Afinal, como se escala?

Uma das perguntas mais freqüentes que escuto quando comento que escalo é: “Mas quem é que coloca a corda lá em cima?”. Realmente é complicado especular sobre a mecânica desse esporte sem nunca ter visto os equipamentos ou assistido de perto uma escalada.

Diferente de esportes como windsurf, mergulho, vôo livre ou pára-quedismo, em que as pessoas conseguem ter mais ou menos uma idéia de como funciona (mesmo que essa idéia seja totalmente errada), percebo que na escalada em rocha não se tem a menor noção do que acontece lá no alto. Isso colabora com a rotulação dos atletas, chamados de “loucos”. Eu estava reticente em contar aqui como a corda vai parar lá em cima, por achar o tema um pouco técnico, mas vou me esforçar em explicar de uma forma simples e saciar essa curiosidade.

Primeiro vamos definir quem é quem nessa confusão. Na escalada existe o conquistador, o guia e o participante. O primeiro é aquele que bate os grampos na pedra, definindo uma via. Depois que começamos a escalar e passamos a conhecer as vias, olhamos as pedras e identificamos o desenho de cada uma das delas. Como ele bate esses grampos é assunto para outra conversa e o importante agora é saber que os grampos ficam na pedra para que duplas de guias e participantes possam usufruir dela. O guia é o responsável por levar a corda, preparar uma boa ancoragem e a segurança do participante, trazendo-o para cima. E o participante é quem dá segurança para o guia durante a ascensão deste.

Uma vez escolhida a escalada do dia, guia e participante fazem a aproximação para a base da via, normalmente cruzando uma trilha. Ambos se equipam e se “encordam” (prendem cada ponta da corda nos respectivos baudries, com um nó adequado). O guia é o que leva mais equipamentos e o que corre riscos maiores de se machucar em caso de queda. O participante, bem, costuma-se brincar que “participante não cai, escorrega”. Obviamente nem sempre é assim, mas realmente ele fica em uma posição mais segura. Tem início a escalada.

A segurança é fundamental nesse esporte e por isso, escalam um de cada vez, para que o outro fique focado na segurança de seu parceiro: primeiro o guia e depois o participante (com exceção da escalada “à francesa”, em que ambos escalam ao mesmo tempo. Essa técnica exige muita confiança entre os dois e um nível técnico mais alto. Nem preciso falar como fica o psicológico. Se um cai, leva o outro).

Outra pergunta que já me fizeram foi se eu tinha uma corda de 390 metros para subir o Pão de Açúcar. Resposta: não tenho essa corda e, mesmo que tivesse, não teria força para carregá-la e, se essa fosse a lógica da escalada subir o Everest seria uma missão inviabilizada pelo tamanho da corda. A evolução é simples – para escalar uma via no Pão de Açúcar faço várias “enfiadas”. Esse termo tosco significa um “esticão” de corda. Se uma via tem 150 metros e eu tenho uma corda de 50 metros, faço três enfiadas de 50 metros. Já fui vítima de sorrisos maliciosos no metrô, uma vez em que comentava no celular que eu tinha feito apenas quatro enfiadas curtas com um amigo no final de semana.

O guia começou. Enquanto isso, seu parceiro está na base, com um freio de segurança (Gri-Gri, oito, ATC etc) cuja função é travar a corda se ela for tensionada (o que ocorre em uma queda) e evitar que o guia caia no chão, deixando-o suspenso. A mecânica é parecida com a de um cinto de segurança. O participante libera a corda de acordo com a ascensão do outro. Na outra ponta o guia segue de acordo com a demarcação dos grampos, expressão chamada de “ler a via”. Nem todas são de fácil identificação, com zigue-zagues e grampos escondidos ou não confiáveis, e por isso são tão importantes os guias impressos de escalada e as trocas de informações entre escaladores.

Até aí nenhuma grande descoberta, certo? O que todos querem saber é para que servem os grampos, em termos práticos. Aproveito a deixa para mais uma pergunta que já me fizeram: “mas depois de passar a corda dentro do grampo, como é que o participante sobe?” O mistério é solucionado por um equipamento simples, fundamental para o esporte, a “costura”. Ela serve para prender a corda nos grampos temporariamente durante uma escalada, garantindo a segurança do guia e orientando o participante durante sua ascensão. É formada por uma fita com dois mosquetões nas extremidades. A corda não passa dentro do grampo, e sim um mosquetão, enquanto no outro passa-se a corda. Voilá! O guia escuta aquele “pleck” que relaxa o corpo inteiro até a próxima costurada. Ele está seguro.

Em caso de queda, as proteções funcionam assim: se o guia está a uma distância de uns três metros do último grampo costurado e cai, o comprimento dessa queda será desses três metros, mais outros três da corda depois da “virada” no grampo e mais um tiquinho da elasticidade da corda, ou seja, uns sete metros. Para quem achava que esses loucos se aventuravam 400, 500, 600 metros sem proteção nenhuma, até que não é nada mal. A questão é, não faz diferença se o escalador está a 50 ou a 500 metros de altura, a queda será proporcional ao grau de exposição da via (definido pela distância entre grampos, trajetórias em caso de queda etc), e isso fica a critério dos montanhistas. Vias bem protegidas têm grampos a cada quatro metros, aproximadamente.

Assim escala o guia até a parada (ponto de ancoragem, no final de cada enfiada e normalmente com grampeação dupla). Prepara uma ancoragem (como demonstrado no artigo “Mas Por Quê?” e monta a segurança do participante que, após um sinal positivo, inicia a sua escalada, retirando as costuras e soltando a corda da pedra, conforme vai subindo. Com exceção das vias com trechos horizontais ou diagonais, o participante está sempre com a corda esticada, vinda de cima, e por isso dificilmente sofre uma queda como o guia. Chegando na ancoragem o processo reinicia e assim vai, até o final da via. É importante lembrar que em nenhum momento os escaladores estão completamente soltos. Ou estão presos à pedra, por meio de uma fita chamada solteira, ou presos à corda, que esta costurada na pedra.

Desfeito o mistério, até que não parece tão impossível uma missão dessas. Alguém se anima?

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