Para colocar na agenda - 1º semestre

Ano Novo. Não sou tão entusiasmada com a virada do ano como a maioria das pessoas. Pelo contrário, sou daquele tipo que, depois dos beijos, abraços e brindes dos primeiros minutos do ano pergunta: "E agora? O que acontece?" Mas um fato que não posso questionar é a minha paixão por planejamentos estratégicos (afinal, essa é a minha profissão). Sou péssima com planejamentos de curto prazo, como aqueles que antecedem uma viagem ou uma escalada, mas com a agenda de longo prazo me delicio. Teoricamente, já tenho todas as viagens, expedições e vias de escalada agendadas categoricamente, na primeira hora do ano. Por isso, achei interessante compartilhar aqui no O Eco a agenda que eu gostaria de cumprir em 2006. Independente do ano, o importante é ter a certeza de que mais cedo ou mais tarde, todos esses destinos entrarão na categoria "Ana Araujo esteve aqui". E por que não vocês também?

Janeiro: Ibitipoca/ MG

Janeiro já passou, por isso meu primeiro destino foi remanejado para 2007. Mas independente do mês, vale conhecer este paraíso mineiro. Tem atração para quem gosta de uma fauna rica e de difícil acesso devido à extinção, como lobos-guarás, onças pardas, jaguatiricas, papagaios do peito roxo e vários outros, e atração também para quem aprecia uma flora para lá de charmosa, com orquídeas e quaresmeiras. Tem passeio para quem não quer suar muito como a visita ao Lago dos Espelhos, onde a água reflete a luz do sol e o Circuito das Águas, com sete quilômetros (ida e volta) por entre cachoeiras, grutas e paisagens de tirar o fôlego, mas só na forma figurativa.

O Parque Estadual de Ibitipoca, inaugurado em 1973 agrada também, e muito, aos trilheiros mais empolgados com caminhos exigentes como o passeio à Cachoeira dos Macacos ou à Janela do Céu, reconhecida como a cachoeira mais bonita do local, mas que cuja trilha de acesso leva quatro horas. O grande desafio deste passeio são os 3,5 quilômetros de subida íngreme, ou seja, metade da trilha de ida. Até aí nem parece tão forte, certo? O problema é que o percurso de 3,5 quilômetros de subida ocorre tanto na ida como na volta, ou seja, no total são sete quilômetros pirambeira acima. Mas vale a pena, pois são sete quedas d’água, com a mais alta a 180 metros de altura.

Para o último dia uma dica é não esquecer de fazer um passeio a cavalo pelo parque e, antes de embora experimentar uma pinga. Mas ambos só na despedida, senão o dia seguinte não será nada recomendável para aventuras.

Fevereiro: Serra do Cipó/ MG

Parte do caminho dos bandeirantes em busca de outro e pedras preciosas, o Parque Estadual da Serra do Cipó hoje abriga durante todo o ano centenas de viajantes em suas mais diversas buscas - sítios arqueológicos com pinturas rupestres em grutas e cavernas, cânions, cachoeiras, trilhas, escaladas e a exuberante flora e fauna da região. Excelente opção para a semana do carnaval.

O Cânion dos Confins é uma das atrações mais procuradas, com doze quilômetros de caminhada em uma trilha moderada que pode ser feita a cavalo. Mas atenção! Leve água o suficiente porque no meio do caminho não existe opção para reabastecer. Fique atento também para as trilhas que levam às cachoeiras como a da Farofa e do Gavião, pois sem um guia ficam de difícil identificação. E não vá embora sem conhecer a Cachoeira Grande, cujo acesso pode ser feito facilmente a pé, a cavalo ou de bicicleta.

Para quem gosta mesmo de pedra, a Serra do Cipó é o paraíso da escalada esportiva e ponto de encontro de diversos escaladores desta modalidade nesta época do ano. São vias de calcário, negativas com muitas opções de escaladas acima do sétimo grau de graduação.

Março: Paraty/ RJ

As águas de março às vezes tornam esse mês um pouco ingrato, mas por outro lado, o clima tende a ficar mais ameno com a chegada do outono, tornando qualquer trekking mais agradável. Por isso uma boa caminhada em uma região litorânea é a minha sugestão. E nada melhor para fechar o verão do que a Travessia da Joatinga, que vai de Paraty à Laranjeiras, no Rio de Janeiro. São três dias para os mais condicionados ou cinco para quem quer curtir cada pedacinho de praia, cachoeiras, água cristalina, uma flora muito rica e a comidinha típica do local.

A trilha começa em um barco até a Praia Grande e depois percorre a pé todas as doze praias, intercalando entre morrotes, quedas d’água, percursos de mata aberta e fechada. O passeio fica exigente mesmo na chegada à Praia de Ponta Negra (grave este nome), cujo acesso se dá por uma pirambeira para lá de inesquecível. Fôlegos a parte, todo esforço vale a pena, apenas para testemunhar as paisagens paradisíacas de Martins Sá, Antiguinhos, Praia do Sono, Cairuçu... dentre outros. E para fazer um passeio completo, uma visita cultural à Paraty, essa cidade que guarda belas histórias sobre o passado.

Ah! E tem mais – a travessia fica dentro de um corredor ecológico que atravessa a APA do Cairuçu, a Reserva Biológica da Joatinga, o Parque Nacional da Serra da Bocaina e o Parque Estadual da Serra do Mar. Esse mês não tem feriado para ajudar, mas para quem está de férias, é impossível não conhecer.

