Santa Catarina: tragédia esperada PDF Imprimir E-mail
Aldem Bourscheit   
28/11/2008, 17:20

Em março de 2004, Santa Catarina levou um susto com a aproximação do ciclone Catarina. Nos últimos dias, o estado sentiu na pele, novamente, uma amostra de como imprevidência humana amplia o poder de destruição de uma "catástrofe natural". O aguaceiro que desabou por lá arrasou encostas, transbordou rios e deixou um saldo, segundo a Defesa Civil, de quase 80 mil desabrigados, uma centena de mortes, 19 desaparecimentos e afetou a vida de 1,5 milhão de brasileiros.

Dados de hoje do Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia (Ciram) daquele estado mostram que a estação meteorológica de Blumenau registrou o recorde histórico de 283 mm em 24 horas, entre os dias 22 e 23. Já em Joinville, choveu mais do que em Blumenau no acumulado até o dia 24 de novembro - 911 mm contra 878 mm. A enxurrada também foi forte em Guaramirim, Ilhota, Gaspar e Luis Alves. Lá, no entanto, não se sabe da quantidade de água despejada pelas nuvens. “É uma pena que não temos os registros das chuvas nestes municípios, que podem ter sido surpreendentes”, lamentou Germano Woehl, coordenador de projetos da não-governamental Rã-Bugio. O aumento da precipitação se encaixa perfeitamente como uma conseqüência das mudanças climáticas.  

Um dos municípios mais atingidos pelas enxurradas, Blumenau acaba servindo de exemplo sobre como a ocupação humana desordenada e o desrespeito à legislação ambiental podem catapultar os impactos de uma chuvarada. Mesmo que no município a vegetação ainda resista bravamente, ao contrário do restante da Mata Atlântica catarinense, reduzida a 17% da cobertura original.

A professora e pesquisadora de Ecologia de Florestas da Universidade Regional de Blumenau, Lúcia Sevegnani, jogou um pouco de luz no “fenômeno natural”. Ela lembrou que a população local saltou de 120 mil para cerca de 300 mil habitantes nas últimas duas décadas. Todos atraídos pela “cidade rica”, com qualidade de vida e cheia de oportunidades.

O inchaço demográfico repentino e as enchentes do início dos anos 1980 jogaram favelas, residências e condomínios nas encostas de morros e beiras de rios, áreas onde a lei procura evitar ocupações, pois quase sempre oferecem risco a seus moradores. Tudo sob a vista-grossa dos dirigentes. Pois, foram justamente esses locais os mais afetados pela enxurrada deste ano. “Os governos estimularam a ocupação de encostas e margens de rios no meio urbano e rural. Criaram uma bomba relógio”, disse Sevegnani.

A professora e pesquisadora lembra que áreas com boa quantidade de matas e nenhuma ocupação humana também registraram deslizamentos ou foram engolidas pelo aguaceiro. No entanto, ela avalia que a falta de planejamento na ocupação da terra tem papel forte na ampliação dos efeitos das chuvas. “Em locais onde havia floresta também desabou. É verdade. Mas devemos nos colocar como co-responsáveis nesse processo”, ressaltou.

Casos comuns

Taxando o ocorrido simplesmente de “fenômeno natural”, isenta-se a gestão pública de responsabilidade e transforma-se a natureza de mãe em madrasta. Conforme Woehl, da Rã-Bugio, as populações de Jaraguá do Sul e Guaramirim crescem a um ritmo de 6% ao ano. Novo caso de explosão demográfica baseada em imigração. “Nos últimos anos, o tempo todo estamos combatendo as ocupações das encostas. Mostramos em nossas palestras, em escolas e outros locais, várias imagens de desmoronamentos, com vítimas, nesses municípios”, comentou o ambientalista.

Consultado pela reportagem, o geólogo Luiz Fernando Scheibe puxou da memória outras enchentes semelhantes na história de Santa Catarina. Lembrou das 199 mortes registradas em 1974, com a enxurrada e deslizamentos na Bacia do Rio Tubarão. Recordou do Natal de 1995, quando fenômenos semelhantes deixaram 28 mortos em Jacinto Machado e outros municípios do sul do estado. O mesmo ocorreu nos anos 1983/84 em Blumenau, mas próximo às quase desocupadas nascentes do Rio Itajaí.

Ele também avisou que a ocupação de encostas sempre potencializa os efeitos de chuvas excepcionais, facilitando deslizamentos. Isso acontece porque cada casa ou condomínio é erguido nessas áreas com terraplanagem e aterros, removendo a terra que segura o solo logo acima. “Assim se cria um ambiente favorável aos deslizamentos. O problema é comum a várias regiões do estado”, apontou o professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina.

