Limites

O que leva o homem a buscar a superação de si mesmo e dos seus limites? Em que momento esse comportamento pode ser explicado pela ciência e pela psicologia e a partir de que ponto esse limiar da racionalidade se rompe, tornando essa busca auto-destrutiva? É tudo uma questão do relacionamento do homem com o risco e como este influi na decisão por atividades extremas. Estudos feitos na área de psicologia indicam algumas diretrizes desse comportamento e, com base nessas informações, decidi fazer uma introdução à questão dos limites sob o ponto de vista do risco e da incessante busca pela superação para dar início a uma série focada nos extremos da resistência humana encontradas em eventos como Eco Challenge, Tour de France, Ultra Maratonas e outros.

Desde a morte de Victor Negrete venho sendo questionada por pessoas que estão dentro e fora do ambiente dos esportes outdoor com a pergunta: “Por quê?” Por isso, antes de entrar diretamente na análise dos eventos focos desta série, busquei uma linha que pelo menos levantasse algum questionamento mais fundamentado sobre o assunto. A minha pesquisa chegou à descrição do risco e a partir de que fatores psicológicos o homem se sente atraído por eles.

O risco-desejado

O que é o risco? O dicionário explica rapidamente - “é o perigo ou a possibilidade de perigo, podendo ou não levar à morte”. Isso não é novidade para ninguém. Mas o que seria então o risco-desejado? Os teóricos Machlis e Rosa explicam que o risco-desejado está relacionado às atividades que geram incertezas quanto às suas conseqüências, mas que são justamente estas incertezas que compõem os fatores essenciais e propositais deste comportamento. Nos esportes outdoor, é a aventura como dimensão positiva dos riscos. A análise do risco isoladamente é composta de um conjunto de cálculo, percepção e gerenciamento da situação. No risco-desejado a racionalização deste conjunto foge do contexto, pois somente assim as sensações experimentadas, que são os geradores do “vício”, se tornam possíveis.

Risco x Aventura

Uma vez entendida a questão do risco-desejado, podemos traçar alguns paralelos do comportamento como o risco versus a aventura, como um traço da personalidade do praticante. Aqui o grande motivador é a descoberta, a busca pelo novo, pelo complexo e pela diversidade de situações. O praticante opta pela disposição de correr riscos físicos, buscando uma sensação de prazer pela experiência destas atividades. O interessante é que os psicólogos afirmam que existe uma escala de aceitação de risco pela descoberta e que cada um de nós possui uma “pontuação” na disposição de se expor.

Outra questão esclarecedora é que a aventura não está diretamente ligada aos motivadores da prática do esporte outdoor e sim à experiência de clientes do turismo de aventura. A explicação é simples: aventura está ligada com o imprevisível. Mas não são imprevisíveis os esportes outdoor? A minha resposta é: sim e não. Sim pelas situações não controláveis pelos praticantes como, principalmente, a natureza. Entretanto, justamente por envolverem risco de vida, a preocupação com procedimentos e segurança é tanta que o imprevisível se dissolve. Já quem contrata serviços de turismo de aventura está entregando o controle da segurança a profissionais, podendo experimentar a surpresa da experiência com mais intensidade. A definição para esses serviços contratados é explicada por outro estudo realizado por psicólogos da PUC-SP: “Da exacerbação dos sentidos no encontro com a natureza”, mais ou menos como "aventura com cinto de segurança".

Risco x Caráter

No comportamento manifestado pelo risco versus caráter, a situação é encarada como uma atividade educativa, mesmo que de forma subliminar ou subentendida. Nem sempre ela é buscada de forma proposital como em treinamentos específicos, principalmente corporativos, já comentados em artigos anteriores. Aqui, o praticante consegue manifestar características fortes de caráter como persistência, equilíbrio mental e objetividade conseguindo desenvolvê-las por meio de atividades extremas em que a ação é fundamental e que exige um comportamento reativo. A atração por este cenário vem do fato de que algumas pessoas possuem essas características, mas optam por não manifestá-las no ambiente social cotidiano. Uma vez experimentada essa sensação de grandeza, autocontrole e auto-realização, fica difícil não querer repetir a dose.

Risco x Busca do sentido da vida

Esse é o meu predileto, pois o que eu sempre achei que fosse puro romantismo tem uma fundamentação científica. Na exposição ao risco pela busca de sentido pela vida, o praticante tem consciência de suas ações, mas não percebe a consciência que tem delas. Parece um jogo de palavras, mas a explicação é simples: neste cenário, ação e consciência tornam-se um só e são expressas como um instinto. A preocupação do praticante é única e exclusivamente com o presente (mais especificamente, com o momento) descartando ponderações sobre o passado ou o futuro, fazendo com que a vida passe a valer a pena simplesmente pelo fato de estar vivenciando aquele momento. Voltando ao jogo de palavras, por tratar-se de uma atividade de risco, os procedimentos já foram mais do que visualizados e analisados antes que uma situação extrema apareça. Porém, quando ela acontece, essa certeza de saber o que fazer na hora certa fica nublada e a superação do obstáculo é alcançada como que por instinto, mas na verdade foi uma ação consciente.

O prazer como resultado somente é alcançado sob esta perspectiva. Uma vez defrontada com a racionalização durante aquela ação, a magia se perde e o sentido deixa de existir. O risco é procurado e encarado como uma forma necessária e importante para ganho de desempenho e experiência naquela atividade. O truque é saber administrar a racionalidade para checar equipamentos e procedimentos, para então poder se abandonar pelo estímulo e experimentar a sensação do sentido da vida.

Os psicólogos da PUC-SP explicam que esse é o momento informalmente chamado de “adrenalina”. Para exemplificar e descontrair (hoje estou séria) busquei um paralelo em experiências anteriores, e me lembrei de ter experimentado essa sensação de “adrenalina” em algumas escaladas, com uma situação que me ocorre com freqüência em três etapas e que vejo em alguns amigos.

A primeira, ao me deparar com uma situação “esquisita”, mas ainda de fora dela quando penso: “O que estou fazendo aqui? Por que não estou na praia com as minhas amigas?” Uma vez vivenciando a situação, o raciocínio fica um pouco mais exagerado: “Droga! Se eu não morrer vou me machucar muito!!!” E, finalmente, após superar ilesa o desafio, o resultado é instantâneo: “Que irado! Preciso fazer isso de novo!” Agora sabemos que talvez não Freud, mas outros psicólogos explicam.

E os limites?

Com essa análise do comportamento de atração ao risco, me sinto mais confortável para trazer dados sobre eventos tão fascinantes, e ao mesmo tempo aparentemente irracionais, como os treinamentos de superação de limites que levam as pessoas às competições como o Eco Challenge, correr sem parar 50 km nas ultra maratonas ou até escalar a montanha mais alta do mundo sem o auxílio de oxigênio extra. Quero deixar claro que ainda não descarto a extrapolação dos limites em casos isolados. Inclusive, os estudos que encontrei também traçam paralelos com o consumo de drogas lícitas e ilícitas, como uma forma lenta de abandono do corpo e da mente, juntamente com alguns extremos de treinamentos em esportes outdoor. Porém, creio que a grande maioria dos praticantes destas atividades de esportes de aventura são plenamente entendidos dentro dos três aspectos avaliados nessa introdução ao tema.

O que me deixou curiosa foi que me identifiquei em parte com os três cenários descritos: o fascínio pela descoberta e pelo novo, o auto-desenvolvimento e o encontro do sentido da vida nos momentos mais extremos. Mas tenho um pressentimento de que não sou a única. O que vocês me dizem?

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