de óleo espalham-se pela costa. Nos rios do interior, a esquisita visão polar não resiste a uma análise mais de perto: não é neve, é espuma, é sabão! E isso tudo é Brasil, infelizmente.

Tem muita gente correndo. Desde profissionais especializados, que trabalham para organismos governamentais, até ONGs e associações internacionais; muitos estão incansavelmente trabalhando para brecar e até reverter – onde possível – o descaso com que o ser humano trata seu ambiente. Acontece que tais ações não têm tido resultados definitivos o bastante e nem na velocidade necessária – a predação, por parte do homem, continua.

Pensando com cuidado, talvez seja necessária também outra forma de olhar a questão. Ações não apenas para preservar, mas também uma atenção e atuação diretas sobre o predador, sobre o ser humano. E isso lá no começo, buscando “torcer o pepino” desde cedo.

Não se trata de educação ambiental para crianças. A atuação é ainda anterior: a proposta é o nascimento ecológico. E a idéia não é uma grande novidade, embora sua aplicação seja uma luta tão renhida quanto a despoluição de nossos rios. O assunto aqui é o parto, o nascimento, respeitado em sua forma mais natural possível.

A proposta não é desprezar a utilização da tecnologia e dos avanços da medicina. Mas essa tecnologia toda precisa ser utilizada de forma sensata: somente quando necessária. A tecnologia usada abusivamente presta desserviço ao homem, gasta recursos e causa impacto ambiental desnecessário.

A Organização Mundial de Saúde considera aceitável que de 10% a 15% dos partos sejam cesáreas, em razão das eventuais complicações que podem surgir durante a gravidez.1  O Brasil tem a taxa escandalosa de 80%!

Esse índice tão alto não diz respeito às mulheres e a sua capacidade de parir. Afinal, os quadris das mulheres encolheram? As cabeças dos bebês cresceram assustadoramente? O que aconteceu com a capacidade da fêmea de colocar seu filho no mundo? Há quem ameace a mulher que deseja um parto vaginal com a “explosão” de seus genitais, como se o bebê fosse um terrorista homem-bomba, como se parir pela via natural fosse condenar-se à mutilação e ao fim de uma vida sexual normal... Não é nada disso.

As razões desse excessivo uso da cirurgia de cesariana têm a ver com o pouco aprofundamento a respeito do parto. Da mesma maneira que se joga um saco plástico na rua, sem se procurar saber das consequências desse ato para a cidade e para o ambiente em sentido amplo, a gestante pode optar por uma cesárea porque “não sentirá dor” (só antes do parto, porque a recuperação é bem dolorosa), porque “é mais prático” ou até porque “o bebê passou do tempo” (uma das muitas indicações discutíveis para a cesariana). A gestante não sabe qual parto seria o verdadeiramente indicado para seu caso. A gestante nem sabe que poderia informar-se melhor a respeito.

O excesso de cesáreas também está relacionado à tendência intervencionista, que permeia o preparo técnico dos médicos obstetras na atualidade. É a ânsia pelo “fazer”, não se aguenta esperar o curso da natureza. A mesma pressa que pode levar uma mulher a marcar sua cesárea já contaminou a classe médica, que pouca disponibilidade tem para esperar a evolução satisfatória de um trabalho de parto para um parto natural. Além disso, a melhor remuneração da cesariana, que acontecia até algum tempo atrás, também contribuiu para a preferência dos obstetras pelo procedimento.

