Em Planaltina de Goiás, quinze das cem famílias instaladas no assentamento Itaúna desde maio de 2007 adotaram há cerca de um ano o sistema de hortas orgânicas e galinheiros desenvolvido pelo senegalês Aly Ndiaye.

Nascido naquele árido país africano, aprendeu que água não se desperdiça e adicionou irrigação por gotejamento a seu invento. As hortaliças que alimentam e complementam a renda dos assentados esbanjam tons de verde e ajudam a recuperar a terra em uma fazenda degradada pela monocultura de soja, atividade também financiada por bancos públicos.

Os cultivos são adubados com o esterco dos galináceos, que também fornecem ovos e carne. Ervas chamadas de daninhas são mantidas para matar a fome de  insetos e proteger a umidade da terra banhada pelo sol do Cerrado.

Graças à declividade da fazenda, a rega das hortas é feita por gravidade na maioria dos lotes, que têm em média vinte hectares. Os produtores trocam sementes e experiências entre si, como de adubos e fertilizantes naturais, reduzindo a dependência externa para manter a produção que varia ao longo do ano, entre seca e estação chuvosa e dedicação aos roçados de milho, mandioca e outras culturas. Nas hortas circulares plantadas em mutirões crescem itens comuns como alface, cenoura e beterraba, mas há novidades como batata-baroa, alho-de-folha, maxixe e almeirão.

“Assentados estão ganhando uma visão de que é possível tirar o sustento da terra sem colocar nada químico, de sobreviver gerando sua própria renda. Mas falta vontade política para que o sistema seja adotado como política pública”, comentou Ageu Gonçalves da Rocha, da parceira de empreitada Associação para o Combate à Exclusão Social e Preservação Ambiental.

A longevidade dos plantios também depende da consolidação do assentamento, onde a população ainda vive em casas de péssima qualidade (foto ao lado), sem energia elétrica, água tratada ou recolhimento de lixo. Os descartes são enterrados por muitas famílias, às vezes bem perto de poços.

A superintendência do Incra em Goiás informou que este ano foi liberado dinheiro para compra de adubo e outros insumos agrícolas para os roçados convencionais e também que há um milhão de reais para construção de uma centena de casas. Todavia, o valor por residência aumentou em julho para 15 mil reais e a verba só será liberada após uma complementação de 500 mil reais. O Incra não deu um prazo para que isso ocorra.

A instalação de água encanada depende da construção das residências e a ligação da energia está nas mãos da Companhia Energética de Goiás. “A empresa já realizou medições no assentamento e deve trazer a energia até junho do ano que vem”, disse Raimundo Pereira, presidente da associação do assentamento Itaúna.

O sistema de produção já é usado no Distrito Federal e dezoito estados, onde há quase seis mil hortas em 202 municípios. Cerca de quatro mil unidades têm apoio da Fundação Banco do Brasil, que apóia com até 12 mil reais e oferece assistência técnica por cerca de dois anos para cada unidade e convidou a reportagem de O Eco para conhecer a experiência no interior goiano. Ao todo, a entidade já injetou quase 15 milhões de reais para replicar a tecnologia. Os africanos Senegal e Moçambique também adotaram a idéia. (Aldem Bourscheit)

Mais fotos do assentamento aqui.

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