Ana Araujo
30 de Setembro de 2005

Se você está com o coração e os joelhos em dia, não pode deixar de conhecer ou revisitar a clássica Travessia Petrópolis – Teresópolis, provavelmente o
trekking mais tradicional do Rio de Janeiro. O motivo da lembrança é que estamos nos aproximando do final da temporada ideal para fazer esse passeio e, com a chegada do verão, pode ser inclusive perigoso realizá-lo. Nessa época do ano é mais complicado prever com exatidão as tempestades súbitas conhecidas como “chuvas de verão” e, somando-se à instabilidade do clima, é comum ocorrerem nessa área as tempestades de raios, às vezes fatais.
A Petrô-Terê, como também é conhecida, é uma viagem que atravessa os municípios de Petrópolis e Teresópolis, indo de um extremo ao outro pela crista das montanhas pertencentes ao complexo do Parque Nacional Serra dos Órgãos. São 30 km de muitas subidas e descidas, cortando vales, córregos e testemunhando a constante mudança da vegetação de acordo com a evolução da altitude. Vale a pena prestar atenção neste detalhe. São quase 1.300 metros de desnível que podem ser percorridos em três dias, desde a portaria do parque em Petrópolis até a Pedra do Sino, ponto culminante da região.
A trilha normalmente começa no parque em Petrópolis, que fica na região chamada de Bonfim. Mas como o ideal é ir de ônibus vamos começar o passeio um pouco antes (a não ser que você tenha disposição para buscar o carro em Petrópolis, depois de caminhar três dias e sair em Teresópolis). O ponto de partida então é a rodoviária mais perto de sua casa. Chegando em Petrópolis, tem um ônibus que deixa seus passageiros bem próximos da entrada do parque. Ele é o responsável pela redução do percurso da travessia, de 42 para 30 km. Quem quiser fazer à moda antiga, é só começar a caminhada na rodoviária mesmo.

O percurso do primeiro dia não é longo — apenas sete quilômetros — mas corresponde a quase 1.150 metros de desnível em uma distância bem curta. A entrada do parque fica a 1.100 metros de altitude, e quem passa por ela tem que pagar as taxas de diária e pernoite (R$ 12,00 por dia) e preencher o registro de controle. Iniciada a caminhada, em uma hora e meia chega-se à
Pedra do Queijo, um ponto para um descanso curto com vista para o vale do Bonfim, que acompanha o trajeto do primeiro dia. Reinicia-se a caminhada até o
Ajáx, onde o caminhante vai encontrar água para encher as garrafas. Apesar da vista, quem chega aqui não consegue tirar os olhos da próxima etapa, a famosa
Isabeloca. Ela é uma pirambeira digna de trauma e responsável pela rápida conquista de altitude. Diz a lenda que a Princesa Isabel teria passado por lá (nas mulas-sherpa, é claro), e, em sua homenagem e para comprovar que o povo brasileiro é engraçadinho desde muito tempo, foi dado seu nome para o percurso. A subida é tinhosa, mas o visual que se tem do vale e da trilha percorrida até então compensa o esforço.

A notícia boa é que essa foi a parte mais exigente do dia e, para muitos, a do passeio inteiro. A recompensa é uma caminhada pelo
Chapadão, cujo próprio nome já indica, um nível bem mais leve da trilha. Nele já se tem a bela visão dos
Castelos do Açú, o objetivo deste primeiro dia. É uma formação de grandes pedras que funcionam como proteção para o vento e a chuva. À sua volta, existem outras opções de camping, todas próximas e com acesso a água. Encerra-se o dia, após seis horas de caminhada, a 2.246 metros de altitude.
O dia seguinte começa com uma caminhada leve de uns 30 minutos. O primeiro ponto de referência é o
Morro do Marco, que é o primeiro cume do passeio e permite a visualização da Pedra do Sino, bem longe. Até o final de 2004 existia nesse ponto um totem feito com pedras que os caminhantes colocavam ao passar, dando origem ao nome, mas hoje ele não existe mais. Esse é um dos pontos arriscados em caso de tempestades de raios (é só olhar as marcas na pedra). A partir daí a trilha fica com uma orientação complexa e não é recomendada para quem não conhece o caminho. Mesmo com algumas setas pintadas na pedra, no chão, às vezes é muito fácil se perder.

