Mas por quê?

Observando algumas crianças se divertindo em suas experiências com esportes, eu e alguns amigos começamos uma crise nostálgica sobre a infância. Surgiram afirmações como “tínhamos menos medo nessa época” e réplicas como “tínhamos era nenhum bom senso sobre os riscos que corríamos”. Mas o assunto começou a ficar realmente interessante quando lembramos daquela fase do “por quê?” pela qual toda criança passa. Por que o céu é azul? Por que não posso andar descalço? Percebi que à medida que crescemos, perdemos um pouco desse senso de curiosidade tão peculiar. Foi então que imaginei alguns “por quês” nos esportes que, na maioria das vezes, passa despercebido.

Por que a bicicleta não cai quando faz uma curva em velocidade, mas se inclinada parada ela nem fica em pé? Por que quanto mais alto escalamos e mais longe ficamos da ancoragem principal, mais seguros estamos? Por que as pranchas de windsurf, assim como as hélices de barcos podem perder velocidade, justamente quando mais estimuladas para tal? Vocês sabem? Bem, para responder a alguns típicos “por quês” dos esportes outdoor, temos que voltar àquelas aulas de Física de que tanto gostávamos (falo por vocês).

Efeito giroscópio, aerodinâmica, atrito. Esses são alguns fenômenos da Física que proporcionam tanto prazer aos adeptos do ciclismo, em cada uma de suas modalidades. O efeito giroscópio é o responsável por fazermos uma curva inclinados e não cairmos. Ele se resume ao fato de que todo corpo em rotação (como as rodas da bicicleta) têm de manter a direção inicial desse giro. Traduzindo: quando a gravidade começa a agir, surgem forças na roda para compensar esse desequilíbrio e não alterar a situação inicial do sistema (bicicleta-ciclista). Quanto maior for a velocidade de rotação, maior será sua força de compensação. Por isso dizemos às crianças que é mais fácil aprender a andar de bicicleta e controlá-la se pedalar mais rápido.

Por que (ou melhor, como) uma bicicleta de velocidade, as street bikes, consegue atingir uma velocidade de até 320 Km/h? A aerodinâmica tem essa resposta, pois estuda a relação entre os corpos e o ar. Ou seja, quanto maior a área do corpo em movimento, maior será a quantidade de ar que apresentará resistência – atrito – a esse movimento. Na resposta que buscamos, ela dá as dicas para o quanto a curvatura do atleta e da bike ajudam a passagem do ar. Pedalando no modo “passeio” (com as costas eretas), o corpo do atleta responde por 65% a 80% do atrito com o vento e, por isso, que nas corridas de velocidade os ciclistas tendem a ficar curvados. Quanto mais otimizada a postura e o equipamento utilizado, menor o atrito e maior a velocidade.

Isso sem contar com a técnica chamada “pegar o vácuo”, onde o atleta segue outro, aproveitando o bloqueio de atrito oferecido. Perto da chegada, o atleta que está atrás (mais descansado, por gastar menos energia no bloqueio) toma a dianteira. O atrito também facilita a vida dos mountain bikers. Só que nesse caso não é o atrito com o vento e sim, com o solo que permite as manobras radicais que eles realizam em terrenos acidentados e instáveis. Esse estudo permite o desenvolvimento de pneus mais aderentes e que explorem este fato para ganhar mais estabilidade.

Mudando um pouco de plano, vamos às montanhas. Vez ou outra alguém me pergunta como tenho coragem de ficar pendurada em um grampo fixado a 300 metros de altura. Considerações sobre o grampo a parte, utilizamos a Física a nosso favor nesse caso. A fixação das ancoragens ocorre normalmente em pontos de grampeação dupla, em que passamos uma fita por ambos os grampos e fixamos um mosquetão no meio, realizando a chamada equalização de forças.

Esse sistema depende da angulação desta fita, ou seja, quanto maior for o ângulo, maior será a carga pendente sobre o sistema. O ideal é reproduzir angulações o menos abertas possíveis (menos de 60º, com um limite de 90º) para liberar a resistência do sistema para o seu objetivo principal: suportar o peso dos escaladores. Em números práticos, um ângulo de convergência de 0º resulta em uma força de 50% da carga posicionada sobre o sistema. Um ângulo de 90º resulta em 70 da carga, enquanto que um ângulo de 180º resulta em uma carga de 5720%, ou seja, uma pressão exponencialmente maior do que a originada pela carga dos escaladores. 

Também é comum as pessoas associarem a altura ao aumento dos riscos fatais no caso de uma queda. Comum também imaginar que, quanto mais próximo da ancoragem principal, onde o parceiro de escalada fica tranquilamente posicionado dando segurança, mais protegido está o guia. Normalmente essa ancoragem é feita em dois grampos fixados na pedra, e é minuciosamente montada, levando em conta o sistema de equalização de forças já descrito. Entretanto, existe um cálculo do Fator de Queda que deve ser levado em consideração.

Pragmaticamente ele avalia a gravidade de uma queda e a qualidade de amortecimento das cordas dinâmicas (que possuem elasticidade, justamente para reduzir o impacto das quedas). Leva em consideração que, quanto maior o comprimento da corda entre a última proteção (peças chamadas “costuras” que o guia posiciona em cada grampo fixado durante sua ascensão) e o guia, maior o amortecimento em relação ao impacto. O Fator de Queda é obtido dividindo-se o tamanho da queda pelo comprimento de corda entre a última segurança posicionada o parceiro de escalada. Isso significa que, se o guia caiu 15 metros, mas a distância da última proteção para o parceiro era de 45 metros, seu fator de queda é igual a 0,3. Ok Ana, e o que esse número quer dizer? Que o guia teve uma queda segura, pois o fator máximo de queda é igual a dois, ou seja, se ele escalar 10 metros, mas sua última proteção estiver a apenas cinco do participante.

E como a Física se comporta na água, em esportes como windsurf e vela? Por que vez ou outra uma prancha de windsurf parece derrapar quando está demonstrando um bom desempenho? Ou um barco que começa a perder velocidade justamente quando mais se empenha em acelerar? Esse fenômeno é chamado de Spin Out e, no caso do windsurf, ocorre com uma perda de função da quilha, que é a responsável por “quebrar” as forças laterais provocadas pela tração da vela, direcionando a força da prancha apenas para frente. A prancha desliza sobre a água enquanto a quilha corta a água em um mesmo ângulo.

Pois bem, isso causa uma zona de baixa pressão, indispensável para o esporte. Mas é exatamente aí que mora o problema: esta zona tende a aprisionar bolhas do ar que vem da proa ou que é sugado da superfície traseira da prancha, criando uma bolsa de ar de desloca o eixo da prancha, como se estivesse patinando no gelo. O atleta perde o equilíbrio e... O spin out é favorecido por ondas inclinadas ou muito fortes, mas o responsável mesmo é surfista, seja por negligência no manejo da vela ou por uma má combinação ou regulagem do seu equipamento. Esse fenômeno pode ocorrer também em barcos, em que o bolsão de ar anula o funcionamento da hélice, que passa a girar em falso.

Respondidos alguns dos “por quês” aqui sugeridos, fica um exercício interessante: questionar o funcionamento desses fenômenos, ações e efeitos que nos proporcionam momentos tão prazerosos na prática dos esportes outdoor. Não seja conformista. Faça como as crianças: pergunte “Por quê?”.

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