Fiéis escudeiros - Com que roupa eu vou?
Ana Araujo
16 de Dezembro de 2005
Como todo brasileiro que se preze, a arrumação da mochila para uma expedição, uma trilha curta ou qualquer outra aventura fica, na maior parte das vezes, para a última hora. É o momento de selecionar os equipamentos necessários, a comida, primeiros socorros, a roupa e, finalmente, os calçados que tornarão possível a chegada ao objetivo. Continuando a série
“Fiéis Escudeiros”, vim dar alguns palpites sobre o que calçar e vestir para não transformar o seu passeio em uma experiência traumatizante.
Bota, tênis, coturno... não é tudo igual?
Seguindo a lógica da escolha da mochila, para definir qual o melhor calçado a levar deve-se saber qual o tipo do passeio a ser feito. Cada terreno e ambiente exige um cuidado diferente com os pés, e o clima quase sempre é uma caixinha de surpresas.
Para início de conversa, esqueça as botas militares conhecidas usualmente como coturno. Apesar de ser a opção preferida da S.W.A.T., esse tipo de calçado não serve para montanhistas, pois são feitos de couro duro, são pesados, rígidos, não deixam o pé respirar e quando molham demoram muito a secar e de brinde ficam ainda mais pesados. Atualmente, os calçados são desenvolvidos com tecnologia para minimizar todos esses problemas e não faz sentido optar pelo modelo que não atende a nenhum dos requisitos básicos para uma boa caminhada.
Para trilhas longas ou em terreno mais exigente, escolha as botas de cano alto. Apesar de um pouco pesadas (nada comparado a um coturno), elas protegem o pé de torções sem tirar o conforto. Mas para isso ela deve estar bem amarrada, pois se ficar folgada o pé perde estabilidade da mesma forma e o seu investimento terá sido em vão. Os modelos atuais são de Goretex, um material que deixa a bota semi impermeável, evitando que os pés fiquem molhados em trechos de charcos ou no caso de chuva. Ao mesmo tempo, o sistema permite que os pés respirem, deixando passar a transpiração. A umidade sai mas não entra, simples assim. Porém, fique atento ao tempo. Se chover e você estiver de bermuda, a água vai entrar por cima e o pé vai molhar do mesmo jeito.
Não confunda as botas de cano alto com as botas duplas ou rígidas, para alta montanha. Elas são mais robustas e bem mais pesadas. O objetivo destes calçados é isolar os pés do frio evitando as tradicionais mutilações dos dedos nestas expedições. Dentro desta categoria existem variações de modelos para altitudes de 5 mil metros e para locais mais exigentes, a 8 mil, como a cadeia do Himalaia.
Para caminhadas mais curtas ou longas com terreno estável, escolha um tênis de cano curto, mas específico para montanhismo. São bem mais leves e extremamente confortáveis. Opte por marcas tradicionais em produtos de montanha, pois apesar de não ter nada contra as marcas de tênis para esportes convencionais, elas costumam orientar seus modelos mais em função da estética do que para a funcionalidade. Os solados costumam conter muito mais plástico que borracha, e tendem a se tornar escorregadios.
Se o passeio for em regiões mais molhadas, como travessias por praias, rios e cachoeiras, leve uma papete. Ela é uma espécie de sandália com estrutura de tênis. É aberta e muito confortável, além de permitir uma secagem rápida e ser muito útil no verão. Algumas pessoas gostam de usá-la em trilhas menos exigentes, principalmente no verão. Eu particularmente não gosto muito, pois como elas são abertas na frente, em cima e às vezes dos lados, acabo dando umas topadas em pedras ou enchendo a parte de baixo do pé com pequenas pedrinhas e terra. Mas isso é uma questão de preferência e do quão desastrado para sair chutando pedras no meio do caminho você seja (como eu). Independentemente do ambiente, temperatura e terreno que eu enfrente, costumo levar sempre uma papete comigo, além do tênis ou da bota. É que, depois de acampado, ela é um quebra-galho para perambular pelo camping ou usar quando tenho que entrar e sair da barraca várias vezes, e colocar e tirar o tênis toda hora acaba com a paciência de qualquer um.