Quanta solidariedade

Sempre aguçada pela próxima tragédia, a tão falada solidariedade do povo brasileiro enviou toneladas de mantimentos e, até agora, mais de R$ 3 milhões em doações. Bancos estão abrindo contas para ajudar as vítimas. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) enviará 708 toneladas de alimentos aos desabrigados, Lula sobrevoou a região e o governo anunciou pacote bilionário de auxílio. O dinheiro tem destino certo – estradas, pontes e outros itens de infra-estrutura pública. Também será facilitado o saque do FGTS e a obtenção de créditos para reconstrução de moradias.

No entanto, quem conhece a realidade regional teme que tamanho movimento não evite futuras tragédias. A tendência é de que as pessoas voltem às encostas. Muitos não têm outra opção, já que os terrenos nas áreas planas e mais seguras são os mais caros. “Em muitos locais nem existe mais terreno, só uma encosta ainda mais íngreme. Mas a tendência é de reconstrução de tudo, nos mesmos lugares”, lamentou o professor Scheibe. “Seria interessante que parte desses bilhões anunciados fosse usada para realocar pessoas em locais mais seguros, como na área norte de Blumenau”, recomendou o geólogo.

Lúcia Sevegnani, da Universidade Regional de Blumenau, concorda. Para ela, o drama do Vale do Rio Itajaí deveria ser uma oportunidade para planejar a cidade e a região em outros moldes, adequados a sua realidade geográfica e climática. “Reconstruir a cidade precisa ser pensado, se não, daqui a alguns anos, poderemos ter novas situações. Precisamos de políticas para direcionar os investimentos e não repetir os mesmos erros”, ressaltou.

Erosão ambiental

Em seu imperdível Green Ink (Tinta verde), o veterano jornalista Michael Frome comenta que “muitos dos danos ao meio ambiente ocorrem lentamente aos olhos humanos, mais como uma erosão do que como um deslizamento de terra, e a maioria das pessoas está ocupada demais ou se movimentando demais para perceber”.

Esse é o caso das enxurradas e deslizamentos catarinenses: têm raízes naturais amplificadas pela mão humana, ao longo de muitos anos.

No entanto, frente à dura realidade da tragédia, o governo de Santa Catarina vem trabalhando para alterar sua legislação ambiental e reduzir a proteção das chamadas áreas de preservação permanente, como encostas de morros. Além disso, quer cortar parte do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, principal área protegida do estado com Mata Atlântica.

As propostas, obviamente, não agradaram a quem vê o futuro além da próxima eleição. “O caminho não é esse. A tragédia mostra que devemos desocupar e recuperar encostas e beiras de rios”, comentou Savagnani.

Ela, outros professores, equipe do Projeto Piava (Fundação Agência de Águas da Bacia do Itajaí) e outras instituições divulgaram um manifesto pedindo a manutenção do código ambiental catarinense. Para ler, basta clicar aqui.

A previsão é de chuva para os próximos dias em Santa Catarina.

Comentários
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Catástrofe na Serra do Mar
Renato Rizzaro 29/11/2008 08:44:30

Alguém lembra os motivos pelos quais as encostas da Serra do Mar vieram abaixo
há alguns anos? Se foi desmatamento, ocupação ou excesso de chuva/poluição
em Cubatão? Quais providencias foram tomadas? Gostaria de ver esta questão
explanada pela equipe de O Eco.
Obrigado
O Brasil não entende?
Ocelote 01/12/2008 04:45:50