Abril: Bonito/ MS

Localizado em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, conhecer Bonito é uma excelente opção para a Semana Santa ou aproveitando o feriado emendado de Tiradentes. A época das chuvas está mais distante, porém com seus frutos ainda presentes, como a cheia dos rios e cachoeiras e abundância da flora, atraindo os animais para se alimentarem. A região é conhecida pelos amantes do mergulho, principalmente. O local tem cinco pontos específicos para a prática do esporte e diversos rios para explorar e pescar, como a Gruta Mimoso, Nascente do Rio Formoso, Lagoa Misteriosa, Abismo Anhumas e Gruta Ceita Coré. Uma vez no centro de Bonito, o ideal é conhecer esses locais de carro ou ônibus. Todos ficam em média a 35 e 45 quilômetros de distância do centro da cidade, porém, em direções opostas.

Cada modalidade de mergulho é diferente da outra. Na Gruta Mimoso por exemplo, o mergulhador deve ter treinamento em exploração de cavernas, maior atração deste local, que permite a penetração de até 70 metros pelo interior delas, no Salão dos Cones, testemunhando as peculiaridades das formações rochosas e da fauna e flora características deste meio. A Lagoa Misteriosa possui esse nome devido à sua profundidade não confirmada. Alguns dizem passar dos 200 metros, mas o grande atrativo deste pequeno paraíso de águas cristalinas é a visibilidade que essa característica permite, chegando a até 40 metros.

Infelizmente em Bonito quase todas as atividades são pagas e a lei municipal exige o acompanhamento de um guia na visitação dos pontos mais famosos. Quem preferir economizar na estadia para gastar conhecendo o local, pode pernoitar nos campings do Balneário ou da Ilha do Padre.

Maio: Pedra do Baú/ SP

A Pedra do Baú, localizada em São Bento do Sapucaí, no interior de São Paulo, é o tipo do lugar que uma viagem apenas não é o suficiente para explorar todas as suas opções, principalmente na prática de esportes. Ainda mais nos poucos três dias do feriado do Dia do Trabalho. Mas para quem quer anotar na agenda, pode escolher entre saltos de asa delta ou paraglide, a partir de uma rampa a 1.800 metros do nível do mar, oferecendo um visual memorável.

Para os montanhistas então é até injusto querer citar todas as opções em apenas um parágrafo. São inúmeras escaladas e trilhas no complexo rochoso formado pela Pedra do Baú, Bauzinho e Ana Chata, todos com aproximadamente 450 metros de altitude e em uma região a 1.950 metros do nível do mar. O acesso às pedras é fácil e as escaladas variam de graduações mais fáceis para os iniciantes até vias mais exigentes. O abrigo de montanha de Eliseu Frechou oferece, além das facilidades da casa, um ótimo muro de escalada indoor, para os dias em que São Pedro não ajudar na escalada.

As opções de caminhadas e mountain bikes também são interessantes. Com trilhas que levam até a parte alta do complexo, o viajante ainda pode optar por conhecer cachoeiras ou simplesmente se deslumbrar nos mirantes e curtir a paisagem.

Junho: Serra do Caparaó/ MG-ES

A chegada do inverno pede por uma expedição mais distante, pois o clima estável permite planejamentos estruturados a locais mais isolados. Ainda mais com o feriado de Corpus Christi. Essa é uma excelente desculpa para conhecer o Pico da Bandeira, o terceiro ponto culminante do país com 2.890 metros de altitude. Possui esse nome por uma determinação de D.Pedro II, desde 1859. E já que o tema é agenda, este passeio permite acrescentar o Pico do Cristal, o quinto em altitude com 2.798 metros. Os dois marcos ficam na Serra do Caparaó, com acessos por Minas Gerais ou pelo Espírito Santo. Essa característica por si só já permite dois passeios completamente diferentes.

Começando por Minas Gerais a trilha tem mais atrativos para quem gosta de desafios. Depois de enfrentar 4,5 quilômetros de subida entre os campings do Tronqueira e Terreirão, o viajante pode optar por ir direto ao Pico da Bandeira, conquistando mais 4,5 quilômetros de uma subida um pouco mais pesada que a primeira. Se preferir deixar este percurso para o dia seguinte, pode percorrer os 11 quilômetros da Trilha da Ferradura, passando pelo Pico da Bandeira e Pico do Cristal, além de vales, rios e vários morrotes.

Se preferir algo um pouco mais leve, mas tão atraente quanto, o trekker pode iniciar o passeio pela entrada do Espírito Santos, pela Pedra Menina. Esse trajeto cruza diversas cachoeiras como a do Aurélio, cachoeira da Farofa e dos Sete Pilões, todas com acesso complicado por carro, portanto, opte pela caminhada. O camping da Casa Queimada tem mais infra-estrutura do que as opções do lado mineiro, como banho quente.

Aiai, tanto o que fazer e tão pouco tempo disponível. Com essas sugestões para o primeiro semestre já dá para ficar uma semana inteira sonhando e alinhando todas as datas. Isso porque ainda não coloquei aqui a viagem internacional do ano, mas essa está na segunda metade da minha agenda e é outra parte.

Queria agradecer à leitora e montanhista Sílvia Batalha, por ter tido o trabalho de levantar a agenda de feriados de 2006 que, sem querer, se tornou a minha base para escrever esse texto. Obrigada Viá!

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