Rema, rema, remador: canoagem de expedição
Ana Araujo
14 de Outubro de 2005

Um dia desses, no meio de uma semana enlouquecedora de trabalho, chego em casa e vejo em cima da minha mesa a edição de outubro (2005) da National Geographic Brasil, revista da qual sou assinante. Apesar das chamadas das matérias principais na capa, o que realmente me atraiu foi uma notinha no canto da página que dizia: “Rio Parnaíba - 40 dias num caiaque”. Crueldade - eu ainda estava sob o efeito das várias doses de café que me ajudaram a manter o ritmo dos projetos e reuniões ao longo do dia e dou de cara com o relato dessa expedição impressionante tanto pelo seu objetivo (a análise das transformações humanas e ambientais ao longo desta fronteira natural entre Maranhão e o Piauí) como pelos seus desafios e lindas imagens capturadas durante a aventura. Foi quando me dei conta de que vejo e ouço pouco sobre a canoagem, um esporte bem completo, que explora seu condicionamento físico sem ser muito desgastante, além de incentivar o contato com o meio ambiente e do convívio entre equipes.
Para início de conversa, é preciso explicar a diferença entre canoa canadense e caiaque, pois é comum as pessoas confundirem essas duas modalidades e gerarem polêmica. A distinção é simples: as canoas são maiores e, portanto, mais confortáveis, estáveis e com maior capacidade de carga, ou seja, possuem maior autonomia e mais variedades de técnicas de remada, sendo ideais para expedições longas. Já os caiaques são menores e mais velozes, além de bem instáveis apesar de mais fáceis para os iniciantes. Por causa dessas características e por serem fechados, para não permitirem a entrada de água no caso de virarem, são muito utilizados para a descida de corredeiras. A escolha entre essas duas atividades é simples e depende apenas do gosto do praticante e seu objetivo para o uso da embarcação. Em ambas as opções, não faltam histórias para contar e, por isso, dividi o artigo em duas partes. Vamos começar pela canoagem de expedição.
O esporte vem se expandindo no Brasil, principalmente pelas inúmeras possibilidades que a nossa geografia oferece e pela riqueza de recursos hídricos e represas naturais. É uma atividade que “ainda está iniciando no Brasil, mas não por falta de bons locais ou equipamentos para a prática”, segundo o professor e biólogo Antonio Carlos Osse, proprietário da
Companhia de Canoagem,especializada em canoagem de expedição no Brasil todo. Segundo ele, o esporte “é indicado para pessoas de todas as idades, famílias, grupos de amigos e até mesmo os aventureiros mais radicais, dependendo da duração e dos destinos escolhidos”.
Apesar de ser possível realizar longas viagens sobre um caiaque, a canoa canadense é a melhor opção para quem prefere esta modalidade do esporte, pois alia conforto, performance e capacidade de carga - características fundamentais para longas travessias. O nome da embarcação é uma referência apenas à origem dos desenhos básicos da sua arquitetura, hoje muito diferente dos primeiros projetos. Antonio Carlos se apaixonou pelo esporte após morar um período nos EUA e Canadá, onde aprendeu a construir suas próprias canoas de material de alta tecnologia como resinas plásticas, fibra de vidro ou Kevlar (o material das blindagens), diferentes das canoas do século XIX, construídas com madeira e lonas impermeabilizadas com cera.

Como são bem maiores e estáveis que os caiaques, essas embarcações permitem carregar equipamentos e mantimentos para pernoites tanto em viagens longas como em passeios de poucas horas, que variam em média de um final de semana a uma viagem de cinco dias. As embarcações possuem capacidades de 250 a 350 kg, e seus tamanhos variam de 4,5 a 5,1 metros de comprimento, levando normalmente duas pessoas e seus equipamentos.
As canoas canadenses são utilizadas para excursões programadas de acordo com as condições de águas, que podem variar de níveis calmos até corredeiras de Classe II. Essa graduação indica o nível de dificuldade de navegação de um rio e é avaliada não apenas pela velocidade das águas ou da altura das cachoeiras, mas principalmente pelos obstáculos visíveis e invisíveis encontrados, como pedras submersas. Um rio Classe II é uma boa opção para iniciantes de caiaque, por exemplo, e a partir da Classe III, já começa a oferecer algum desafio para seus praticantes. Na canoagem de expedição, o desafio não está na dificuldade do rio, mas na resistência, programação, logística e orientação para transpor grandes travessias.
Quem tiver curiosidade e quiser conhecer o esporte, pode programar uma viagem com uma companhia especializada e, se gostar, pode comprar sua própria canoa ou alugá-la, para eventuais passeios. Mas é importante ficar atento ao planejamento, evitando acidentes desnecessários. Leve remos sobressalentes e coletes flutuadores (inclusive para os animais de estimação como cães, parceiros comuns nesse esporte). Evite corredeiras acima da Classe II e mar aberto com ondas pois, além de requererem equipamentos especiais, demandam grande habilidade dos remadores, gerando riscos elevados para os tripulantes. Conheça as limitações da embarcação, evitando sobrecarregá-la e não esqueça os kits de primeiros socorros e orientação (bússula, GPS, mapas, etc). Preparativos feitos, agora é hora de escolher o roteiro.
E opções de expedições não faltam. Desde o fotógrafo da minha National Geographic, que percorreu os 1.500 km do Rio Parnaíba, o único delta brasileiro, em 40 dias sofridos e inesquecíveis, até as inúmeras aventuras vividas por Antonio Carlos Osse, que desde que conheceu a canoagem de expedição, já explorou diversos rios brasileiros na companhia de sua esposa, remando inclusive por mais de 300km pelos rios do Pantanal mato-grossense. Segundo ele, “o Brasil é riquíssimo em recursos naturais aquáticos que merecem ser melhor conhecidos. Qualquer rio com menos de 50 metros de largura já é o bastante para quem quiser conhecer inúmeras paisagens naturais e fazer uma expedição inesquecível”.
Viagens belíssimas como o Projeto Mogi-Guaçu, patrocinado pela Petrobrás, dividido em cinco etapas de 120 km, para percorrer e registrar os 600km de extensão deste rio, iniciando nas suas nascentes em Minas Gerais, até sua foz no rio Pardo, interior de São Paulo. Ou também os nove dias acampando ao longo das margens do rio Aquidana, cobrindo 305km deste rio do Pantanal Sul.
Vale também acompanhar a próxima expedição de Antonio Carlos, que será realizada em novembro deste ano - a despedida do Rio Pelotas, na divisa de Santa Catarina com o Rio Grande do Sul. Serão 175 km, percorridos ao longo de cinco ou seis dias, para realizarem os últimos registros deste rio, que será transformado em represa por uma usina hidrelétrica. “Nossa idéia é fazer um registro histórico, escrito e fotográfico, da paisagem que vai desaparecer do rio Pelotas, formador do belíssimo cânion que divide os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul”, relata Osse. Certamente contarei para O Eco, todos os detalhes dessa expedição, quando seus tripulantes chegarem. Enquanto isso, vou agendando meu primeiro passeio de canoa. Boa viagem!