Fiéis escudeiros - Mochilas
Ana Araujo
09 de Dezembro de 2005

É legal falar de montanhismo, corridas de aventura, travessias a pé, de bicicleta ou de barco, e muitas, muitas viagens de aventura. Só que vou fazer um ano de
O Eco e percebi que tenho negligenciado alguns dos fiéis escudeiros de todo atleta outdoor. São os coadjuvantes desses momentos, mas estão sempre presentes, e sem eles dificilmente tantas metas, sonhos e cumes seriam alcançados. Dedico a série de colunas deste final de ano às nossas mochilas companheiras, aos fiéis tênis e sapatilhas e a todo aparato de camping que nos permite ficar tão longe e ainda assim nos sentindo em casa.
Mochilas – como escolher?Nunca foi tão complicado e ao mesmo tempo tão prazeroso escolher uma mochila como nos dias de hoje. São tantos modelos, cores, tamanhos e funcionalidades que confundem até o mais objetivo dos compradores. E ainda tem a velha questão do gosto e personalidade de cada um. Às vezes aquela mochila ideal simplesmente teima em não combinar com você.
Sobre o gosto e perfil não há muito que ser feito. Por isso, o primeiro filtro a fazer é decidir qual o objetivo da mochila. Dependendo do esporte, uma pessoa pode ter várias mochilas, como no montanhismo, por exemplo. Existem aquelas específicas para escaladas curtas ou longas, hikings (trilhas curtas, de um dia de duração), trekkings (trilhas longas e expedições, de mais de um dia de duração) e ainda todas essas opções na versão “alpina”. Outras opções são aquelas para bikers e corridas de aventura, para crianças e até mochilas para cães que acompanham seus donos no passeio.
Ataque
Chamamos mochilas de ataque aquelas de 15 a 40 litros, ideais para escaladas e trilhas curtas (hiking). Elas devem ser leves e flexíveis, para não atrapalhar durante a trilha, fazendo parte do corpo do montanhista. O desafio nessas empreitadas é conseguir caminhar (ou escalar) leve, ou seja, administrar da melhor forma possível a sua carga, permitindo uma melhor desenvoltura na trilha. E é aqui que entra uma das mais importantes características a avaliar na hora da escolha - a capacidade de administração da carga que a mochila oferece, sem interferir demais no seu tamanho. Um exemplo: algumas mochilas desenvolvidas especialmente para escaladores possuem sistemas para prender a corda por fora da mochila e sistemas de expansão dos compartimentos. Tenho uma dessas e uso esse espaço extensivo para guardar o capacete. Na parte interna guardo o equipamento que vou utilizar. Quando começo a escalada, tenho apenas o tênis e um anorake guardados, e com o sistema retrátil (manipulado com fitas) consigo reduzir bastante o volume que carregarei nas costas.
É interessante também optar por um modelo que ofereça espaço para o sistema de hidratação. São compartimentos separados dentro da mochila, para colocar um hidrobag, além de uma abertura na parte superior, permitindo a saída do tubo (
streamer) para beber água. Com isso, o caminhante não precisa abrir a mochila para pegar uma garrafa de água e economiza espaço, já que os sistemas de hidratação são maleáveis, desenvolvidos para ocupar o mínimo de volume possível. Eu também gosto dos modelos que oferecem racks externos para equipamentos como bastões de caminhada, por exemplo. Mas há quem prefira os modelos mais enxutos.
Normalmente as mochilas de ataque vêm com uma barrigueira bem fina, que para mim possui uma funcionalidade meramente psicológica. O motivo é simples: a barrigueira serve para equilibrar e orientar o peso da carga para a região acima do quadril, sem forçar a lombar e poupando os ombros. Quanto mais grossa e ajustada, melhor o resultado. Teoricamente as mochilas de ataque não exigem tanto em termos de carga, e por isso não necessitam de uma barrigueira larga. Entretanto, sou “mulherzinha” e tenho o dom de extrapolar todos os limites de volume das minhas mochilas, inclusive a de ataque, e por isso, quando encontro, opto por modelos mais largos. Por último, a fita peitoral é outro opcional interessante, mesmo sendo uma mochila de ataque, para estabilizar o peso e não forçar os ombros.
Cargueiras
Porém, se o seu objetivo é fazer trekking por longos trechos, a sua mochila deverá ser uma cargueira. Nesse nicho os fabricantes vêm se empenhando em oferecer modelos bem tentadores, cada vez maiores, mais leves e com melhor sistema de distribuição do peso. Podem ir de 50 a 95 litros ou mais e, apesar de ainda não ter testado, tenho certeza de que entro confortavelmente em algumas destas.
