Doutora em educação ambiental, presidente do IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas, fellow da Ashoka, líder Avina e Empreendedora Social Schwab.
Tudo que a gente sonha em oferecer para estudantes universitários ligados à conservação acabou de acontecer no Brasil. De 30 de julho a 12 de agosto, 16 alunos norte-americanos visitaram três locais onde o IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, desenvolve seus trabalhos conservacionistas: Nazaré Paulista e Pontal do Paranapanema, no estado de São Paulo, e no Baixo Rio Negro, no Amazonas. Em aulas teóricas intercaladas com visitas de campo, observaram os resultados de estudos de longa duração (muitos com mais de 20 anos), aplicados à proteção de espécies ameaçadas e florestas nativas, enriquecimento de habitats por meio de projetos agroflorestais e outras iniciativas concebidas para melhorar o meio ambiente e as condições sociais dos envolvidos. Participaram de programas de educação ambiental integrados ao desenvolvimento sustentável comunitário, estratégia adotada pelo IPÊ há mais de uma década, que vem se mostrando eficaz na integração das questões sociais às da conservação.

A idéia partiu do WWF e teve apoio da Nissan. Ofereceram uma oportunidade única de capacitação a jovens que, além de bons rendimentos escolares, mostraram-se empreendedores em causas diversas. Os participantes foram selecionados por profissionais experientes do WWF, dentre universidades localizadas nas regiões onde a Nissan tem suas fábricas nos Estados Unidos. Morgan Weldon, por exemplo, estuda psicologia na Universidade de Mississippi e é voluntária em um programa chamado Roots and Shoots, que ensina crianças sobre animais e temáticas ambientais e humanitárias, tendo antes participado do Sierra Club Coalition.

Gregory Lee, estudante de engenharia mecânica, trabalha em uma companhia Cool Earth Solar, preocupada em reduzir custos na concentração da energia solar. Por conta própria, Gregory está pesquisando fogões de baixo custo à base de energia solar, que possam ser usados por populações menos privilegiadas do mundo. Como parte do programa Nissan/WWF Lideranças Ambientais, cada aluno recebeu US$ 5 mil para gastar como quisesse e se preparar para a viagem ao Brasil. Gregory, por decisão própria, aplicou seus fundos em sua pesquisa. Outro aluno iniciou reflorestamento em seu campus universitário, e outro é voluntário em um Jardim Botânico, onde inovou os programas oferecidos ao público. Dezesseis alunos trouxeram 16 histórias promissoras de lideranças futuras.

Segundo o presidente da Nissan para o Mercosul, Sr. Thomas Besson, trata-se de “uma oportunidade de ampliar a consciência dos jovens, quem sabe chamando a atenção dos tomadores de decisão e políticos para a importância das questões ambientais e da capacitação da nova geração que está despontando”. Reforçou, ainda, o papel do mundo corporativo em assumir responsabilidades como esta, ou, o que também considera de grande relevância, investimentos em pesquisas que forneçam informações sólidas para guiarem a implementação de projetos sociais, ambientais e tecnológicos.

Esta forma de pensar combina com o Russell E. Train - Education for Nature, Program (EFN), programa do WWF nos Estados Unidos que se dedica à capacitação conservacionista em diversos níveis (mestrados e doutorados, ou participação em eventos que contribuam para o fortalecimento profissional). Alguns pesquisadores do IPÊ receberam apoio do EFN (como é o meu caso), ou ainda recebem. Foram esses contatos anteriores e a tradição do IPÊ em capacitação conservacionista que propiciou o convite.

O programa do Brasil foi concebido conjuntamente WWF e IPÊ, o que ajudou a consolidar as bases para um desenrolar harmônico quando a expedição chegou ao país. Em 2006, o programa Nissan/WWF de Lideranças Ambientais foi realizado na África do Sul, onde os alunos acompanharam pesquisas com hienas. No Brasil, aproveitou os trabalhos em andamento do IPÊ, que ilustram a complexidade das questões ligadas à conservação. Mais de 50 pesquisadores e equipe de campo participaram, ministrando palestras e atividades vivenciadas, o que ajudou a enriquecer a diversidade do que foi oferecido.