Agora começa uma seqüência de descidas e subidas, onde realmente tudo que sobe tem que descer e vice-versa. Impossível não lembrar do desabafo de um amigo, ao avistar o percurso a ser vencido: “Não faz sentido. A gente desce para subir de novo, várias vezes!”. O trajeto desse dia é mais longo que o do dia anterior, e em contrapartida, não tão forte quanto uma Isabeloca, mas têm diversas subidas bem exigentes. A primeira descida conduz ao
Vale da Luva, um lugar realmente muito bonito, com uma flora já bem diferente e peculiar desse ponto e com um córrego para se refrescar e encher as garrafas. Chegar aqui é uma das tarefas mais complicadas por causa da dificuldade de orientação, pois o mato é alto e quando chove têm charcos, dificultando a marcação da trilha.
Saindo do Vale da Luva tem uma nova pirambeira de uns 30 minutos de subida, aproximadamente, para o acesso ao
Morro da Luva, outro cume. Agora – adivinhem – outra descida, atravessando um riacho para alcançar o Paraíso, ou Cachoeirinha, com um córrego e uma boa oportunidade de descanso. Nesse ponto já se tem a visão da
Subida do Elevador, uma escada feita de vergalhão que auxilia os trekkers a chegarem no
Morro do Dinossauro. Para alcançar essa escada existe atualmente um corrimão de ferro e duas pontes, que deixam esse trecho bem mais seguro do que era antigamente, quando as pessoas tinham que pular um trecho bem esquisito para chegar na escada. Continuando a lógica da trilha, após subir no
Morro do Dinossauro, o viajante descerá por uma rampa de pedra, podendo optar pelos estilos com ou sem emoção. Se a escolha for pela esquerda, uma trilha razoavelmente marcada, de terra, vegetação e pedra, fazendo uma curva, conduzirá em segurança até o seu ponto mais baixo. Agora, se a escolha for pela direita, o indivíduo terá que descer por um caminho bem íngreme pela pedra, arriscando até uma “desescaladinha”.
Depois desse sufoco, nada mais gratificante que a chegada ao
Vale das Antas, uma área de descanso obrigatório e parada para o almoço. Tem um riacho que fica cheio o ano inteiro e quem quiser arriscar um banho...boa sorte, porque a água é bem gelada. Para não ficarem mal acostumados, caminhando um pouco mais começa uma nova subida por uma pedra bem marcante, chamada
Pedra da Baleia. Ela é considerada um pouco exposta por algumas pessoas, pois o caminho é percorrido bem pela sua crista, sendo que os lados possuem uma inclinação crescente para baixo. Mas isso não deve desanimar ninguém. No meio dela, pare e olha para trás, curta todo o percurso já atravessado e tire fotos.

Essa trilha conduz até o
Vale dos Ecos, outra parada obrigatória, mas desta vez, para contemplação e diversão. Aqui se pode observar os maiores
big walls brasileiros (escaladas longas, de mais de um dia de duração), como a via
Terra de Gigantes, que leva uns seis dias de escalada na pedra. Neste vale, dá para contemplar a parada final do dia, a
Pedra do Sino, além de brincar bastante com os inúmeros ecos que a geografia do lugar permite. Voltando à trilha, antes de subir, tem uma nova descida bem íngreme com alguns grampos no meio. Mas não há com o que se preocupar, pois dá para vencer os trechos sem corda ou apenas com uma fita longa que já facilita bastantel. Aonde realmente a fita faz diferença é na passada conhecida como
Salto do Cavalo. Depois de subir uma trilha, chega-se nesse trepa-pedra bem esquisito, pois a parte mais fácil fica exatamente no lado mais exposto da pedra. Um descuido pode causar um acidente. Os baixinhos (como eu) vão sofrer um pouquinho para dominar o obstáculo, mas a ajuda da equipe resolve o problema.
Como no dia anterior, depois do trecho mais chato vem o final. Após vencer uma escadinha curta de metal, o caminhante chega em uma trilha leve, bem bonita, que leva até a Pedra do Sino, a 2.263 metros de altitude. Para quem vai ficar mais um dia, recomendo pegar a bifurcação à esquerda da trilha, seguindo direto para o Abrigo 4 do IBAMA e descansar para conhecer o Sino no nascer do sol do dia seguinte. Nesse abrigo tem banho com água quente e cozinha, para quem pagar para passar a noite lá. Tem um banheiro externo — com água gelada!!! — para quem pernoitar no camping.

A primeira metade do último dia é reservada para curtir o cume da Pedra do Sino e tirar fotos, muitas fotos. O lugar é lindo e em dias claros, dá para ver a Baía de Guanabara, o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor. É importante levar um agasalho porque lá também venta demais e tende a ser frio.
Para terminar a travessia com chave de ouro, nada mais nada menos que 11 quilômetros de descida até a entrada do Parque em Teresópolis, em três ou quatro horas. Esse é o momento em que realmente é permitido conhecer a resistência dos joelhos, pois no final da trilha, a coordenação das pernas não existe mais e os joelhos dobram sozinhos. Para animar um pouco, a trilha é linda. Fica na sombra o tempo todo e têm duas cachoeiras no caminho, boas para um banho.
Esse é o percurso sugerido para três dias, mas tem quem prefira aproveitar mais o visual e faça em mais dias, ou quem opte pelo desafio de completar a travessia em apenas um dia. Para terminar, seguem algumas recomendações de quem já fez e aprendeu com as exigências e perrengues da Travessia Petrô-Terê:
“só depois da travessia, descobri que tenho problema de joelho - demorei umas 5 horas pra descer o Sino” (Isabele Delpino, que tomou gosto pelo trekking depois de conhecer a travessia);
“cuide da alimentação, evite os
junks, beba muita água e não altere a dieta dias antes da travessia, isto é, nada de feijoada, bobó, acarajé e etc. na véspera. Ah, e para os alérgicos ou não: levem todos os medicamentos necessários” (Fran Jacobsen, que teve uma intoxicação pelo corante de um suco no final do primeiro dia e mesmo assim completou a trilha);
“na travessia em um dia, atenção à orientação, logística, alimentação, vestuário e horários. O importante é caminhar leve e rápido” (Pedro Pais, médico que conheceu a travessia pela primeira vez em um dia);
“E o lembrete: não esqueça seu anti-inflamatório!!!” (Fabio Forti, escalador que não gostava de trekking até fazer a travessia, também em um dia);
Para finalizar uma declaração de Erick Grigorovski, que completou a travessia 15 vezes, inclusive algumas vezes em um dia: “É o puro sumo da banana ouro!!”