Um Brasil submerso e colorido PDF Imprimir E-mail
Felipe Lobo   
19/12/2008, 07:00

Carlos Secchin tem 55 anos de idade, 35 dos quais dedicados a fotografar as mais diferentes espécies de peixes do Atlântico Sul Ocidental. Depois de tanto tempo, é difícil imaginar o tamanho do arquivo de imagens que ele tem em mãos. Talvez por isso tenham sido necessários dois anos inteiros de muito trabalho para separar os melhores cliques das últimas três décadas, desde 1972 até 2006. O resultado deste garimpo poderá ser conferido a partir de hoje (19), quando o ambientalista lança o livro Peixes do Brasil, na livraria Argumento, no Leblon (RJ), a partir das 19hs.

O papo flui muito bem com esse surfista nas horas vagas, cheio de histórias e saudosismo do tempo em que os mares nacionais não estavam tão degradados. Secchin sempre foi apaixonado pelo mundo desconhecido dos oceanos e usou o mergulho para se curar das terríveis crises de asma que lhe acompanharam durante toda a infância. “Com o snorkel, você é obrigado a botar a água que entra nele para fora – caso contrário, a engole. Esse exercício me fez melhorar”, diz.

Na tarde dessa quinta-feira (18), a reportagem de O Eco conversou com o fotógrafo em um banco em frente ao Centro de Visitantes do Parque Jardim Botânico, que vai receber a exposição Peixes e corais a partir deste sábado. Até 30 de janeiro, os cariocas poderão conferir algumas imagens do livro e também a história dos ambientes que os animais freqüentam, para celebrar o Ano Internacional dos Recifes e Corais (2008!!). Gentilmente, ele parou de prender os quadros na parede durante 30 minutos para conversar com a gente. No papo, contou sobre a tristeza de ver que o mar, hoje, não está para peixe, e falou sobre a expectativa de assistir a carreira reconstruída em páginas impressas. Confira a entrevista, na íntegra, logo abaixo.

O Eco: Como surgiu a idéia de fazer um livro sobre os peixes do Brasil?

Carlos Secchin: A intenção do livro é reunir um material de 35 anos de fotografia marinha, com cuidado principal na qualidade da imagem e naquilo que estivesse representado nela. Afinal, é preciso saber se o objeto retratado tem importância maior no contexto dos freqüentadores e pescadores de cada região, que conhecem o mar e vão saber do que se trata. A proposta não era fazer, propriamente, um guia de identificação de espécies, mas reunir o que há de mais representativo na costa do oceano Atlântico Sul Ocidental e em torno das ilhas oceânicas brasileiras. Há dois tipos de águas ali: as sob a plataforma, de até 80 metros de profundidade; e aquelas que circundam essas ilhas – às vezes, podem chegar a até quatro mil metros de profundidade. Isso não significa que eu desça até lá, porque os peixes sobem também. Há sempre uma troca de corrente, troca de água, o fenômeno da ressurgência, e essa massa se desloca. Então, às vezes, você encontra peixes de profundidade em águas rasas e vice-versa.

O Eco: Qual o principal segredo para atingir um bom nível nas fotografias marinhas?

Secchin: É preciso estar presente, conhecer o lugar, os hábitos e as épocas em que as águas estão mais claras. A fotografia depende muito da qualidade da água. Como ela mantém um grau de suspensão ativo, ela é prejudicial à imagem. Na maioria das vezes, usamos flashes e quando ele é detonado, as partículas rebatem contra a luz e cria uma névoa que prejudica a acuidade, a precisão, o foco e a qualidade da imagem. Uma das vantagens de trabalhar com peixe vivo, embaixo d'água, é que você consegue, através do flash, reproduzir as cores naturais do ambiente. Porque o ambiente marinho é quase todo monocromático, todo filtrado pela camada azul da água. A um metro e meio de profundidade já há perda acentuada dos tons quentes. Com flash eletrônico, é possível identificar melhor os peixes e ter surpresas agradáveis quando revela o filme.

O Eco: O livro foi todo feito em filme com revelação?

