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Londres - Em Manaus e outros pontos da floresta amazônica, diversos pesquisadores conhecem o botânico inglês Ghillean Prance (foto ao lado) por sua inegável contribuição para o avanço das pesquisas na região a partir dos anos 1970. Foi ele quem fundou o curso de pós-graduação do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), além de ter chefiado um extenso programa de estudo sobre espécies vegetais (ainda em curso) na floresta tropical – o Flora Amazônica. No entanto, nem todos sabem que Prance é conhecido como um dos maiores estudiosos vivos das matas tropicais. Sua contribuição já lhe rendeu títulos suficientes para encher toda uma galeria. Teve a honra, por exemplo, de ser diretor de dois dos mais prestigiados jardins botânicos do mundo, o de Nova York e o de Londres (Kew Gardens).
Entre suas honrarias, inclusive, consta a de cavaleiro do Reino Unido. Mas Sir Ghillean está mesmo é a serviço de sua majestade a floresta tropical. Portanto, tem muita história para contar. Ele iniciou sua carreira na Amazônia em 1963, quando se juntou a uma expedição do Jardim Botânico de Nova York ao Suriname. Um ano depois, já estava no Brasil, país cuja biodiversidade mais o fascinou e consumiu seu tempo de pesquisador. Ele lembra, com certo pesar, que naquela época viu o começo do grande ciclo de desmatamento. “Quando fizeram a Transamazônica, eu e meus alunos (do Inpa) fomos ver o que estava acontecendo. Depois daquilo as coisas só pioraram”, relata.
Nesta entrevista, concedida a O Eco na Sociedade Real de Geografia, em Londres, Prance argumenta que as mudanças climáticas são uma ameaça enorme às florestas tropicais, mas também uma oportunidade. Ele tem sido um entusiasta dos mercados de carbono como forma de financiar a interrupção do desmatamento. Conta, também, sobre seus projetos recentes, como uma parceria com índios guaranis para preservar o que resta de Mata Atlântica na Argentina. Leia entrevista completa abaixo ou escute trechos principais nos links abaixo (em inglês)
Sir Ghillean fala sobre
Ameaças à floresta amazônica (.mp3)
O senhor estuda a Amazônia há quase quarenta anos. O que mudou nesse período? Neste momento, por exemplo, parece que há uma preocupação global sobre o futuro das matas tropicais?
Ghillean Prance – As pressões parecem estar constantemente aumentando. Recentemente eu visitei um campo de soja em Santarém, onde eu costumava coletar plantas na floresta. Eu fiquei bastante perturbado em ver aquilo. De forma que uma das grandes ameaças à Amazônia é a cultura da soja. Agora, também estou preocupado com o avanço do arroz em Roraima e todo o caso envolvendo os índios naquela região. E também a questão da madeira ilegal. Apesar de todas as leis, o governo não tem sido capaz de implementá-las e ainda existe uma quantidade enorme de madeira ilegal. E isso é uma vergonha, pois madeira, acima de todas as outras coisas, poderia ser manejada sustentavelmente. O mesmo acontece em outros países que possuem a Amazônia. Se você vai ao Peru, vai ver a enorme quantidade de madeira ilegal que está sendo vendida à China. Por isso, a estrada que ligará o Brasil ao Pacífico (BR317) causa grande preocupação. É uma forma de levar mais madeira para a China.
É realmente possível ter um manejo sustentável de florestas? No Brasil, apenas começamos a implementar uma lei nacional de manejo. Mas outros países, como Congo, Peru, não têm histórias bem sucedidas.
Prance – Existem poucas histórias de sucesso. E para isso é preciso um controle muito rigoroso. Um dos problemas é que as pessoas ficam motivadas e exageram, acabam tirando muito da floresta. Mas certamente é possível. Nós temos que ir por este caminho.
Quando o senhor começou a trabalhar com florestas tropicais, já era possível imaginar que isso se tornaria uma questão tão importante e global?
Prance – Não, eu não imaginava. Quando eu comecei a trabalhar na floresta amazônica – eu estive a primeira vez no Brasil em 1964 e no Suriname em 1963 – eu era apenas um biólogo que estava aprendendo e muito entusiasmado com meu trabalho. Depois, no começo dos anos 1970, quando decidiram construir a Transamazônica (BR230), eu levei meus alunos de Manaus até lá e vimos o começo dos grandes desmatamentos. Foi ali que comecei a ficar realmente preocupado, e as coisas têm se tornado piores desde então.
Frente a seu trabalho no Inpa, na década de 1970, qual sua opinião sobre a evolução das pesquisas com a biodiversidade das florestas tropicais? As coisas cresceram desde então?