A percepção já é antiga: em 14 de outubro de 1989, José Aristodemo Pinotti publicou artigo, no jornal O Estado de São Paulo, com o título “Abuso Criminoso da Cesariana”, onde argumentava que “(...) criou-se um certo viés cultural no qual a “moda” era parir pela barriga (e também não dar de mamar no seio). Esse modismo teve várias causas, entre as quais a “conveniência” da paciente (e particularmente do médico) de parto com hora marcada. Caso contrário, o atendimento médico se faz necessário no momento em que o parto começa (e nunca se sabe quando), e dura de seis a dez horas. A cesariana por outro lado, pode ser programada, feita em uma hora, e tem rendimento econômico freqüentemente maior para o hospital e o médico. (...)” (fonte)

Cesarianas realizadas sem indicação correta são a transformação de um evento natural em ato cirúrgico. Além de não trazerem benefícios, nem para o recém-nascido nem para a mãe, envolvem riscos adicionais significativos para ambos. A maioria das mulheres tem condições físicas e emocionais para um parto natural, sem intervenções. Nascer é um ato fisiológico e ecológico, não precisa estar necessariamente marcado pela medicalização e utilização de aparelhos de ultrassom e cardiotocografia, pela anestesia, uso de indução química de contrações uterinas, nada disso.

O bebê que é acolhido no nascimento com respeito por seu ritmo biológico, recebe, desde cedo, a noção ecológica do respeito à natureza. Uma hipótese bastante considerada é que é o hipotálamo do bebê, quando este está pronto para nascer, que libera substâncias no organismo da mãe, dando início ao trabalho de parto. O ser humano, como a natureza toda, tem seu momento, tem seu tempo e isso é ecologia.

O obstetra francês, Michel Odent, figura fundamental na defesa do parto humanizado, refere-se ao “homem ecológico”, como criatura advinda do profundo respeito à natureza como um todo. No livro “Gênese do Homem Ecológico – Mudar a vida, mudar o nascimento, o instinto reencontrado” (Tao Editora, São Paulo, 1992), ele diz:

“Os dados da ciência são suficientes para afirmar que nosso mundo está acabado, que os recursos terrestres são findáveis, que a poluição do ar, da água e da terra não deverão ultrapassar certos limites e que um crescimento demográfico excepcional está proibido.” (p.43)

Ele fala da “revolução ecológica” e diz que surgirá uma “solidariedade entre as espécies vivas” (p. 44) e que o “homem ecológico” precisa surgir de uma nova forma de nascer, mais ligada ao nosso aspecto natural. Essa nova forma de nascer, quando possível e em uma mulher saudável, estará desvinculada do modelo intervencionista, que é o que vigora no Brasil. O parto natural, humanizado, enraizado no poder do corpo feminino de dar à luz, é ecologia e se coaduna com os objetivos de quem defende a preservação da natureza.

Diante das evidências científicas de que a mulher, em geral, está pronta e apta a dar à luz de forma natural, sem necessidade de intervenções e sequer de internação hospitalar2, algumas iniciativas isoladas surgiram nos últimos anos, como o Projeto de Lei nº 2.354, de 2003, da deputada Janete Capiberibe, que reconhece e regulariza a profissão de parteira tradicional. A idéia é contemplar as mulheres que atuam em locais distantes dos grandes centros e de difícil acesso, permitindo até que essas parteiras recebessem pagamento pelo SUS, por seu trabalho.

O interessante é que as parteiras tradicionais costumam ter quase que somente histórias de sucesso para contar:

"A presidente da Associação das Parteiras de Jaboatão dos Guararapes, Maria dos Prazeres, receberá o prêmio, Diploma Mulher Cidadã Bertha Lutz, do Senado, pelo trabalho realizado à frente da entidade e pela atuação como parteira. São mais de 50.000 partos sem nenhum óbito (grifo nosso)". (Fontel)

“Estimam-se 60.000 parteiras em atividade no país.  Elas são responsáveis por 20% dos partos na periferia dos centros urbanos, 40% no interior e 70% nas regiões Norte e Nordeste.” (Fonte)

“No Amapá, pontinha do Brasil, mulheres sem diploma, nem alfabetização, têm garantido a queda no número de cesarianas e nas taxas de mortalidade materna e infantil. São as parteiras, que ajudam mulheres que vivem à beira dos rios e nas florestas, a dar à luz a brasileiros e brasileiras sem plano de saúde ou INSS. (...) As parteiras existem desde sempre, mas só há sete anos são reconhecidas.” (fonte)