Secchin: Sim, esse livro foi feito todo com película e ISO 100 ou 50. Ela ajuda na reprodução dessas cores quentes. Há dois anos eu trabalho com digital, mas o livro foi todo realizado a partir de material analógico, com revelação, o que dá um trabalho enorme. Você gasta muito tempo para produzir pouca coisa, às vezes roda meio filme com um dia inteiro de trabalho. É complicado trabalhar no Brasil, distâncias longas, pouca infra-estrutura e o aporte de água doce na costa é gigante. Agora no verão, quando seria a época mais propícia para a fotografia, tem uma quantidade de água que desce dos morros e encostas enorme, e detona a água salgada. Então é preciso viajar para muito dentro do mar, lá fora, em busca de água azul. Isso requer ampla estrutura.

O Eco: Você parou de fotografar os peixes há dois anos. Acha que o “Peixes do Brasil” foi feito na época ideal?

Secchin: O livro foi feito em uma época vantajosa, o Brasil ainda não tinha se submetido a esse castigo, a essa destruição sistemática de todo o litoral, essa anarquia. Aliás, o grande representante da anarquia nacional é o Rio de Janeiro, onde tudo pode. Essa falta de zelo e amor com a natureza no Brasil nos faz perder grande e inestimável patrimônio. E acho que o livro também tem essa tentativa, de fazer um inventário da destruição. E ela é irreversível.

O Eco: Qual foi a data em que você começou a produzir?

Secchin: Tem um cromo que tirei em 1972, quando iniciei meus trabalhos, e parei em 2006. De lá para cá estamos construindo o livro. Parei também por causa da destruição, porque não adianta eu revisitar as áreas que conheci na sua plenitude e agora vê-las completamente perdidas, desfalcadas. É doloroso presenciar toda essa destruição.

O Eco: Quais lugares estão representados nas imagens?

Secchin: Trabalhei desde Natal, Atol das Rocas, Fernando de Noronha, litoral sul da Paraíba, litoral inteiro de Pernambuco, o litoral norte de Alagoas, todo o litoral sul da Bahia e o arquipélago de Abrolhos. Depois, fiz o Espírito Santo inteiro, assim como o Rio de Janeiro e o arquipélago das Cagarras. Só não fui de Paraty para baixo.

O Eco: Você tem idéias de quantas espécies fotografou?

Secchin: De cabeça não sei, mas é muito peixe. Fotografei algumas ocorrências que ainda não tinham sido detectadas e algumas espécies que só se conhecia através das coleções de museus. Muitos trabalhos de ilustração são feitos a partir delas e, às vezes, não conseguem representar a cor de verdade do bicho. A vantagem desse livro é que, quando se mostra a fotografia de um peixe vivo (e que só é conhecido através de coleções), vê-se fielmente como ele é. Isso porque, quando o animal pára de respirar, ele apaga e perde a cor. Basta ir para o formol e já muda novamente.

O Eco: Você manipulou algumas das imagens, ou elas estão em sua obra da mesma forma de quando foram reveladas?

Secchin: No livro eu usei poucas ferramentas, como carimbo, só para tirar os pontos brancos no fundo, porque aquilo incomoda o leitor, parece um defeito de impressão. Só limpei. Já para a exposição, trabalhei um pouco mais com o intuito de dar um aspecto mais gráfico. Eliminei o fundo em algumas imagens para destacar o peixe.

O Eco: Qual a estrutura do livro?

Secchin: O livro é quase uma retrospectiva da minha vida no mar. Os lugares pelos quais passei, aqueles de que gostei, os que detestei, um pouco dessa experiência, mas sempre ligado com a fotografia. Abordo as dificuldades de executar esse trabalho no Brasil, mas também falo das descobertas, maravilhas da natureza. Sentir a sensação do privilégio de ser o primeiro a mergulhar naquele lugar faz um bem danado à alma e isso aconteceu muito nos anos 1970. Entrar e ser recebido pelos cardumes, peixes menores. Mas é interessante, porque há espécies que eu levei oito anos para fotografar. É o caso do Clepticos brasilienses, um peixe muito arisco, oceânico. Casualmente, consegui fotografar. Conto também a história dos corais, falo de Abrolhos, as ocorrências novas. O livro é bacana, acho que o mais completo que já fiz. E o que demorou mais tempo, também.

