Fiéis Escudeiros - Arrumando a casa
Ana Araujo
13 de Janeiro de 2006

Uma vez com a mochila escolhida, a roupa separada e a bota devidamente amaciada, chegou a hora de selecionar todo o material que permitirá uma viagem e estadia confortáveis e condizentes com o nível da empreitada. Nesse momento, é impressionante como se torna tênue a linha que separa os equipamentos necessários das tralhas fúteis, assim como a qualidade das comidas ingeridas no caminho. E pior do que pecar pelo excesso é pecar pela falta. Economia demais também é um problema, mesmo se o seu objetivo seja ficar leve. Então, como resolver esse xadrez que é equipar adequadamente a mochila? O importante é planejar tudo muito bem com antecedência para evitar arrependimentos.
Regra número um: informação é a base de tudo.Ando até encabulada de repetir isso o tempo todo, mas é verdade. Falei isso quando escrevi sobre a escolha da mochila e dos calçados, e não seria diferente agora, no finalzinho do planejamento. Normalmente, quase todas as perguntas necessárias já devem estar respondidas nesta etapa – Para onde vou? Quantos dias ficarei fora? Qual a estrutura de comunicação do local? Ficarei incomunicável? Quantas pessoas irão comigo? Quais as facilidades da área (hospital, comércio, transporte etc)? O que vou fazer (caminhar, escalar, mergulhar etc)?
De posse de todas as essas informações é possível definir o que levar para atender às próximas duas regras básicas de viagens que envolvam camping, ou seja, ficar leve sem deixar o essencial para trás.
Regra número dois: viaje leveAlguns detalhes fazem toda a diferença depois de alguns quilômetros de pirambeiras, descidas, chapadões, rios, praias, cachoeiras...ufa. Ainda bem que mais uma vez a tecnologia atua em favor dos trilheiros, desenvolvendo equipamentos que prezam pela leveza. Portanto, lembre-se disso na hora de comprar principalmente sua barraca e saco de dormir.
O tamanho ideal para uma barraca é de um “número” a mais do que o número de pessoas que irão habitá-la, ou seja, se forem dormir duas pessoas, leve uma barraca com capacidade para três. É comum esquecer que não só as pessoas ficam dentro da barraca, mas também as mochilas com o equipamento e comidas. Uma boa barraca (considerada leve) pesa em média de 2,5 a 3,5 quilos e deve ser resistente ao vento e à chuva. É bom lembrar que o tempo pode mudar em questão de minutos, portanto esteja preparado para isso. Recomendo aquelas com avanço, ou “varanda” para os mais íntimos. É uma extensão que permite que o equipamento e calçados sujos de terra fiquem separados da área de dormir, sem contanto, ficarem desprotegidos ao relento. O peso varia do material utilizado. As varetas de sustentação podem ser de fibra ou de alumínio, que é mais leve, e o tecido pode ser tratado ou apenas de lona, que é mais pesada.
O saco de dormir é outro equipamento em que o peso pode ser mais bem administrado de acordo com a escolha. Os mais modernos variam de 800 gramas a 1,2 quilos, levando em consideração o clima na maior parte das regiões brasileiras. Os números variam de acordo com a temperatura de conforto de cada um – que é a principal variável a ser considerada – junto com o peso. Um saco de dormir com temperatura de conforto de zero grau possui aproximadamente 1,2 quilos. O padrão mais procurado por aqui é de seis graus positivos de temperatura de conforto e zero grau na temperatura extrema (aquela que não é nada confortável, mas que não vai te deixar morrer de frio). Eu tenho um desses, mas como sou friorenta em excesso e cansei de passar frio no mato, no inverno, pretendo comprar em breve um de cinco graus negativos, para acabar com o sofrimento. Mas essa decisão varia com as preferências de cada um.
Para terminar de “arrumar a casa”, leve um isolante térmico para por sob o saco de dormir, ou uma lona, evitando assim o contato quase que direto com o solo úmido. Nada de travesseiros, cobertores e todas as coisas fofas e confortáveis que ficam na sua cama. Por mais que você resista a essa idéia, lembre-se que ainda está acampando.
