Quem te viu, quem te vê

Você já parou para avaliar se desde que começou a se interessar pelo universo outdoor alguma coisa mudou? O seu planejamento de férias inclui lugares e atividades diferentes daqueles escolhidos pela maioria dos seus conhecidos? Você se descobriu uma pessoa ao mesmo tempo hiperativa e tranqüila? Seu fuso horário é diferente? Se você se identificou com alguma dessas características é porque a intimidade com a atividade outdoor já está se refletindo em alterações no seu comportamento. Por mais latente que seja esse fato, a verdade é que cada vez torna-se mais perceptível o crescimento e a caracterização deste grupo – são os novos membros da comunidade outdoor.

Antes de tudo, gostaria de contar a motivação que tive para fazer essa pesquisa, pois acredito que muitos podem se identificar com a situação. Durante uma troca de mensagens com minhas amigas, pude perceber nas respostas um sensível tom de revolta por mais uma recusa minha em participar de um evento à noite, pois tinha uma escalada marcada para a manhã do dia seguinte. Elas não escalam e sei que tentam arduamente, durante os últimos cinco anos, compreender todas as minhas mudanças de comportamento desde que me apaixonei pelo montanhismo.

São as poucas e mais importantes amizades que tenho fora do universo outdoor, pois a diferença de rotinas acabou me afastando de inúmeras outras amizades (hoje, a maioria dos meus amigos realiza alguma atividade vinculada ao montanhismo). Por isso e para tentar explicar para elas, resolvi analisar um pouco das mudanças de comportamento que ocorrem com os novos membros da comunidade outdoor, pessoas que alteram naturalmente suas antigas rotinas para adquirir uma sinergia com esse mundo novo.

Dormir e acordar cedo, prestar mais atenção à alimentação e ao corpo, evitar bebedeiras e cigarros, manter a disciplina de treinamento ou uma rotina ativa de prática do esporte, mesmo que seja apenas nos finais de semana. Parecem as exigências cobradas de um atleta profissional, não? Mas também olhar mais para os lados, para cima e para baixo, caminhar pela cidade e reparar o mar, as montanhas, as árvores que ficam no caminho. Divagar pelo tempo e espaço, imaginando como seria praticar o seu esporte preferido naquele lugar paradisíaco. Por um lado, adquirir uma concentração invejável, e de outro, uma expressão de abstração enquanto observa e escuta o mundo ao seu redor.

Essas são algumas das muitas características de quem decidiu investir em uma nova realidade e acaba sendo visto com curiosidade pelos mais próximos, que acabam também se adaptando e aprendendo a compreender a nova rotina desses amigos aventureiros.

Percepção da natureza

As mudanças comportamentais ocorrem basicamente em algum dos três aspectos seguintes. O mais instintivo diz respeito à sensibilidade frente à natureza. É a beleza de um pôr-do-sol ou de uma lua cheia que não tinha sido percebida antes. O cheiro da brisa ou do mato depois que chove, o panorama alcançado no cume de uma montanha ou a imensidão plácida de um oceano bem à sua frente. Árvores, flores, animais, todos ganham mais atenção e respeito após serem reapresentados aos membros dessa comunidade.

No início ocorre uma sensação de “como posso não ter visto isso antes?” e a ânsia em conhecer novos horizontes aumenta automaticamente. Por isso, os planos de viagem tornam-se mais freqüentes, mas os destinos e roteiros costumam ser bem pouco atraentes para quem não pratica a atividade em questão. A fascinação pela paisagem não muda, mas com o costume é possível perceber os detalhes do meio que está à nossa volta mesmo durante uma atividade esportiva exigente. Nesse momento a hiperatividade reina, mas não interfere no bem-estar proporcionado pelo ambiente.

Desenvolvendo aptidões

Outro aspecto de mudança comportamental é referente às características inerentes à prática dos esportes outdoor. Por carregarem uma dose de risco, esses esportes exigem o desenvolvimento de algumas aptidões como concentração, atenção, reflexo, espírito de equipe, gerenciamento de riscos e solidariedade, além de muita criatividade. Prova disso é a nova moda entre empresas de grande porte em contratar serviços de Outdoor Training ou Treinamento Vivencial, em que seus executivos são avaliados durante a realização de alguma atividade outdoor.

É a nova versão da dinâmica de grupos, mas em níveis hierárquicos bem elevados. Você promoveria um diretor a presidente se ele não demonstrasse senso participativo? A descoberta é que é muito difícil “fantasiar” um comportamento em situações extremas, e por isso, os resultados de análises de perfil desses grupos são mais assertivos. Independentemente do lado profissional, a prática constante desses esportes requer deixar a frescura de lado (principalmente para as mulheres, em doses suportáveis, é claro) e levar a atividade a sério.

Lógica saudável

A saúde é um terceiro aspecto que ganha mais atenção. O desenvolvimento da sensibilidade frente à natureza colabora com uma maior sensibilidade com o próprio corpo. Obviamente são mudanças subjetivas e variam de indivíduo para indivíduo, mas é comum encontrar uma maior preocupação com a alimentação e com o respeito aos descansos que o corpo pede. Sem uma sinergia entre esses dois pontos a evolução no esporte torna-se mais difícil. Com tanto o que exigir da saúde nessa rotina de esportes, fica complicado querer se embebedar, dormir mal e ter um bom rendimento no dia seguinte.

Aproveitando essa motivação com a saúde, algumas pessoas exploram o esporte não apenas como uma atividade saudável, mas também como uma alternativa às academias, ganhando, além de tantos benefícios, um trabalho estético do próprio corpo de forma mais natural e prazerosa.

É importante mencionar que nenhuma dessas mudanças acontece com praticantes esporádicos de qualquer atividade. Esse é um processo lento, que ocorre naturalmente devido não apenas às exigências de cada esporte, como também à paixão que assola seus praticantes, não só pela atividade, mas pelo ambiente em que ela é praticada. Na maior parte dos casos, eu percebo essas mudanças comportamentais apenas quando espelhadas nos comentários de amigos, família e, principalmente, das amigas para quem dedico este texto.

Agora, além de compreenderem melhor o que acontece com quem adere a essa comunidade, quem sabe elas não sucumbem às minhas tentativas de trazê-las para este mundo? Alguém se anima?

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