‘ "O índice de mortalidade materno-infantil onde atuam é baixíssimo", diz Suely Carvalho, uma das coordenadoras da ONG [C.A.I.S. do Parto]. Neste ano, o Estado do Amapá foi escolhido para o encontro justamente por seus índices surpreendentes. Desde 1996, o governo investe em cursos de capacitação e na distribuição de bolsas-parteiras – um kit com material de cuidados básicos. A revalorização do parto natural no Hospital da Mulher Mãe Luzia, em Macapá, resultou num índice médio anual de 12,48% de cesarianas, abaixo dos 15% indicados como aceitável pela Organização Mundial de Saúde.‘ (fonte)


Entretanto, o projeto de lei pioneiro foi arquivado a pedido da autora, tendo recebido voto contrário (do deputado Jorge Alberto, ora inativo), que afirmava que a atenção ao parto deve acontecer por médico, para buscar a redução da mortalidade neonatal...

Existe, desde 2000, o programa “Trabalhando com Parteiras Tradicionais”, em que o Ministério da Saúde capacita as parteiras “leigas” para o trabalho onde falta atendimento hospitalar. Entretanto, a tendência dominante é o entendimento de que o parto tem de ser medicalizado, hospitalar e tecnológico, sem levar em conta o impacto ambiental desnecessário desse atendimento – por exemplo, em locais como o Pantanal Matogrossense3 - e o custo da paciente (e do bebê) ao erário público, que também poderia ser economizado.

A “revolução ecológica”, como propõe o próprio Odent, não significa o combate frontal àqueles e àquilo que destrói o meio-ambiente. A revolução ecológica é a proposta de mudar a vida, mudar o ser humano, através da mudança do nascimento. Do nascimento ecológico, surge o homem ecológico, que vê o mundo como um ambiente a preservar e busca reduzir o impacto de sua existência, porque respeita a natureza e a vida.

* Advogada, consultora em amamentação e coordenadora da Barriga Boa – Apoio para Gestação, Parto e Pós Parto / http://www.barrigaboa.com.br



1 - Antonio Horacio Toro Ocampo, representante no Brasil da Opas (Organização Panamericana de Saúde), escritório regional da OMS (Organização Mundial da Saúde), (fonte)

2 - Marie Hatem, Jane Sandall, Declan Devane, Hora Soltani, Simon Gates “ Midwife-led versus other models of care for childbearing women”, in The Cochrane Library, http://www.mrw.interscience.wiley.com/cochrane/clsysrev/articles/CD004667/frame.html)

3 -  Ver: http://www.cpap.embrapa.br/agencia/simpan/sumario/artigos/asperctos/pdf/abioticos/412RA-SIMPAN_AOKVisto.PDF
Comentários
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Conceito muito interessante
Peter Crawshaw Jr. 06/05/2009 05:57:28

Gostei muito do artigo! Nunca tinha pensado desta forma, mas faz sentido! Vai
ser interessante avaliar se as pessoas que nascem de nascimentos naturais
terão, realmente, uma atitude diferente, de mais respeito, com relação à
Natureza e ao meio ambiente. Talvez isso já seja um reflexo também da atitude
dos próprios pais, que optam por partos naturais.
Parteiras !!
Nadia Santos 06/05/2009 08:38:48

Matéria bem interessante, Não sabia que existia, projetos, estudos, livros e
apoio ao parto natural, e muito menos apóia as Parteiras. Pelo que eu já vi
aqui o apoio e o incentivo é ao parto sem dor e com dia e hora marcada. É
assim que geralmente funcionam nas grandes cidades. Gostei. Legal!
otima proposta
Flavia penido 07/05/2009 19:18:19

gostei muito do artigo, muito claro e direto sobre um tema tão polêmico. O
parto é fisiológico e deveria ser respeitado como momento familiar. Não se
trata de doença mas de saúde!
Ótima matéria! Excelente Visão!
Lilian Albano 12/05/2009 08:14:56