Gostei desta coluna, especialmente porque aponta exatamente a causa verdadeira
da tragédia: a tragédia brasileira em questões ambientais. As pessoas
associam questões ambientais como se se restringissem a florestas, bichinhos,
peixes, áreas protegidas, e coisas assim. Fica evidente que as questões
ambientais são profundamente determinantes da história humana, e história
humana está profundamente associada com a experiências ambientais de
populações inteiras.
No caso de Santa Catarina (e esta situação se repete
Brasil afora), a origem de tudo está na burrice de se desmatar encostas e topos
de morro, construir nestas encostas, esquecer das várzeas dos rios e lá
construir muito e encher de gente. Muitas obras (rodovias, por exemplo)
públicas são construídas em locais inadequados, aparentemente por falta de
opção, mas também pela arrogância de engenheiros que ainda acreditam que a
meta humana e de sua profissão é dominar a natureza, subjugar as dificuldades
impostas pelo meio natural, impor e nada mais.
Junte-se a isso tudo a memória
curta da população e dos governantes (estes mais interessados em fazer média,
dissimular, etc). O resultado é que montamos aos poucos uma enorme armadilha
para nós mesmos.
Quem viu imagens da tragédia pode facilmetne perceber o
contexto nos locais de deslizamentos e de enxurradas devastatdoras. Todas
ocorreram em locais onte encostas estavam sem florestas, ou o topo dos morros
estava ocupado.
Nenhum canal de televisão que eu asssti teve uma única
palavra no sentido de apontar estes problemas. A culpada de tudo foi a chuva. No
canal GloboNews assisti a uma conversa entre jornalistas, e um deles, da revista
Época (não me recordo o nome), culpava os meteorologistas, que não foram
capazes de avisar as pessoas sobre as chuvas. Alegou que em outros países as
pessoas são geralmente retiradas antes de catástrofes como esta. Uma visão
míope demais para alguém que trabalha com informação e tem a
responsabildiade de informar bem o público, porque isso também tem a ver com
educação da população (o brasileiro talvez seja um dos povos mais
desinformados do mundo, cheio de concepções erradas e mitos e crenças não
verdadeiros). Este jornalista talvez nunca parou para pensar que tragédias como
estas acontecem em países sub-desenvolvidos, mas às vêzes acontecem também
em países desenvolvidos (veja casos da Itália, França, Inglaterra, etc,
comparando-os com Bangladesh, Peru, Brasil, vários paises do sudeste e sul da
Ásia....e etc). Em todos os problemas estão relacionados com uso inadequado da
terra.
As catástrofes naturais sempre são problemas maiores quando ocorrem em
conjunção com decisões erradas pelos humanos.
Mirem-se no exemplo do Japão,
hoje o país com maior proporção de florestas no mundo. Lá, as florestas
foram replantadas séculos atrás por conta de sábia decisão de um imperador.
As pessoas vivem nos vales, em alta densidade demográfica (por falta de
espaço, e ainda usam cada metro em produção de alimentos). Por outro lado, as
enconstas e montanhas são livres de construções e são dominadas por
florestas que ajudam a conter a água e a terra.
É preciso coragem para voltar
atrás e repensar o uso da terra em Santa Catarina. Aproveitar o trauma coletivo
e transformá-lo em oportunidade para aprendizado coletivo. O momento é agora,
e os governantes tanto na esfera Federal como na Estadual e na Municipal
precisam fazer de tudo para que, num futuro que promete, novas e piores
tragédias não voltem a ocorrer. Re-planejar metivulosamente o uso da terra,
transformar em leis coisas que realmente ajudem a evitar problemas como o que se
abateu sobre os catarinenses, independentemente de serem ecoogistas ou
desmatadores, ricos ou pobres, loiros ou morenos, moradores de encostas ou de
fundos de vale, tementes a Deus ou descrentes, ateus ou à-toas, empresário ou
consumidor.
Os cenários de mudanças climáticas sugerem um acirramento de
fenômenos com o El Niño, e aumento de eventos climáticos extremos, como
dilúvios como este que ocorreu semana passada. Então, os cenários estão
prontos, resta a nós decidir se investimos nossa inteligência de forma
preventiva ou vamos apenas nos limitar a dar condiçoes para alimetnar a mídia
no futuro com mais espetáculos macabros como este.

Mas acho que o Brasil
não entende estas coisas, ou temos em nosso DNA uma inércia, uma preguiça e
falta de ousadia que afunda a todos no dia a dia....

Então, como ser
otimista???? Se não for agora, com este trauma coletivo, não será nunca que
veremos uma mudança de mentalidades.
Difícil ser otimista...ruim ser
pessimista...mas nuca se deve deixar de ser realista. Acho que tudo vai
continuar como antes....
hjcbucbu
jscbjb 11/03/2009 10:43:51

gosteiiii!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

jwnucuecubcjkcdik
jbfhfdijvn
tania 14/04/2009 11:37:48

a que lokura isso ai mais DEUS É PAI E NUNCA MTARIA INOCENTES DESNECESARIAMENTE
meu deus
fabio 03/06/2009 16:33:53

nossa q que i sso que ddestruiçao
desgraça na cidade de santa catarina
edvaldo 25/06/2009 18:03:29

e duro alar sobre a tagedia q ocorreu na cidade de santa catarina,muitas pessoas
ficaram desabrigados por causa das:enchentes,desbarrancamentos e etc...
mas
as solidariedade dos brasileiros foi fundamental para a ajuda de novas casas
populares e seguras. ok!!!!!!!!!!!!!
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