O Eco: Quando os leitores chegarem às livrarias para comprar Peixes do Brasil”, com o que irão se deparar?

Secchin: O livro tem um texto de apresentação escrito por mim. Também convidei o engenheiro ambiental, professor da PUC-Rio e colunista d'O Eco, Carlos Gabaglia Penna, para fazer uma análise da situação geral e atual dos mares no mundo. Ele traça um panorama e diz como está a saúde dos oceanos do planeta. As fotos são seguidas do nome vulgar da espécie, se tiver, o nome cientifico, o local em que foi clicada e a profundidade. Tem muita gente que ama peixe, pesca, mergulha e isso foi o que eu pude reunir para eles. E acredito que seja o livro mais completo sobre peixe que existe no Brasil.

O Eco: Por que 35 anos para fazer esta coletânea?


Secchin: Quando eu comecei a fotografar, era uma época em que publicávamos matéria e montávamos arquivos para a venda. Claro que se separa o que tem de melhor para um dia fazer exposições, ou usar em outro trabalho, como um livro. Trabalhei com vários temas, como Pantanal, muita coisa ligada à natureza, não só debaixo d'água. Então, eu compartimentava esses assuntos: aves, peixes, corais etc. Sabia que peixe é um assunto inesgotável e, por isso, teria que esperar alguns anos para publicar. Quando você mergulha no oceano e percebe que ainda não registrou tudo, vai deixando rolar. Há dois anos, quando vi que o mar não estava mais para peixe, parei e decidi que tinha chegado a hora. Conversei com a editora, formatamos a idéia, e acho que foi o momento certo.

O Eco: Peixes do Brasil será lançado hoje. Quais os próximos passos?

Secchin: Esta exposição no Jardim Botânico está prevista para inaugurar no sábado (20) de manhã, seguido de novo lançamento do livro e manhã de autógrafos. Fica no Centro de Visitantes até o dia 30 de janeiro. Aqui não estão as fotos do livro, exatamente. O nome da mostra é Peixes e corais, pois falo dos ambientes que eles freqüentam. É uma outra proposta, até porque comemoramos agora em 2008 o Ano Internacional de Recifes e Coral em todo o planeta. Eles estão sofrendo muito, à beira da extinção, e resolvi apresentar o que tenho de interessante sobre o assunto.

O Eco: Como você começou a mergulhar? Foi na infância mesmo, de onde surgiu o interesse?

Secchin: Desde garoto eu tinha uma fixação por peixes. Tinha muitos aquários até os 10, 12 anos de idade. Eu sofria muito de asma na época, ficava a noite toda assoviando e olhando para os meus peixes. Eles me ajudavam, de alguma forma. Eu tinha que retribuir um dia. Minha ligação com o mar foi boa porque o problema do asmático é que ele inspira e não sabe expirar. Com o snorkel, você é obrigado a botar a água que entra nele para fora – caso contrário, a engole. Esse exercício me fez melhorar e acabei curando minha asma com cerca de 15 anos. Já nessa época tinha uma ligação muito forte com o mar, tanto em mergulho quanto em esportes como o surfe. No mergulho, comecei com caça e depois veio a fotografia. Essa ficou mesmo.

O Eco: E você ia sozinho ou era levado pelos mais velhos?

Secchin: Quando pequeno eu era levado como mascote, tomei muito tapa, esporro, fui aprender com quem sabia. Eram caçadores profissionais, copiava tudo deles. Depois comecei a fotografar sozinho, até porque debaixo d'água é bom não ter barulho. A explosão do flash assusta. No livro eu conto que, nos primórdios, os flashes eram feitos com lâmpadas descartáveis e elas explodiam. Todo mundo saía correndo.
Comentários
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Sensacional
AUDER MACHADO VIEIRA LISBOA 22/12/2008 13:05:02

Para quem como eu tem a fotografia submarina como paixão, ler esta notícia do
novo livro e exposição do Secchin é um verdadeiro presente de Natal...
Sensacional!
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