Meio ambiente também é coisa de mulher

Fundadora, em 1977, do Movimento Cinturão Verde, a queniana Wangari Maathai, 64 anos, três filhos, recebeu em dezembro o prêmio Nobel da Paz em reconhecimento ao seu trabalho de defesa do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável. Primeira africana a ganhar o prêmio, 12ª. mulher, o projeto de Maathai é responsável pelo plantio de 30 milhões de árvores no país onde nasceu. Não se pretende nem fazer comparações ou atribuir influências, apenas mostrar que, a exemplo de Maathai, estão espalhadas por aí inúmeras iniciativas de defesa do meio ambiente e de promoção de desenvolvimento sustentável que são tocadas por mulheres. Como a da jornalista carioca Renata Bernardes (foto), 54 anos, dois filhos, moradora de Santa Teresa há quase 20 anos. Ela se lembra de ter entrevistado Maathai no Rio de Janeiro durante a Conferência Mundial do Meio Ambiente quando a própria Bernardes estava começando a descobrir como unir sua militância em movimentos sociais à preservação do verde.

Seu envolvimento com Rio-92 começou antes, quando foi contratada para ajudar o grupo que brigava para trazer a conferência para a cidade, contra a ameaça de o encontro da ONU ir parar em São Paulo.Daí para o Planeta Fêmea, evento paralelo que reuniu ONGs de mulheres do mundo inteiro no Aterro do Flamengo, foi um pulo. Desse pulo vieram desdobramentos como um curso de especialização em Meio Ambiente, no ISER, de onde saiu para trabalhar no recém-fundado Viva Rio, a participação na Conferência Mundial das Mulheres (Beijing-95) e na Conferência Mundial das Cidades (Istambul-96). "A grande novidade daquele momento foi descobrir que era possível fazer a conexão entre meio ambiente, pobreza e mulher", diz ela.

De Istambul, trouxe na bagagem a idéia de trabalhar com meio ambiente urbano. "Com todo respeito aos preservacionistas, grande parte da população do planeta vive nas cidades", argumenta. Mas o pulo que a levou para Santa Teresa foi outro. Quando, em 1987, trocou o pequeno apartamento no Leblon por uma casa em Santa Teresa ("Hoje o apartamento vale cinco vezes mais do que a minha casa, mas eu sou mais feliz aqui, com meus gatos e minhas plantas", diz ela), Bernardes não poderia imaginar que naquela decisão estaria traçando, também, um certo destino profissional.Coordenadora da ONG Viva Santa, tudo em que Bernardes está envolvida diz respeito ao bairro, direta ou indiretamente.

Este ano ela termina o curso de Mestrado do Programa EICOS(Estudos Interdisciplinares de Comunidades e Ecologia Social) da UFRJ, que faz parte da Cátedra UNESCO de Desenvolvimento Sustentável. Assim que voltou a estudar, sua primeira reação foi pensar: "Ah, se eu soubesse de tudo isso antes." Até ali, Bernardes sempre tinha agido, segundo ela, na base do instinto. Seu foco no curso é em comunicação, governança e participação popular. Temas dos quais entende na prática. Ela já trabalhava no Viva Rio lá se iam mais de dois anos quando reuniu em casa um grupo de amigos e vizinhos de Santa Teresa. A idéia original era só "melhorar o clima do bairro", cuja principal característica é o jeitão artístico-alternativo. A explosão de uma guerra do tráfico no Morro dos Prazeres na mesma semana forjou o tema da violência na agenda de debates do que viria a se chamar "Viva Santa", uma carona explícita na denominação Viva Rio. "O que era para ser mais festivo virou um movimento em defesa do bairro", explica Bernardes, que hoje se orgulha de ter tirado Santa Teresa das páginas policiais dos jornais para as de cultura.

Contribuíram para a "migração" atividades como o Santa Teresa de Portas Abertas, que anualmente expõe o trabalho dos ateliês locais, a realização de dois festivais de inverno e o Cores de Santa Teresa, que revitalizou 40 fachadas de casas antigas e impulsionou a recuperação de outras 80. "Tudo que foi feito teve um efeito multiplicador muito grande", explica ela, que contabiliza nesse efeito a abetura de bons restaurantes e o projeto Cama e Café, que hospeda estrangeiros em cerca de 50 casas do bairro, todas cadastradas e treinadas para a tarefa batizada de "turismo sustentável". O Cama e Café nasceu dentro do projeto de revitalização do bairro com o apoio do programa de empreendedorismo da Shell, e, assim como o Santa Teresa de Portas Abertas, ganhou vida própria.

Com cada uma dessas iniciativas tomando seus rumos, Bernardes tratou de partir para novos caminhos. Há cinco anos conseguiu recursos do Fundo Nacional de Meio Ambiente para implantar a Agenda 21 em Santa Teresa. No fim de 2004, conseguiu dinheiro do Ministério da Cultura para tocar uma pequena parte de um projeto maior, que persegue há quase 20 anos: resgatar a memória do bairro. "A recomendação da agenda 21 é de juntar cultura e meio ambiente", explica. É o que Bernardes quer fazer num acervo textual e pictório de Santa Teresa que junte a história do lugar, ensine a preservar o meio ambiente e valorize os caminhos das águas do Rio Carioca, que ainda tem importantes afluentes ativos. "Pouca gente sabe, mas a garrafa pet que se joga no rio aqui vai parar na Baía de Guanabara", reclama.

O fôlego de Bernardes vai mais longe: esse mês, ela começa a apoiar o trabalho social que a também jornalista Thaís Corral está desenvolvendo desde o ano passado numa favela da Rua Júlio Otoni. Quando recupera os passos dessa trajetória, ela lembra do avô, um militar que a obrigou a fazer concurso para a Petrobras. Há quase 30 anos, antes de virar dublê de militante e jornalista, Bernardes jogou para o alto uma vaga – praticamente cativa, diga-se de passagem – no departamento de comunicação da estatal. "Não era o que eu queria", conta, ainda às gargalhadas com a reação desesperada do avô diante de gesto tão insensato.

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