Regra número três: leve o essencialA combinação desta com a segunda regra não é um reforço da mensagem de viajar leve. O que quero dizer aqui é que se você resolver não levar alguns apetrechos básicos pode acabar sua viagem em algum noticiário local.
Para começar, independente da duração da viagem, se forem esquecidos um casaco e/ou protetor de chuva, lanternas, pilhas sobressalentes, um boné e/ou similar, água e comida, não passe da porta de sua casa.
Esteja preparado para as adversidades. Não é para ser pessimista a ponto de levar um desfibrilador na mochila, mas lembre-se dos anti-estamínicos (para alergias), anti-térmicos, algum para enjôo (se tiver algum percurso de barco principalmente), e os básicos para dor de barriga e de cabeça. Fora o kit de primeiros socorros (band-aid, compressa de gaze, esparadrapo e antisséptico. Não! Não sou hipocondríaca, mas já precisei (ou vi pessoas precisando) de alguns desses medicamentos durante as viagens. Para ser prático, leve apenas alguns comprimidos de cada remédio, evitando levar caixas ou vidros. Levar um canivete com pinça também é bom, assim como um cobertor para emergência (um que parece um embrulho de presente, de alumínio).
O cardápio pode ser variado. Esse história de que em camping só se come macarrão instantâneo é lenda urbana (literalmente). Trilha não é lugar de dieta, mas é importante ficar atento ao menu, pois comidas pesadas podem atrasar o passeio. Prefira alimentos semi-prontos como sopas, arroz e massas. Alguns fabricantes oferecem uma infinidade de opções deste estilo desde arroz de ervas até penne ao funghi. Frutas desidratadas são leves e boas para a caminhada. Para o lanche, pão árabe, queijo (daqueles já embalados por fatia) e atum. Se quiser incrementar com um pequeno excesso de luxo leve carne seca (com pelo menos uma fervura, por favor) ou frango defumado desfiado. Fora isso, chocolates, biscoitos, mel (excelentes fontes de energia) e os líquidos em pó como sucos, leite e café. E não esqueça da água e do Clorin, uma pastilha de cloro para colocar na água retirada de fontes, rios e cachoeiras, deixando-a potável.

O fogareiro pode ser a gás, que é mais comum e mais barato, ou de benzina, mais econômico apesar do investimento inicial ser mais alto. A grande vantagem da benzina é permitir sua utilização mesmo se o vento estiver forte e por ser mais potente, cozinhando mais rápido.
Para finalizar, coloque na mochila um joguinho de panelas de camping (uma de um litro, com tampa de meio, prato e caneca), talheres, fósforos ou isqueiro e alguns sacos extras, para levar o lixo de volta para casa. Ah! E os lencinhos umedecidos funcionam como um banho e tanto.
Trabalho em equipe e otras cositas mas...Um fator diferencial é o local. Existem alguns lugares onde se pode chegar de carro no camping e deixá-lo ao lado da barraca. Nesse caso, todos os luxos são permitidos, desde lampiões, cardápios variados, até colchões infláveis e travesseiros. Mas se o camping for selvagem, não se iluda.
Leve um celular carregado, desligado. Se ele funcionar na área em que você estiver, pode te salvar em caso de uma emergência. Procure informações sobre a trilha e se não conhecê-la leve um mapa ou um GPS com o percurso marcado.
Depois de tantas recomendações, não se esqueça do meio ambiente. Tente não acampar a menos de 45 metros de qualquer fonte de água, leve o lixo para casa, e não leve a natureza para casa, apenas nas fotos e nas lembranças.
Concluindo o planejamento, normalmente uma viagem dessas não é feita sozinho. Por isso, é importante saber quantas pessoas vão, permitindo uma melhor logística dos equipamentos e mantimentos para evitar sobrecargas desnecessárias. Escolha um parceiro para dividir a barraca e separe material de camping em uma mochila e mantimentos e remédios na outra.
Tenho que admitir que até pesquisar e escrever esse artigo, eu costumava ser a “aba” nas viagens que fazia com amigos. Não que minha mochila fosse a mais leve, mas ela sempre esteve longe de ser justa. Mas agora não tenho nem coragem de usar a falta de informação como álibi. Sim, meus amigos, acabaram as desculpas. Boas viagens para todos nós em 2006!