
Terminei de escrever a coluna da semana passada, sobre o retrato de nossas reservas, olhando para um pequeno fragmento de mata, hoje protegida como uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). De onde escrevia, podia ver, à esquerda, uma fração em recuperação, com presença de uma ou outra imbaúba. À esquerda, uma faixa mais antiga é dominada por algumas araucárias, que se destacam na paisagem com seus braços abertos.
No dia seguinte, fomos caminhar por dentro da mata. É possível ir vendo, nas suas bordas, as cicatrizes do mau trato passado. Mas, a quantidade de animais e aves que se avista ou dos quais se identifica os sinais, mostram o vigor de que uma mata é capaz, quando deixada quieta. Logo na borda mais protegida dela, é possível ver uma trilha recém aberta pelas capivaras, para terem acesso a uma represa, fora da reserva, formada pela captação de alguns olhos d’água.
O mateiro vai mostrando os sinais da presença de quatis, as marcas de garras na casca da árvore que atribui a uma jaguatirica que avistou recentemente. Ouvem-se os jacus arredios e barulhentos e o pio de taquara rachada dos tucanos, que depois pousam juntos no galho de uma das árvores mais altas. É possível se encantar com o revôo da gralha azul, com a variedade de sabiás e até, com muita sorte, com o canto de um trinca-ferro. Os micos são abundantes. O mateiro insiste na existência de macacos de maior porte, que nunca vimos. Se existirem, pela descrição podem ser barbados, cujo grito, meio latido – por isso são chamados de howler monkeys, em inglês, macacos “latidores” – já ouvimos ecoar por ali. Mas eles são tão ruidosos que podem ser ouvidos de longe.

Há algum tempo, avistamos um veado jovem, atravessar os 600 metros que separam uma outra mata da reserva, para ir até a lâmina d’água. Depois ficou tranquilamente vários minutos à sombra das árvores, antes de voltar para seu território. Ele, claramente, transita entre as duas matas. Sem falar na variedade de sanhaços e saíras, na quantidade de bem-te-vis, joões-de-barro, saracuras e saracurinhas.
Algumas poucas horas na mata e se tem uma pálida idéia da biodiversidade acomodada naquele pequeno fragmento. Nem falei da flora abundante e vária. Tem-se a certeza absoluta de que ela é muito maior do que alcança a nossa vista, pelos sons, pelas marcas, pela presença invisível, mas que se sente com precisão. Essa riqueza frágil, abrigada precariamente naqueles poucos hectares de mata, explode de vida, como se festejando a paz reconquistada.
Mas é uma tranqüilidade ilusória, precária, mantida a duras penas. Ao pensar o macroproblema enfrentado pelas áreas de proteção no Brasil, tão bem demarcado pelos vários trabalhos apresentados por pesquisadores ao IV Congresso de Unidades de Conservação, me dei conta de que eles estão todos presentes no microcosmo da pequena RPPN do Brejo Novo.
É preciso vigilância e atitude enérgica, para controlar a agressão de invasores. Há duas fontes principais de risco: os cães vadios do entorno e o gado. Os cachorros são vorazes devoradores de aves e pequenos animais, além de espantarem e ameaçarem os veados, as capivaras e os quatis. Numa madrugada, acordei com o latido de cães de caça na mata. Eles perseguiam uma capivara, que conseguiu se salvar, mergulhando na represa, na borda da mata. Foi preciso ameaçar o dono, caçador meio aposentado: polícia para ele e cartucheira para os cães.

As cercas do entorno da reserva têm que ser mantidas unilateralmente. Os vizinhos não fazem manutenção e sequer se preocupam em buscar o gado que atravessa. Ele invade a mata, abre trilhas, come plantas. Recentemente encontrei folhas de xaxins e de palmito, ainda imaturos, comidos por gado que invadiu a reserva.
Há, numa porção mais baixa da mata, bom número de um lagarto de porte, provavelmente teiú, e tatus. Os moradores do entorno caçam o lagarto, porque ele come os ovos do galinheiro e o tatu porque gostam da carne. Recentemente tive que fazer uma preleção sobre a importância de preservar os lagartos e a proibição de matar animais silvestres na propriedade da reserva, por qualquer razão. “Os lagartos são mais importantes que os ovos de galinha”, disse, para incompreensão absoluta da audiência.
O caseiro, vez por outra, solta peixes que pega no riacho que corta a propriedade e os solta na represa. Outro dia, queria matar um casal de lontras, que comia os peixes. Repetiu-se o diálogo, agora sobre as lontras: “deixa as lontras comerem os peixes, se preciso vamos por mais peixe para elas comerem. Elas são mais importantes que os peixes e, estando aqui, estão protegidas”. Vi, na expressão do seu rosto, que considerava minha hierarquia dos bichos totalmente invertida.
A cultura da maioria dos vizinhos da reserva é de descaso e desrespeito. Mesmo os empregados dela, apesar das preleções, demonstram não compreender o valor de se preservar um pedacinho de mata. É possível ler a incompreensão e o espanto em seus olhares quase irônicos, quando se fala da necessidade de proteger a ferro e fogo, se preciso, a integridade daquele espaço.

O fato de ser um pequeno fragmento significa que tem vários flancos vulneráveis, que dão para a estrada vicinal ou para propriedades vizinhas, todas maltratadas e cobertas de braquiária. Só estão mais protegidas as faces que dão para o interior da propriedade da qual é parte. Numa dessas faces, tem, perto de 600 metros à sua frente, um outro fragmento de mata, quase do mesmo tamanho, miraculosamente preservado por um contencioso inventário familiar que não se resolve.
A caça ainda é uma ameaça. De um dos lados da reserva, atravessando a estrada vicinal, há uma várzea úmida, cortada por pequeno rio, com partes cobertas de bambuzais. Nela vivem algumas famílias de capivaras. Há uns meses atrás, encontramos várias armadilhas espalhadas pela várzea. Novamente, foi preciso usar da ameaça de denúncia e de uso da força, se necessário, para que as armadilhas deixassem de ser colocadas ali. É claro que as capivaras da várzea freqüentam a mata e as da mata, usam a várzea. As armadilhas sumiram de lá, mas certamente foram para alguma outra área próxima.
É uma região de mentalidade atrasada, que não se dá conta do imenso potencial que tem para o ICMS ecológico. Não consegue identificar suas vocações dormentes e inaproveitadas, que lhe permitiriam superar a crise quase permanente em que vive sua economia. Seus óbvios encantos e suas evidentes vantagens são desprezados pela insistência teimosa em um modelo esgotado.
Teria potencial para a formação de várias RPPN, muitas que se poderiam dedicar à educação ambiental, numa região extremamente carente dela, outras ao ecoturismo e algumas à preservação de espécies relevantes. Mas, ter potencial é o mesmo que não o ter, se dele não se tem consciência e não se faz esforço para desenvolvê-lo. Potencial é promessa. Depende de deliberação e ação persistente para se realizar.