O programa teve início em Nazaré Paulista, onde o IPÊ tem sua sede e o Centro Brasileiro de Biologia da Conservação (CBBC), local onde cursos de curta duração são ministrados durante o ano todo. Lá observaram macacos sauás estudados na natureza, assim como a avifauna da região, ambos exigindo que os alunos acordassem antes do dia raiar. Assistiram aulas sobre serviços ambientais, seguidas de plantio de árvores com o objetivo de reflorestar as bordas do reservatório do rio Atibainha, componente indispensável à proteção da água. Participaram de oficina de artesanato com um grupo de mulheres locais, que por incentivo do IPÊ acabaram de formar uma cooperativa, o que está viabilizando a profissionalização da produção de camisetas, sacolas, bolsas e outros artigos com foco na natureza. Cada aluno bordou sua própria camiseta com pegadas de onça, criando a posição dos rastros no corpo ou nas mangas. Trocaram idéias com as artesãs para melhor compreenderem como o desenvolvimento sustentável contribui para a melhoria da vida familiar, que tradicionalmente depende de produções agrícolas incertas em suas pequenas propriedades rurais da região.

No Pontal do Paranapanema, os alunos observaram um dos mais raros primatas do mundo, o mico-leão preto, espécie que deu origem a própria fundação do IPÊ há 15 anos. Compreenderam como são coletados dados em campo, quais os procedimentos utilizados para analisá-los e, mais importante, para que servem os resultados de estudos como este. Pesquisadores do IPÊ compartilharam seus anseios em conectar remanescentes florestais por meio de corredores de matas que estão sendo plantadas para darem maiores chances de sobrevivência a esta e outras espécies da fauna que não ousam atravessar áreas descampadas, o que as torna reféns da consangüinidade e outros riscos causados pelo isolamento. Aprenderam como se forma um viveiro de árvores, desde a coleta de sementes até os cuidados necessários para que as mudas possam ser plantadas nos locais de reflorestamento. Perceberam o quão trabalhoso é reconstituir florestas e como teria sido mais fácil não tê-las destruído desordenadamente, como ocorreu no Pontal. Ainda dentro das iniciativas de reflorestamento do IPÊ, visitaram programas como o “Abraço Verde”, áreas plantadas ao redor de fragmentos de matas naturais para evitar impactos do próprio clima ou de atividades praticadas na agricultura como fogo, ou ainda o pisoteio de gado. Outro projeto visitado foi o “Café com Floresta”, no qual o café é plantado à sombra de árvores que também são plantadas, o que vem contribuindo para o “esverdeamento” do Pontal. Visitaram as instalações da Eco-Bucha em um assentamento, onde são produzidas buchas naturais em formato dos animais da região e alguns modelos exclusivos exportados para a França. Aulas e práticas de educação ambiental ilustraram a importância de se envolver as pessoas locais em todas as iniciativas ligadas às questões que podem parecer eminentemente ambientais.

Na Amazônia, os alunos aproveitaram das belezas cênicas para compreender melhor a fragilidade ecológica da região. Viajaram em dois barcos até Novo Airão, onde participaram de oficinas na Fundação Almerinda Malaquias, instituição que utiliza sobras de madeira da construção naval para envolver jovens artesãos em esculturas da fauna amazônica. Preparam também papel reciclado que é utilizado como embalagens e pastas de eventos. Os alunos produziram artigos em ambas as oficinas e ao vivenciarem a vida dos artesãos perceberam como esta iniciativa traz vantagens múltiplas para a sociedade e para a natureza.

Durante um jantar em Novo Airão, a Diretora da Estação Ecológica de Anavilhanas, Giovana Palazzi, explicou os desafios que enfrenta para proteger as aproximadamente 400 ilhas que formam Anavilhanas, um dos maiores arquipélagos fluviais do mundo. Seu empenho em realizar um trabalho de qualidade ficou claro, o que certamente deverá ser reconhecido com o correr do tempo, como é o caso de outros diretores que a antecederam. O WWF Brasil também proferiu palestras sobre seu papel na região, influenciando políticas públicas e arrecadando fundos de grande monta. Somente para o programa ARPA (Áreas Protegidas da Região Amazônica), por exemplo, o WWF levantou mais de US$ 14 milhões, que permitirão implementar as unidades de conservação amazônicas. Além disso, com apoio da Fundação Moore, tem investido em planos de manejo e capacitação para gestores de unidades de conservação em diversos estados da Amazônia, que são oferecidos em parceria com o IPÊ.