O Programa BemVindo parabeniza esse escelente texto. Parece que nossas
diretrizes e crenças estão alinhadas com suas idéias. É um enorme prazer,
Priscila, tê-la como conselheira da nossa ONG. Forte Abraço, Lilian Albano
Errata
Lilian Albano 12/05/2009 09:38:52

Desculpem, escrevi excelente com S.
Texto muito bom!
Leuza Maria Rodrigues Pereira 14/05/2009 15:11:07

Muito importante a associação da preservação do meio ambiente com o parto
normal. As mulheres parindo naturalmente podem contribuir com homens
ecologicamente corretos.
Um pedido por mais nascimentos naturai
Luiz Cavalcanti de Albuquerque 15/05/2009 09:20:00

Muito bom artigo e bem posto. Sou a favor de tudo natural, assisti a três
modalidades de parto e sempre achei que o natural é o que menos faz mal à mãe
e ao bebê.
fabiana melo 10/06/2009 14:50:16

GOSTEI MAS NAO TEM NADA EXPLICANDO
Carência de Informações Comparativas
Nicole Harari 02/07/2009 09:23:57

Priscila, quando você cita o médico Michel Odent: "crescimento
demográfico excepcional está proibido", a mim parece que ele está dizendo
que o parto normal age como um controle demográfico natural em função das
possíveis mortes decorrentes do parto, então não vejo como isto funciona como
argumento a favor do parto natural. Acho ainda que esta polêmica carece de
dados comparativos que façam mais sentido para as mulheres de acordo com sua
situação. Por exemplo: mulheres que trabalham em escritórios versus
trabalhadoras braçais, mulheres que vivem em grandes centros versus mulheres
que vivem locais afastados, mulheres com acesso a medicina particular versus
mulheres sujeitas ao sistema público. Temos observado que mulheres com maior
poder econômico tendo dado a luz mais tardiamente e normalmente com muita
dificuldade para engravidar. Acredito que estas mulheres não gostariam de
entregar sua, muitas vezes única, chance de ter um filho nas mãos da "mãe
natureza" e da seleção natural. Nunca vejo números sobre problemas de
falta de oxigenação. Não sou contra o parto natural, mas não é possível
colocar todas as mulheres num mesmo saco e dizer que o que é bom para uma é
bom para a outra também. Acho que o tema carece de números e pesquisas
comparativas mais consistentes para que as mulheres possam fazer suas escolhas
sem fatalismo, determinismo ou romantismo.
Gostei muito.
JUCILENE 21/08/2009 08:31:03

Eu sempre quis ter um parto normal, agora estou grávida de 2 meses, espero que
seja um parto natural, parabéns Priscila gostei muito do que eu li.
Sou contra e por experiencia propria
Esther 22/11/2009 05:30:16

Tive parto normal e foi o pior momento da minha vida. Nunca senti dores tao
horríveis epor um período de tempo tao prolongado. Vc se sente como um bicho!
Jamais me sujeitaria a ter parto normal de novo!É uma brutalidade muito grande
com a gestante ! e olha que o meu parto foi num país do vulgo "primeiro
mundo" e deu certo e foi sem complicacoes, " porque se á errado é bem
pior... Me arrependo até hoje de nao ter tid cesariana. Bom, quem quer voltar
no tempo que vá viver na amazonia com os índios e que seja feliz!
nascer tem que ser natural! pena que nós não somos
Amarilys de Toledo Cesar 08/02/2010 07:30:06

Tive 3 filhos, todos por parto normal, porém com anestesia peridural. A
terceira filha nasceu só com anestesia local, e aí foi a experiência mais
linda! É um respeito à mãe e aos filhos! Uma experiência magnífica.

A
questão é que perdemos nossa natureza e temos dificuldades com um ato que
deveria ser natural: temos medo (que nos é incutido por diversas pessoas), não
nos sentimos capazes e confiantes. Não acreditamos ser importante respeitar o
tempo do bebê, a escolha dele. Não confiamos que - em geral - tudo vai dar
certo. E acreditamos nas conversas médicas de "cordão enrolado",
"pressão alta", etc.

Mais mulheres deveriam ter o direito de passar
por esta experiência.
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