As cargueiras são mais versáteis e é comum encontrar referências de capacidade mínima ideal somada à capacidade de expansão – são modelos 85 + 10 litros, 50 + 15 litros (como a minha) etc. Recomendo sempre optar por modelos com uma barrigueira larga, confortável e ajustada à sua cintura, para evitar desconforto e dores desnecessárias durante a viagem. É importante atentar também à fita peitoral, que não difere muito dos modelos de ataque, mas faz diferença. Outro detalhe que passa despercebido até você experimentar uma viagem com e outra sem ele, é o par de estabilizadores. São fitas presas na parte superior da mochila (perto das costas) que servem para estabilizar a mochila nas costas, mas também como suporte para as mãos e sustentar os braços. Parece frescura, mas caminhar horas e horas com os braços largados cansa. Mas eu só acreditei nisso depois que testei. Acreditem, com uma boa cargueira o caminhante nem percebe que está carregando uma casa nas costas.
Algumas características extras interessantes na hora de escolher sua mochila para expedições: presença de fitas,
loops,
daisy chains (uma fita costurada em anéis, para prender material) e muitos bolsos laterais para prender coisas diversas na área externa. Podem ser bastões de caminhada, esquis, crampons e o que mais o trekker achar necessário. As armações da mochila devem ser de alumínio (mais leve) e de boa qualidade, assim como a costura que as mantém dentro do tecido. Essas armações são encontradas nas cargueiras maiores (acima de 50 litros) e dão estrutura e sustentação à mochila. Uma novidade nos modelos mais recentes é o espaço para sistemas de hidratação, comuns apenas nas mochilas de ataque. Alguns modelos para expedições no gelo oferecem também isolante térmico removível. Para concluir, opte por modelos com aberturas de compartimento inferior ou frontal (ou ambos!). É insuportável perceber que começou a chover, lembrar que o anorake é a última peça dentro da mochila e descobrir que sua cargueira só possui abertura superior, obrigando a remover todo o conteúdo, na chuva, para alcançar a sua capa.
Mistas e variadasModelos novos que me chamam bastante atenção são os mistos, ou seja, cargueiras com a parte extensível (normalmente de 15 ou 20 litros) destacável, funcionando como mochilas de ataque. Ainda não fiz esse investimento porque a minha cargueira é relativamente nova, mas o modelo está na minha wish list de equipamentos. É que sempre que viajo tenho que levar uma mochila pequena de ataque dentro da cargueira, para poder fazer pequenas trilhas em volta do camping com mais agilidade.

Os bikers e atletas de corridas de aventura também podem usufruir de modelos arrojados que são pequenos, enxutos e com sistemas de ventilação excepcionais, que reduzem até 90% do contato das costas com a mochila, reduzindo o calor e, conseqüentemente, a transpiração.
Quem gosta de trilhas bem curtas e quer treinar agilidade e velocidade, pode escolher os modelos Hidro (
foto), que são na verdade mochilas compactas que carregam praticamente apenas o sistema de hidratação e oferecem um compartimento pequeno para um casaco e pequenos equipamentos. Costumam ter de 8 a 12 litros.
Eu poderia escrever um artigo exclusivamente sobre como a tecnologia aplicada às mochilas tem evoluído nos últimos anos, mas vou sintetizar em alguns exemplos:
- Sistemas de ventilação: são telas, espumas e tecidos de alta tecnologia que possuem o objetivo de reduzir o contato da mochila com as costas ou ainda reduzir a temperatura mesmo em casos em que haja contato. Cada marca oferece uma série de dispositivos diferentes, ao gosto do cliente;
- Distribuição de peso: as cargueiras estão ficando maiores e a sensação de esforço ao carregá-las cada vez mais sutil, devido aos sistemas criados para orientar o peso para o centro de gravidade de seu usuário, reduzindo o desconforto;
- Mochilas para meninas: finalmente os fabricantes começaram a perceber que o corpo da mulher é diferente do homem, e com o crescimento do número de mulheres praticando esportes outdoor as mochilas estão ficando mais adaptadas. Possuem uma angulação diferente para a região lombar da mulher, barrigueira com ajustes menores e menor distância entre os ombros (alças);
- Pequenos ajustes que fazem diferença: modelos que melhoram a movimentação da cabeça, estabilizadores (para as mãos) reguláveis, materiais mais duráveis, resistentes a água, abrasão, rasgos e impactos, sem perder a flexibilidade, leveza e conforto, além de ventilação e regulagem de altura.
Algumas marcasHá marcas muito boas comercializadas no Brasil. Das internacionais, recomendo a Deuter (que possui os modelos mais leves do mercado), Lafuma e Ferrino. Já entre as nacionais, que são igualmente competitivas, recomendo Curtlo, Equinox (que oferece garantia de fabricação por toda a vida da mochila), Kailash e Conquista.
Como carregá-la?Escolhida a mochila e a empreitada de inauguração do novo brinquedo, falta apenas saber carregá-la com os equipamentos. Coloque o saco de dormir no fundo e pequenos acessórios práticos (carteira, óculos, chaves, canivete) no bolso superior ou laterais. No centro da mochila, bem próximo às costas, coloque o conteúdo mais pesado. Ainda no meio da mochila, mas na parte mais externa, coloque o restante de equipamento de carga, mas não tão pesado.
Voilá! Agora é só curtir o passeio e usar e abusar da mochila. Afinal, elas ficam mais charmosas depois dos primeiros perrengues.
Agradecimento: Casa do Alpinista.