Os barcos viajaram pelo rio Cuieiras onde o IPÊ está trabalhando com pequenas comunidades locais na introdução de alternativas sócio-ambientais sustentáveis. Um exemplo contempla a introdução de caixas para a criação de abelhas sem ferrão, evitando a prática comum na região do corte das árvores para a coleta do mel. Também puseram a mão na massa ao produzirem farinha nos moldes tradicionais. O trabalho de colher, descascar, espremer e torrar é extenso, o que não condiz com o baixo valor pago pelo produto final. Assistiram a palestras sobre a reintrodução de peixes-bois que o IPÊ irá realizar com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), instituição visitada quando chegaram a Manaus.

No início do curso, os alunos assistiram a uma aula sobre como elaborar uma proposta, prática comum no mundo das ONGs. Ao se familiarizarem com os diferentes projetos visitados no Pontal, região que permaneceram por mais tempo, quatro grupos escolheram temas a serem trabalhados em forma de propostas submetidas a uma instituição fictícia, criada pelo coordenador do WWF, Shaun Martin. Trabalharam durante toda a viagem e tiraram dúvidas com os coordenadores dos projetos escolhidos. Os temas incluem: (1) a criação de um viveiro escola móvel a ser levado à região de Buri, estado de São Paulo, onde um programa para a conservação do mico-leão preto está em fase inicial, e onde existe a necessidade de se conectar fragmentos de matas habitados por esta espécie; (2) a introdução de compostagem e minhocário em um dos viveiros escolas do IPÊ, de modo disseminar a importância de se usar matérias orgânicas para a preparação de solos férteis para o plantio; (3) a compra de maquinarias para torrar o café orgânico plantado pelas 90 famílias de assentados da região (Projeto Café com Floresta), visando reduzir substancialmente o trabalho dos agricultores, além de melhorar as condições em que realizam esta tarefa; e (4) a compra de imagens de satélite e softwares que permitam produzir e imprimir mapas ou outras ilustrações, que possam ser utilizadas em educação ambiental de maneira ampla.

A idéia inicial era premiar o melhor projeto com US$ 5 mil e os demais com US$ 1 mil. Todavia, devido à qualidade das propostas dos quatro grupos, todos acabaram recebendo apoio de US$ 5 mil, o que certamente demonstra a generosidade dos coordenadores. Este apoio “surpresa” será de grande relevância para viabilizar os projetos propostos, enriquecendo os programas em andamento. Mas, o principal é que serviu para os alunos perceberem que suas idéias foram de fato valorizadas.

Não é todo dia que se monta um programa ideal como este. Seu impacto certamente será mais sentido ao longo do tempo, pois deve imprimir nos jovens paradigmas de integração das questões sociais às ambientais. Um aluno, Andy Maggetti, por exemplo, deixou uma mensagem sobre como a experiência já o está motivando para sua carreira futura. Anne Mariah Tapp observou como é possível trabalhar com dedicação, inteligência, leveza e humor para se fortalecer e atingir o que quer. Kali Abright expôs que se sente revigorada para prosseguir na área da conservação ambiental como foco de sua vida. Finalmente, Monique Fahie afirmou que agora sabe que nada é impossível. Os efeitos ficaram também em quem recebeu o grupo. Professores e equipe de campo sentiram-se motivados com o interesse e a disponibilidade dos alunos a participar de todas as atividades propostas, trabalhando harmoniosamente individual ou coletivamente.

Vale ressaltar o papel da Nissan como apoiadora da idéia visionária elaborada pela equipe do WWF. Restou uma enorme vontade de oferecer oportunidades similares a alunos brasileiros. Quem sabe outras empresas se contagiem com a ousadia da Nissan e percebam a importância de se investir em lideranças jovens que poderão tomar decisões sócio-ambientalmente equilibradas em um futuro próximo?
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