Antes de colocar os calçados na mochila, mando um aviso aos caminhantes. Nunca, mas nunca mesmo estréie uma trilha longa com um tênis, bota ou papete nova. Será o inferno na terra e você terminará o dia com bolhas e machucados, fora a sensação de ter encarnado uma gueixa, pois os materiais ainda estarão muito rígidos e sem qualquer acomodação ao formato do seu pé. Leve meias grossas e não seja modesto. Leve logo uns três pares, ainda mais se a previsão contemplar chuva. Afinal, de que adianta um tênis impermeável com uma meia molhada dentro? Uma vez eu li em um site que se não tiver como evitar a estréia do tênis em uma trilha, vale molhá-lo, calçá-lo e ficar andando pela casa até secar. Entretanto, nunca testei e não sei se é uma lenda urbana. As papetes também machucam bastante no início. Eu costumo usar as minhas com meias até elas amolecerem. Fico uma perfeita
gringa, mas funciona.
Mas afinal, com que roupa eu vou?
A escolha da roupa é um pouco mais fácil. Apesar da tecnologia dos tecidos também ter chegado aqui, o tradicional algodão ainda é uma boa opção. O principal conselho que dou é: não use jeans, por favor. Parece óbvio, mas acontece. Bermudas, shorts e calças muito justas também prejudicam a caminhada, pois eventualmente aparece uma passada um pouco mais alta, exigindo flexibilidade do tecido.
Experimente as calças-bermuda. São calças com zíperes horizontais no meio das coxas ou na altura dos joelhos, para destacar a parte de baixo nos horários mais quentes do dia. As blusas confeccionadas no tecido Dry estão bem em voga. São leves, secam muito rápido (mesmo!), mas possuem um problema: em alguns modelos é comum que elas fiquem com um cheiro bem forte depois do contato com o suor por muito tempo.

O principal é optar pelo conforto (acima de tudo) e estar prevenido para situações adversas e mudanças de clima. Leve sempre um anorake, não apenas para se proteger da chuva como também do vento. Eventualmente faço trilhas em que fico suada pelo esforço, mas o vento frio em contato com a blusa molhada me congela. Um casaco fechado só pioraria a transpiração. Os anorakes novos possuem aberturas embaixo dos braços para respirar, e são feitos com tecidos que bloqueiam o vento. Para terminar, mesmo no verão, leve sempre um casaco, gorros e luvas, pois em regiões mais altas não interessa que é verão, o frio castiga do mesmo jeito.
A moda subindo a montanha
No último artigo, mencionei a “mulherzinha” que sou. Por isso mesmo não poderia concluir sem responder à pergunta do título. Como as meninas vêm invadindo a montanha, as marcas nacionais estão começando a perceber este movimento e a desenvolver modelos girl only. São cores, estampas (uma verdadeira invasão do rosa nas lojas de montanhismo) e cortes mais adequados à anatomia feminina, como as camisas baby look (mais justas e curtas, perto da cintura), casacos (com mais busto) e calças-bermuda projetadas para atender às formas femininas (mais quadril, e comprimento das pernas). Ainda tenho algumas calças e bermudas masculinas que usava em trilhas, por falta de opção de modelos femininos. Até tenho algumas fotos, mas a minha vaidade não permite divulgá-las.
E é claro que a moda não pára pelas opções que as lojas de montanhismo oferecem. Quando o assunto é moda, nós somos a personificação da criatividade. São presilhas e faixas para cabelos, cores e estilos como manda o figurino e, acreditem, até as meias – a coqueluche na escalada feminina. São diversos modelos e desenhos, para lá de animados nos pés das meninas. Afinal, se é para subir as montanhas, façamos isso com estilo, não?
Com que roupa eu vou? Acho que agora ficou mais difícil ainda responder ;]