Prance – A pesquisa que eu iniciei em Manaus ainda segue. Muitos dos estudantes que tive estão em diversas instituições na Amazônia e estão treinando outros estudantes. O curso que criei no Inpa, em 1973, ainda existe (de pós-graduação). O programa Flora Amazônica também continua a funcionar, simplesmente porque precisamos de informação básica sobre a flora para fazer conservação ou qualquer tipo de uso sustentável da região. Um dos aspectos importantes disso é aprender com as populações indígenas. Acho que, no tempo em que passei com eles, aprendi muito e vi que seus métodos são muito importantes. Me lembro quando, em 1976, descobriu-se a terra preta dos índios e todos estavam se perguntando como eles puderam fazer uma terra tão fértil em um local de solo tão pobre. Isso nos mostrou que as técnicas deles são muito importantes para nós.
De forma geral, as pesquisas a respeito da conservação da biodiversidade estão obtendo resultados?
Prance – Eles não são suficientes. Nós sabemos, por exemplo, que botânicos e zoólogos estão descobrindo novas espécies o tempo todo. Isso nos mostra que não temos ainda um inventário completo da Amazônia ou de qualquer floresta tropical. Então, temos muito que fazer. E não é apenas catalogá-las. Precisamos entender a ecologia destas espécies, como elas vivem e interagem. Esse tipo de informação é o que mais precisamos. Pois, se você perde uma espécie, isso afeta todas as outras.
Suas primeiras pesquisas como taxonomista foram focadas em algumas espécies. Hoje um cientista no campo já deve pensar nestas conexões?
Prance – Nós precisamos das duas coisas. Você não pode trabalhar sobre estas ligações ao menos que a taxonomia das espécies esteja clara. Interessante hoje é que temos métodos moleculares também, o que nos permite classificações muito melhores. Muito do que já foi feito, por exemplo, precisa ser revisado através de dados moleculares. Fico feliz em ver que pesquisas desta natureza estão ocorrendo não apenas nos países desenvolvidos como também em muitas partes do mundo em desenvolvimento.
Durante os períodos como diretor do Kew Gardens, em Londres, e do Jardim Botânico de Nova York, o senhor trabalhou muito com a recuperação de florestas. No Brasil, sempre falamos muito na recuperação de áreas degradadas. Isso é realmente possível?
Prance - Existem programas pilotos que mostraram que é possível fazê-lo. É muito importante fazer a recuperação de áreas de Mata Atlântica, onde as matas estão fragmentadas, para criar corredores para a biodiversidade. Creio que recuperar é importante também para fragmentos isolados na Amazônia. Uma vez conectados, ganham muito mais viabilidade. Existe boa quantidade de pessoas trabalhando com restauração, principalmente ao longo da Transamazônica. O grupo de Daniel Nepstad (IPAM) está fazendo um trabalho muito bom. Eu acho que, ao passo que formos vendo mais terras abandonadas, devemos trabalhar sobre elas e transformá-las em floresta o mais rápido possível.
As cores da floresta![]() No dia 6 de novembro, Ghillean Prance lançou, na Sociedade Real de Geografia, em Londres (Inglaterra), um interessante livro sobre as florestas tropicais de todo mundo - “Rainforest – Light and Spirit” (Florestas Tropicais – Luz e Espírito). A publicação foi feita em parceria com o pintor britânico Harrold Holcroft, que passou cinco anos viajando para retratar as matas da Amazônia, Bornéu, Gana e outras. Além dos textos de Prance, o livro tem um prefácio inflamado do herdeiro do trono britânico, o príncipe Charles. Sem meias palavras, o futuro monarca diz que a produção desenfreada de commodities em países como Brasil e Indonésia está acabando com as últimas florestas virgens do planeta. Commodities como soja e carne, fartamente compradas por países como a Inglaterra, diga-se de passagem. Holcroft concorda com o príncipe. Em suas andanças, viu muita destruição. “Acho que os chineses, que já destruíram todas as suas florestas, estão desesperados por madeira. Em Bornéu, por exemplo, usa-se a desculpa de que estão desmatando para produzir biocombustíveis”, reclama o pintor. É interessante ver como o artista retrata paisagens tão complexas, como uma mata densa e úmida. “Eu descobri que a luz refletida nas florestas da América do Sul é verde. Na Ásia é azul. E na África, vermelho”. E como conseguiu captar o “espírito” da floresta? “Eu decidi passar uma noite sozinho no meio da mata, na Bolívia. Assim que anoiteceu, foi a experiência mais assustadora de minha vida”, conta. |